Antroposofia, Euritmia, Pedagogia Waldorf e as atividades no Espaço Vivo.
Margrethe Skou Larsen, formada em Euritmia (Alemanha e EUA)
Participação: 13 pessoas
Margrethe, nascida em Porto Alegre, filha de uma gaúcha e de um dinamarquês (que era músico da OSPA), sempre esteve rodeada pelas artes. Foi viver na Áustria aos dois anos de idade. A partir dos 10 anos, com a morte de seu pai, passou a visitar regularmente o Brasil, apegando-se muito ao nosso país. Percebeu que aqui havia algo diferente, uma sensação que não sentiu em nenhum outro lugar do mundo. Pressentia que um papel muito relevante estava reservado para o futuro do Brasil.
Aos 16 anos interrogava-se: "Por que a gente vive na Terra?" Perguntava aos seus professores, mas não ouvia respostas. Havia muito desconforto na escola, por passar o tempo toda sentada recebendo os "conteúdos", como se fossem baldes de ensinamento sendo despejados sobre sua cabeça. Sintomaticamente, sentia muito frio e sono, necessitava dormir cerca três horas após as aulas para se recuperar do estresse.
Decidiu estudar e aprender algo que realmente lhe interessasse, com o objetivo de aplicar seu conhecimento posteriormente na sua pátria. Buscou a Pedagogia Waldorf, baseada na Antroposofia, que visa o desenvolvimento do ser humano, indo além do mero acúmulo de conhecimentos intelectuais e profissionais. A escola deve propiciar à criança, durante sua formação, um leque bem amplo de possibilidades, para que sejam possíveis opções conscientes.
Após ter trabalhado e estudado em Stutgart, Hamburgo e Nova Iorque, Larsen se radicou no Brasil e abriu, em 2001, o Espaço Vivo, no mesmo bairro onde nasceu. Sua instituição propõe ser um ambiente de aprendizagem e vivências teóricas e práticas, onde compartilha com os interessados seu conhecimento e experiência, através de um trabalho sempre voltado a trazer maior qualidade de vida às pessoas.
A Antroposofia foi criada por Rudolf Steiner, grande intelectual que viveu de 1861 a 1925 e que se dedicou às Ciências Naturais, à Filosofia, à História, à Literatura e à Matemática. Criticava o reducionismo da ciência, por se ater apenas aos aspectos físicos da matéria, considerando relevante apenas aquilo que pode ser mensurado (medido, pesado e contado). A ciência começou a surgir há apenas 500 anos, criando um modo de pensar linear, cartesiano, que se tornou paradigmático, impedindo outras formas de abordagem da realidade. Essa visão descarta a não-matéria, seu olhar restringe-se ao período entre o nascimento e a morte. E o que acontece antes e depois? A ciência hoje não consegue responder essa questão, pois sua metodologia é ineficaz. Ela simplesmente decreta que o que não está dentro dos seus limites não existe.
Rudolf Steiner concebeu que a forma de pensar, ao invés de linear, poderia ser através de ondas. Sua obra "A Filosofia da Liberdade" mostrou esse caminho revolucionário, atestando o caráter pioneiro e visionário de seu pensamento. Mesmo rejeitado pelos círculos acadêmicos da época, continuou pesquisando e publicando. "Pensar do Coração" foi mais uma concepção inusitada, pois pela primeira vez surge uma tentativa de ligação entre o racional e o emocional.
Steiner oferecia ferramentas para que as pessoas desenvolvessem suas próprias genialidades. No entanto, até por ser bastante carismático, muitos o viam como um guru, alguém para ser seguido incondicionalmente, o que contrariava sua filosofia. Suas pesquisas atraíram estudiosos de várias áreas, que lhe perguntavam se era possível transformar sua velha ciência na nova ciência holística. Ele respondia "sim" a pedagogos, médicos, pintores, agricultores, bailarinos... Dessa conjugação surgiram a agricultura biodinâmica, a pedagogia Waldorf e a Euritmia, entre outros novos ramos do conhecimento.
Margrethe tomou contato com a Euritmia pela primeira vez aos 19 anos de idade, causando-lhe profundo impacto. Suando apenas por assistir a uma apresentação, questionou-se como os homens podem ser tão belos e parecer anjos ao dançar. Os euritmistas tornam a música visível. Nossa convidada se sentiu fortemente atraída por aquela arte desde o primeiro instante, mas a princípio hesitou em atender ao chamado do seu coração. "Como querer viver do belo diante de um mundo tão cheio de problemas?" Esse dilema foi vencido pela convicção de que deveria fazer o que ama, e fazer bem feito. Ao longo da sua vida constatou que um dos maiores problemas da humanidade é que boa parte das pessoas fazem o que não gostam. Se a regra fosse o contrário, toda a sociedade usufruiria das escolhas felizes. "Sejamos autores, não apenas meros repetidores".
O trabalho que Larsen desenvolve com a Euritmia não visa formar artistas de palco, mas melhorar a qualidade de vida daqueles que a experimentam. O cotidiano das pessoas as leva a produzir uma série limitada e repetida de movimentos, boa parte se restringindo a apertar botões e teclas de máquinas: interruptores de luz, eletrodomésticos, elevador, automóvel, computador. Após o trabalho no escritório, vai-se ao shopping e ao cinema. O exercício físico é em academias, interagindo-se com aparelhos em um ambiente fechado, mal-ventilado e barulhento. Essa é uma receita para se ficar doente.
Somos uma grande cabeça-volante, vivemos sem coração: por isso os consultórios de psicólogos e analistas estão cheios. A pesquisa euritmística não precisa ser chancelada pela Universidade, todos podemos e devemos ser pesquisadores, pois o conhecimento não tem dono. Observando-nos, identificamos polaridades opostas entre a cabeça e os membros: enquanto que aquela não gosta de se mover para pensar, nossos braços e pernas vivem do movimento. O coração é constante, tem ritmo. O contrário disso é a aritmia, o desequilíbrio, o estresse, que é o padrão de muita gente. Por isso é difícil encontrar nas ruas pessoas sorridentes, mesmo entre aquelas que dirigem automóveis luxuosos.
A Euritmia é o ritmo harmonioso, a arte do movimento, que nos conecta com o divino e traz bem-estar. A sua prática ajuda a organizar nossa vidas de maneira mais inteligente, mesmo praticada apenas uma vez por semana. Por exemplo, posso perceber que leio com proveito durante uma ou duas horas seguidas, quando então passo a me dedicar a alguma atividade mais física, como lavar roupas, para posteriormente voltar a ler ou fazer outra atividade mais intelectual. O objetivo é que descubramos nosso ritmo natural, próprio de cada um. Muito importante é manter o coração junto de nossas atividade, sentir o que se está lendo, o que se está movimentando. No Parcão os ricos caminham tensos, sérios, andando de cabeça baixa, enquanto que os mendigos deitam na grama, sob a sombra e se divertem.
A Euritmia nos ensina a observar melhor as pessoas, as plantas, o ambiente, que passam a se tornar uma fonte muito grande de felicidade. Nos nossos relacionamentos, devemos aprender a conversar COM e não CONTRA as pessoas, respeitando o ponto de vista do outro.
A cultura ocidental é a cultura da morte. Estamos no limiar do Ponto de Mutação, como bem apontou Capra, e podemos optar pela cultura da ressurreição. Rudolf Steiner já mostrou há muito tempo que isso é possível. O Brasil é um paraíso, devemos valorizá-lo, assim como a nossa gente e a nossa cultura, não precisamos imitar o que vem de fora. Nossas artes são maravilhosas, nossa música é a melhor do mundo, mas mesmo assim ainda consumimos muita porcaria descartável.