Autopoese
³o
olho arde no mar
o mar acalma o olhar²
Sérgio
Borges e Eva Queiroz
Por
Filipe Freitas
Esse texto, de cunho lírico, tem a finalidade de aproximar o leitor de algumas
teorias científicas acerca do fenômeno da vida que emergiram a partir dos anos
1960, em cuja base conceitual se encontra a poética idéia de autocriação,
característica central de qualquer forma vivente.
Mas, afinal, o que é vida? Essa pergunta, aparentemente simples, vem
acompanhando a humanidade ao longo de sua conturbada história pioneira. Sabemos
que somos seres vivos. Sabemos também que, embora imóveis aos nossos olhos, as
plantas estão vivas e que há seres vivos tão diminutos que não conseguimos
enxergá-los. Mas o que faz de todas essas instâncias que conhecemos como vivas
estarem vivas realmente? O que é a vida como um fenômeno do existir?
Para pensarmos sobre o conceito da vida, parece conveniente refletirmos sobre o
que todos os seres vivos têm em comum e buscarmos um padrão que os reúna em
uma mesma definição. O que há de comum em todos os seres vivos? O que é
compartilhado pelas menores e mais simples bactérias e pelo Planeta Terra como
um todo, que são, atualmente, os limites micro e macro do fenômeno da vida tal
qual o conhecemos?
Para tanto, faz-se oportuno adentrarmos no domínio das formas não-vivas, de
onde, provavelmente, a vida emergiu há alguns bilhões de anos.
Imaginemos, portanto, um tornado, uma fogueira e um redemoinho que se forma na
água. O que cada um deles tem em comum entre si? E o que eles têm em comum com
os seres vivos?
Todos são centros dinâmicos de atividade e estabelecem-se como estruturas
fechadas no sentido de serem estáveis, de poderem ser identificadas mas
que ao mesmo tempo são abertas, ou seja, as suas partes constituintes são
continuamente substituídas, em um processo ininterrupto de troca de energia e
matéria com o ambiente externo. São o que o químico e físico Ilya Prigogine
denominou de ³estruturas dissipativas².
Assim como o redemoinho, o tornado e a fogueira, os seres vivos também são
estruturas dissipativas. São, ao mesmo tempo, fechados e abertos.
Tomemos como exemplo o Homo sapiens. A cada ano, 98% dos átomos de um corpo
humano são substituídos, mas ainda assim um padrão corporal é preservado.
Como então continuamos sendo a mesma pessoa, se 98% do nosso corpo já não é
mais o mesmo? Como preservamos nossa identidade se aquilo que éramos há até
bem pouco tempo hoje já não faz parte de nós? Como a memória e a
personalidade não se esvaem junto com os átomos que se misturam com o meio
adjacente?
Ao constatarmos essa constante substituição de nossa matéria-prima, somos
levados a nos enxergar não como algo sólido que permanece, mas como um padrão
que se perpetua. Contudo, poderíamos questionar tal afirmação, visto que se
olhamos para o nosso organismo no espelho, temos a nítida impressão de sermos
algo sólido, concreto.
Foi somente através da tecnologia, que nos permitiu enxergar para além da
capacidade dos nossos olhos, que pudemos compreender que nosso corpo é, na
verdade, um fluxo perene de energia dançando junto com o ambiente que o
encerra.
A cada instante, montantes de células morrem e se decompõem, ao mesmo tempo em
que incorporamos moléculas do ar e dos alimentos para produzir novas células,
utilizando a energia do sol e dos outros seres para fazer movimentar uma fábrica
química autoperpetuante, num amálgama de trilhões de relações celulares
simultâneas.
Podemos então enxergar os seres vivos como estados dinâmicos que incorporam
matéria, mas essa matéria é, fundamentalmente, uma mistura da biosfera. Os
fluxos de matéria e energia se entremesclam no espaço-tempo, se enlaçando
ciclicamente.
Em última instância, não há separação dos seres viventes: todos se
complementam no metabolismo do superorganismo planetário. Como diz Norbert
Wiener, um dos fundadores da cibernética, ³somos apenas redemoinhos num rio de
águas em fluxo incessante².
Mas, de fato, ao contrário do tornado, do redemoinho e da fogueira, que, sem
nenhuma reação, encerram suas atividades no instante em que lhes falta a
energia motriz provida pelo ambiente, os seres vivos tomam caminhos, assumem
escolhas, intuem estratégias de preservação e agem organizadamente no sentido
de evitar o equilíbrio termodinâmico, que se traduz na morte.
Existe, nos seres vivos, um ímpeto de perpetuação, a busca por estabilidade
em meio às flutuações, a criatividade na produção de novas formas de
estruturação.
Identificamos a vida nas formas que criam a si mesmas através de uma
auto-organização que se realiza existencialmente como torrentes de ordem em
estruturas que se dissipam na medida em que incorporam novas substâncias e
montantes de energia.
Esse padrão de organização autoperpetuante que emerge em meio à cachoeira
energética que flui através de membranas está relacionado ao fato de os seres
vivos serem redes químicas que se fecham em estruturas metabólicas circulares.
Somos sistemas químicos que estabelecemos uma rede circular na qual o produto
é o produtor daquilo que o produz. Superamos assim o nível meramente químico
e tornamo-nos sistemas biológicos providos de um ímpeto auto-regulador
caracterizado por perseverança evolutiva.
Funcionamos como uma organização circular que se abre para as mudanças na
maneira como a circularidade é mantida, mas que não permite a perda da própria
circularidade.
Somos um padrão em rede, no qual a função de cada componente é ajudar a
produzir e transformar outros componentes, enquanto a circularidade global da
rede é mantida. Desse modo, toda a rede, continuamente, produz a si mesma. A
cada momento, o conjunto é produto e, ao mesmo tempo, produtor de si mesmo.
Esse padrão de redes autogeradoras, comum a todos os seres vivos, recebeu dos
chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela o sugestivo nome de autopoiese ou
adaptando o termo ao intuito poético desse texto autopoese. Auto,
naturalmente, significa ³si mesmo², e se refere à autonomia desses sistemas
auto-reguladores, e Poiese (ou Poese) que compartilha a mesma raiz grega com
a palavra Poesia significa criação, geração.
Autopoese é a autocriação, a autogeração que caracteriza os seres vivos,
qualquer que seja a natureza deles.
E, diante da instigante compreensão de que a vida se unifica na matéria do
planeta misturada em organismos entrelaçados por fluxos dançarinos, todos os
vivos somos tornados autopoéticos.
Bactérias, protoctistas, fungos, plantas, animais tornam-se atores fugazes de
um surpreendente espetáculo de substituição química que impulsiona os ciclos
da matéria e mantém a vida em movimento através de processos irreversíveis
pela biosfera que já duram mais de três bilhões de anos.
Incorporando e processando minerais e substâncias orgânicas, os sistemas
autopoéticos reúnem-se e se unificam como o metabolismo do planeta e suas
flutuações em escalas imensas.
Esse conjunto planetário, composto por todos os seres vivos de todos os reinos
e seus substratos não-vivos, faz-nos vivenciar a autopoese da Terra. Cada um
somos parte do sistema planetário auto-organizador que sustenta e é sustentado
pela exuberante unicidade autopoética de sua biodiversidade.
A tendência à auto-organização parece ser intrínseca à autopoese. Sistemas
autopoéticos são capazes de ordenar processos profundamente complexos, gerando
formas sempre criativas no perene desafio de manter sua estrutura, escolhendo
caminhos para prevenir, indefinidamente, o momento inevitável do equilíbrio
termodinâmico, a morte.
Como surge a autopoese dos sistemas biológicos, brotando de sua química
complexa, só a poesia dos mitos divinos a mergulharem nas tentativas de
entendimento. Talvez ainda estejamos bastante distantes da compreensão científica
do miraculoso espírito autogerador que regula espontaneamente as incalculáveis
reações químicas concomitantes que metabolizam a vida de um organismo e as
infinitas relações desse organismo com o ambiente, em seus vários níveis de
complexidade.
Há profunda beleza nas estratégias de superação da vida em seus saltos e
tropeços, seguindo em não-equilibrio flutuante por incríveis articulações
supra-conscientes através do caminho cósmico.
Essa beleza, quando apreciada desprendidamente, com a mente aberta ao ímpeto
autopoético, torna-se, por si mesma, a manifestação da poesia inerente ao
amor universal.
E tal amplitude cognitiva só se ilustra pela metáfora e suas torrentes de
significados abarcando a unicidade da diversidade, o espectro da dualidade da
matéria e a trindade que nutre de energia sagrada as partes pelo todo e o todo
entre as partes.
E essa teia de fenômenos que faz aflorar a vida no universo provém, ela própria,
do viver dos seres viventes, que criam o mundo na linguagem compartilhada na
medida em que experienciam uma realidade construída por sua própria cognição.
Os seres vivos, desde as mais simples bactérias, apresentam um processo mental
atrelado à complexidade de suas reações metabólicas. A cognição é
imanente ao surgimento da autopoese em uma estrutura dissipativa. Mesmo as redes
autopoéticas mais simples compreendem-se como instâncias vivas. Há instinto,
há atividade, há escolha, há criação em um espaço-tempo.
E a partir do viver compartilhado, o mundo é criado no processo do conhecer.
Baseada no intuito auto-organizador direcionado à complexidade, a vida flutua,
unificada em uma totalidade que transcende a capacidade conceitual da linguagem
verbal, e oscila em escalas subjetivas, fluindo através da cognição,
experimentando o criar cujo fim é o início da finalidade do existir, afinal.
Faz-se então o espetáculo da vida: a ciranda rítmica que produz a si mesma pelas metáforas da emoção caminhante, enlaçando a morte no equilíbrio químico do amor original.
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