Agenda ideológica | 01.03.2004

"Os dogmas do governo Lula estão custando cada vez mais ao país"
Roosewelt Pinheiro/abr

A ministra Marina Silva, do Meio Ambiente: "para ela, o agronegócio é ruim para o Brasil"
Por J. R. Guzzo

Está ficando cada vez mais cara a fatura que os brasileiros já pagam, e ainda vão pagar, pela insistência do governo e das seitas ideológicas montadas à sua volta em administrar o país obedecendo a um catecismo de "princípios". Dos transgênicos ao combate à pobreza, da produção de energia elétrica à política externa, dos pedágios de estrada à reforma agrária, é difícil encontrar alguma questão, hoje em dia, que possa ser discutida a partir de uma pergunta bem simples e lógica: "Qual a melhor maneira de resolver isso?" Não. A pergunta que se faz é: "Como nossas idéias serão aplicadas no caso?" A conseqüência desse tipo de atitude é a sistemática predominância, dentro do governo, dos compromissos com a ideologia sobre os compromissos com a solução de problemas reais.
O tratamento dado à questão dos produtos transgênicos é um clássico do gênero. O governo, de forma até surpreendente, tinha conseguido algo que raramente consegue: elaborar um projeto racional, sensato e moderno sobre os organismos geneticamente modificados, no qual os fundamentos eram o estímulo à produção, o apoio à pesquisa e o respeito à ciência. O projeto talvez não fosse o melhor do mundo, coisa perfeitamente aceitável num tema tão complexo como esse. Mas tinha o notável mérito de abandonar o debate metafísico, os preconceitos e os dogmas ideológicos que cercam o assunto em favor de uma proposta objetiva para transformar os avanços da genética em benefícios reais para o país. Entra em cena, aí, a gestão por meio de princípios -- no caso, os princípios da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, de pregadores evangélicos e padres católicos, que não admitem a existência legal de produtos transgênicos no Brasil, na agricultura, na pecuária, na medicina ou onde for.
Resultado: o governo permite que o seu próprio projeto seja demolido, aceitando mudanças que, na prática, inviabilizam a aplicação da pesquisa genética na vida ativa do país. Não faz isso por ter chegado à conclusão que o projeto era deficiente e precisava ser corrigido, mas pura e simplesmente para satisfazer as convicções de sua ministra e o veto dos religiosos. Não há, no fundo, grande surpresa nisso, quando se leva em conta que a Igreja vem combatendo a ciência e os cientistas há 2 000 anos -- embora já não se insista mais que a Terra é plana, que o mundo começou a existir às 9 horas da manhã, em ponto, do dia 23 de outubro de 4004 a.C., segunda-feira, ou que a Bíblia anula as leis da física. Também não chega a ser uma novidade a postura da ministra Marina, que acredita, sinceramente, que o avanço do agronegócio é uma desgraça para o Brasil. O problema é a facilidade com que o governo deixa esse tipo de postura ganhar um peso decisivo em suas ações, a ponto de acabar fazendo exatamente o oposto do que pretendia.
Não é diferente o que acontece no setor de energia, no qual os sistemas de produção e distribuição vão sendo desmontados, pedaço a pedaço, em conseqüência da agenda ideológica da ministra encarregada da área, Dilma Rousseff. Os dados da questão são bem conhecidos. O Brasil precisa fazer investimentos de 20 bilhões de reais por ano, já agora em 2004 e nos anos seguintes, para atender à demanda visível de eletricidade. O governo só consegue fornecer 8 bilhões desse total, e olhe lá -- o restante terá de vir de investimentos privados. Seria lógico, assim, que o Ministério de Minas e Energia tivesse hoje uma preocupação acima de qualquer outra: garantir, com ações concretas, que as empresas privadas coloquem no negócio os 12 bilhões por ano que estão faltando. Mas a ministra faz o contrário: para atender às suas convicções pessoais de que energia é coisa estatal, impôs ao governo e ao Brasil um modelo que na prática garante o desinteresse de investir no setor. Essa atitude pode ser admirável do ponto de vista pessoal, mas é um desastre para quem precisa de eletricidade. A ministra fica em paz com seus princípios. Em compensação, não gera um watt a mais nas tomadas, não diminui um centavo na conta de luz e não cria um único emprego.
O governo e os legisladores dizem o tempo todo que seu maior ideal é a distribuição de renda, algo que só o Estado teria força para fazer -- e para isso aumentam cada vez mais os impostos, para financiar "programas sociais". Imaginam, assim, que estão transferindo renda dos "ricos" para os "pobres". Na verdade, estão apenas tornando os produtos mais caros e garantindo que a maioria dos brasileiros continue impedida de consumir. Outro princípio capital do governo é combater a miséria no campo com a distribuição de terras. O cientista americano Norman Borlaug, Premio Nobel da Paz e pai da celebrada "revolução verde", acaba de lembrar em sua recente visita ao Brasil que tudo que se consegue com isso é multiplicar a quantidade de agricultores pobres. Borlaug, aos 89 anos de idade, sabe mais sobre essas coisas, sozinho, que todos os funcionários do Incra somados, mas não é preciso ser nenhum Borlaug para verificar que a "reforma agrária" no Brasil não produz nada que preste -- basta olhar um assentamento do MST. Ainda assim, o governo persiste na mesma linha. O que lhe interessa não é obter resultados, e sim demonstrar sua fé no ideal de que a terra deve ser "para todos".
O Ministério do Trabalho tem se declarado empenhadíssimo em combater o chamado trabalho escravo por meio de ações que transmitem a impressão de intensa atividade na área, rendem espaço nos jornais e tempo na TV -- mas acha perfeitamente normal que não se perca um minuto para encarar o real problema, que está no fato de milhões de trabalhadores brasileiros poderem optar, com toda a liberdade, entre ganhar uma miséria e não ganhar nada. Exemplos dessa paixão pela forma em lugar da essência, pela palavra em lugar da ação, estão bem longe de se limitar às questões mencionadas acima. A lista poderia continuar e continuar, mas a alma do problema não muda: enquanto insistir na crença de que seu papel é vender princípios em vez de entregar soluções, o governo estará condenado a fazer muito pouca coisa útil.
"A verdadeira política consiste em tornar a vida das pessoas mais cômoda", dizia o conde Chabrol de Volvic, prefeito de Paris cerca de 200 anos atrás. A definição de Monsieur de Volvic, homem atento às virtudes da modéstia e cético quanto à onipotência dos governos, não é a única possível, mas vai dar trabalho achar outras que, no fim das contas, sejam realmente melhores que a sua. Eis aí alguma coisa em que o governo poderia pensar um pouco.

Voltar ao Índice