A
Questão dos Agrotóxicos nos Alimentos
O Caso do Bicarbonato
Gostaríamos de comentar a matéria divulgada pela Rede Globo e outros veículos de jornalismo, na última semana, sobre a questão dos agrotóxicos nos alimentos e a melhor maneira de se evitá-los. Sem dúvida, na medida em que algumas poucas análises de controle de qualidade são feitas, principalmente análises de resíduos de agrotóxicos, nos defrontamos com dados alarmantes e preocupantes. O Instituto Biodinâmico, com sua experiência de 10 anos em certificação orgânica e biodinâmica e em análises químicas de culturas agrícolas e alimentos, pode acrescentar, ainda, que se trata apenas da ponta do iceberg. São dezenas de princípios ativos sendo introduzidos todos os dias em todas as culturas agrícolas do país e do planeta. O movimento de agropecuária orgânica já alertou inúmeras vezes para este problema que vem causando prejuízos sérios e irreparáveis à saúde da população e também ao meio ambiente. O Brasil é atualmente um dos maiores nichos do mercado de agrotóxico, o terceiro no ranking mundial. Formas simplistas e erradas têm sido usadas para orientar as donas de casa sobre como diminuir os riscos de contaminação com agrotóxicos como, por exemplo, o uso de bicarbonato de sódio. Esta recomendação está errada. O bicarbonato de sódio tem uma reação superficial na folha e nos alimentos. Os agrotóxicos estão dentro, os principais resíduos são sistêmicos, encontram-se dentro da estrutura celular das plantas. Existem relatos de contaminação superficial, e mesmo neste caso a lavagem com substâncias pode resultar em eliminação parcial, mas não 100 % garantida. O bicarbonato não atua tão profundamente. Os agrotóxicos constituem diferentes famílias, com características químicas completamente diferentes do bicarbonato. É impossível determinar que um composto de estrutura simples como o bicarbonato seja capaz de reagir com todos os compostos químicos que compõem a família de agrotóxicos. Do ponto de vista da reação de neutralização do agrotóxico na superfície dos alimentos, também há erro. O bicarbonato tem uma reação tanto ácida como alcalina, porém leve (chamado de anfótero). As complexas moléculas dos agrotóxicos não serão afetadas pela reação fraca (ácido-base) do bicarbonato. Para que ocorra uma "neutralização" dos agrotóxicos, estes compostos deveriam apresentar características ácido-base, o que não ocorre com a maioria dos compostos. Seria necessária uma reação de destruição dos compostos clorados, por exemplo. Entretanto, esta reação é extremamente difícil e exatamente por isso alguns dos agrotóxicos são considerados pelos especialistas como "poluentes persistentes", ou seja, uma vez formados são dificilmente destruídos. Ainda que um composto "mágico" apresentasse características químicas tão variadas e fosse capaz de reagir quimicamente com os agrotóxicos, qual a toxicidade dos resíduos formados? Após uma reação química, os compostos são transformados e não desaparecem simplesmente! O uso de bicarbonatos, vinagres e água sanitária é muito mais coerente para ajudar a esterilizar a solução da água e da superfície dos vegetais contra bactérias e agentes vivos. Mas não contra contaminação química externa. Sendo assim, a única solução realmente efetiva e global e 100 % segura para se livrar dos efeitos dos agrotóxicos, depende de os consumidores e os órgãos de imprensa olharem mais seriamente para esta questão. Os meios de comunicação e os jornalistas devem estar cientes e informar aos consumidores que estes somente estarão reduzindo os riscos de contaminação, ao se alimentarem com produtos verdadeiramente isentos de agrotóxicos. E é também para garantir a origem isenta de agrotóxicos que o IBD, assim como outras certificadoras do país, vem atuando, inspecionando e orientando milhares de agricultores orgânicos e biodinâmicos que se espalham pelo país no laborioso trabalho de reconstrução da paisagem agrícola, hoje completamente descaracterizada pelo processo agrícola convencional. Os alimentos orgânicos e biodinâmicos são os únicos, com comprovação analítica acadêmica, que não são cultivados com a utilização de agrotóxicos, não são produzidos com transgênicos, não poluem o meio ambiente, não agridem ao trabalhador.
Alexandre
Harkaly
Instituto
Biodinâmico
Governo estimula produção orgânica na agricultura familiar
Brasília – O Governo Federal vai pagar 30% a mais do que o valor de mercado por alimentos orgânicos produzidos pela agricultura familiar. A medida foi anunciada por Arnoldo Campos, diretor do Departamento de Geração de Renda e de Agregação de Valor, da Secretaria de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário, durante entrevista ao programa Nossa Terra, da Rádio Nacional da Amazônia. A idéia é privilegiar a aquisição dos alimentos orgânicos no mercado institucional (formado por prefeituras, estados e a União), que compra esses produtos para a merenda escolar e para as refeições hospitalares: “para que uma prefeitura, um governo estadual, em parceria com o Governo Federal, possam remunerar o agricultor em função de um produto que tem um valor maior no mercado”, explicou Arnoldo Campos. Os principais produtos orgânicos da agricultura familiar são mel, açúcar mascavo, café, soja, frutas em geral e hortaliças (alface, tomate, pepino). Para vender nesse mercado, o produtor deve procurar a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) em seu estado e comprovar sua situação de agricultor familiar, de preferência estando associado em cooperativas ou sindicatos. A Conab compra até R$ 2.500 por ano de cada produtor em alimentos orgânicos Segundo o secretário, o Governo Federal já investiu R$ 200 milhões na aquisição desses alimentos. O Brasil está entre os cinco maiores produtores orgânicos do mundo, atrás de alguns países da Oceania e Europa. Da Agência Brasil 14/06/2004