BASECOM

   A estrutura em apresentação constitui uma alternativa de construção social que resolva certas contingências levadas ao limite pela civilização atual, resgatando ainda uma possibilidade não alienante de convivência com um futuro tecnológico.

                                                                                                                             Eng.Edson Schüler,MSc

[ NOTAS PRELIMINARES ]

 1.  Justificativa - a civilização humana, no início do terceiro milênio DC, está em crise, em três níveis de estruturação: material, social e espiritual.

             A crise material se estabelece pelo exaurimento, ainda nas primeiras décadas do milênio, das reservas de vários recursos minerais não renováveis, da área de solo necessária à produção de alimento para a população existente, e da poluição pela alteração da composição química do ar e das águas, do clima e do relevo terrestre.  Tudo isso causado pela necessidade de crescimento geométrico da atividade econômica de uma população também em crescimento geométrico alienada por uma sociedade de consumo.

            A crise social se apresenta pela incapacidade da célula básica familiar de promover a educação de um indivíduo democrático e moralmente autônomo, pela estrutura de propriedade familiar gerar a concentração de recursos e a hegemonia social, pela incapacidade dos organismos sociais de agirem em prol do equilíbrio espacial e temporal, sejam eles instituições financeiras, previdenciárias, policiais, governamentais, sanitárias ou educacionais.

            A crise espiritual se configura pela impotência do indivíduo médio em atribuir-se objetivos para sua vida, ou de imaginar direções para a humanidade como um todo, seja por direcionar toda sua energia na obtenção de mais recursos materiais ou por aceitar a intermediação de organizações clericais na sua busca interna de contato com o transcendental, e pela perda de identidade causada pela soluções tecnológicas - socialmente massificantes.

            Na civilização moderna em crise, a unidade material básica é a residência, a unidade social básica é a família e a unidade espiritual básica não existe.  Se algumas das tecnologias de recursos materiais alcançaram a maioridade, as instituições sociais se debatem em crises de adolescência, e a concepção espiritual é plenamente infantil.

2.  Questionamento fundamental das unidades civilizatórias

            As unidades da civilização, em seus diversos níveis, apresentam problemas de fundamento, que juntos compõem o quadro de crise.

2.1  Residência - a residência familiar é apenas uma célula de consumo.  Nela se consome energia elétrica e fóssil, água tratada, alimentos, equipamentos, informações, mas só se produz barulho, água servida, fumaça, fezes, lixo urbano e sucateamento.  Qualquer mal-funcionamento estrutural deve ser atendido com recursos externos, e as atividades que o seu uso propõem ou são de entretenimento (gerando lixo), ou de limpeza (limpando o lixo), mas sempre lixificantes.  Na área urbana a residência tende a ocupar uma grande parte da cobertura do terreno, desaguando rapidamente a precipitação pluviométrica e causando alagamentos pela falta da retenção de água que fazia a cobertura vegetal que ela substitui.

2.2  Família - a família monogâmica hereditária tem como molécula base um casal, cujas diferenças de opinião sempre acabarão em impasse, e cuja rotina não irá promover o amadurecimento espiritual, mais antes um tipo de acomodação.  Quando há uma prole, nunca haverá um ambiente de exercício democrático, pois cada um dos elementos é completamente diferente no organograma.  Se os adultos devem exercer funções externas, não há como tomar conta da prole ou da residência, e a solução é adotar estruturas de guarda da prole externas, ou a introdução de uma pessoa externa para esta função - pessoa esta que não tem como premissa o direito de ter uma família em igualdade de condições, e portanto semente básica de uma desigualdade social.  O apego emotivo entre os membros da família gera mais freqüentemente desvios de conduta que educação, e é facilmente usado para chantagem pelos administradores comunitários ou por marginais no quadro de dominação, ou nepotismo e impunidade por intervencionismo de familiares no quadro dominante.

2.3  Busca - a motivação espiritual básica, no desequilíbrio gerado pelo progresso desbalanceado dos níveis inferiores, tem mais propensão de gerar atribulações do que iluminação.  Em uma civilização estabelecida sobre a satisfação em série da materialidade, a ansiedade espiritual gera tentativas bizarras de individualização, ou esquizofrenia, ou ainda refúgio em drogas psicotrópicas.  A civilização atual não homologa o risco, nem o diferente (individual), nem tampouco a priorização da consciência do coletivo sobre a do indivíduo.  Não tem um objetivo proposto para a caminhada da Humanidade, e os povos, por não terem um referencial adiante por direção, tendem a acalentar suas divergências em guerras permanentes que servem como referencial provisório.

            O indivíduo típico tem uma educação precária e domina apenas um determinado aspecto de função social à guisa de profissão, tendo pouco ou quase nenhum entendimento do todo.

3.  Reordenamento fundamental das prioridades da civilização

            Para entender a necessidade de uma mudança fundamental no conceito de civilização, é necessário caracterizar a mesma em duas fases - uma, que termina agora, que chamaremos fase expansiva ou transitória, e uma a iniciar, que podemos provisóriamente apelidar de fase de regime.

·       fase expansiva - a Terra não era completamente redonda (havia lugar para expansão das sociedades), a moral era colonizatória, os números do futuro eram sempre maiores que os do passado, em uma progressão geométrica.  O crescimento permanente da atividade econômica era considerado essencial para a manutenção de patamares estáveis de conforto (emprego, previdência, etc), grande parte da idéia religiosa de tempo contempla um ciclo fechado (criação, apogeu, apocalipse).  Os pressupostos morais e científicos são antropocêntricos, centrando o Homem como agente único do conhecimento sobre um universo objetivo com leis estáticas e passível de ser esgotado por uma abordagem materialista.

·       fase de regime - a Terra se torna redonda, não há muros por sobre os quais jogar o lixo para fingir que ele desapareceu, sem que do outro lado haja um vizinho tentando a mesma atitude na direção oposta.  Os ciclos de uso dos recursos devem se tornar fechados, alguns recursos não renováveis devem terminar.  A população deve parar de crescer e a economia dos bens materiais também, portanto o futuro não terá números maiores que o passado, e cada cidadão ativo manterá a previdência de um inativo, e a taxa de emprego baseada em produção de bens materiais além da taxa de reposição se extingue em uma economia estacionária.  Os pressupostos morais devem mudar de uma visão antropocêntrica para uma dimensão antropolúdica, onde a visão materialista de contemplar necessidades materiais seja substituida por uma aventura espiritual de criação contínua de patamares mais complexos de consciência, em um ciclo de tempo aberto e contínuo.  Os pressupostos da ciência devem revisar toda sua história e concluir que todo o processo indutivo de proposição de “leis” naturais foi um processo intuitivo seguido de uma filtragem racional, e incorporar a imaginação estética do universo como intuição básica na geração da ciência, e a idéia de “descobrir leis” naturais ser substituida por uma visão mais humilde de “ïnventar leis” operacionais sobre a fenomenologia observável, onde o observador faz parte do sistema.  A economia pode mesmo assim ser expandida pela introdução de serviços em uma visão de “bens simbiontes”, contraposta à de “bens parasitários” da sociedade de consumo, mas isto necessita de atitudes globais tomadas pelos governos, sobre populações onde a consciência de “Humanidade” tenha um nível igual à de “Indivíduo humano”.

            A realização desta guinada necessita da priorização inversa dos 3 níveis de concepção civilizatória.

3.1  Espiritualidade - longe se ser confundida com práticas “religiosas”, esta palavra deve indicar atitudes e consciência.  Como toda a produção material se torna obsoleta e consumida pelo tempo, e todas as toneladas de carne humana são perecíveis, a única realização permanente da civilização são as idéias, e esta deve ser a meta e a realização primária de cada ser humano.  Sob um ponto de vista global, as nações devem empreender projetos de conquista cósmica externa e interna, a qualquer custo.  Externa, na direção das estrêlas e do Tempo, e interna, em uma jornada coletiva de Autoconhecimento, em que cada ser humano se sinta integrado e desbravador, a cada momento.  Somente uma ênfase mundial nestes empreendimentos pode substituir as bravatas históricas entre facções e terminar com as guerras.  Uma nova moral deve redirecionar aspectos fundamentais aos indivíduos, como

·       violência - a violência não pode ser confrontada, porque é uma força natural, de progresso da consciência, que inicia com o nascimento e finda com a morte.  Uma civilização que persegue a não-violência perdeu a causa antes de iniciar, e é o que se observa no cenário internacional.  Uma aceitação da violência vai produzir uma classificação de violência produtiva e violência parasitária, permitindo uma nova linha moral onde uma seja canalizada e apenas a outra evitada, evitando o represamento interno nos indivíduos, que explode em todo o tipo de manifestações anti-sociais.  Apesar o termo forte, violência produtiva pode ser apenas a proposição no novo, a decisão de correr um risco, a aceitação de um esforço ou sacrifício físico.  Considera-se aqui como violência produtiva o ato de nascer, por exemplo.

·       segurança - uma nova visão cosmológica deve instituir o Acaso como princípio fundamental do universo e da Vida, e qualquer totalitarismo na direção de segurança como Anti-Vida.  Assim, viver deve ser assumido como correr riscos, e este princípio de risco limitado introduzido na gestão social e educacional de cada ser humano.  Toda a educação fundamental do indivíduo, na família e na escola, deve priorizar a experiência do risco, como transcedental e iluminadora, e só assim se terá um eficiente componente em opção pelas drogas, e em prol da dignidade dos cidadãos.

·       educação - a escolar atual será considerada um processo imoral, na medida em que supõe ações coletivas de instituições suportamente proprietárias de “verdades” na direção de um treinamento de socialização dos indivíduos objetivando torná-los socialmente produtivos”.  Este processo terá de ser substituído pelo conceito de auto-educação, onde cada indivíduo é responsável pelos seus “insights”, e que pode ser assessorado por instituições que facilitem a conquista de iluminação, através de práticas bastante diferentes das escolas de hoje.  A atividade de professor-operário será considerada imoral e substituída pela de mestre-artesão, em que os cidadãos envolvem meio-turno para orientar discípulos, estando no outro turno ligados a alguma gestão do mundo real.

·       representatividade - a Sociedade de Consumo terá de ser superada, no sentido de que uma multidão de pessoas adaptadas a pequenas tarefas que satisfaçam o grupo é uma realização alienante, baseada em um paradigma mecanicista que, embora operacional, produz um coletivo deficiente das funções de reprodução e auto-manutenção, inerentes às estruturas vivas.  Estas deficiências tendem a produzir grandes catástrofes ainda nas primeiras décadas do Século XXI.  Uma solução mais estável deve ter cada indivíduo como um resumo potencial de toda a humanidade, com uma compreensão do processo global da aventura cósmica de que participa, bem como a paciência e habilidade de dominar as tarefas mais ínfimas de seu cotidiano.

3.2  Sociedade - após priorizados os objetivos espirituais dos seres humanos, a sociedade surge como a estrutura em que suas relações são efetivadas em dois planos - afetivo, pelas organizações de troca espiritual (vivência, carinho, visões de mundo), e econômico, pela estrutura organizacional de divisão de tarefas (produção, conhecimento).  Conceitos alternativos básicos devem ser exercitados para a preservação do nível anterior de espiritualidade.  A sociedade só tem sentido se tiver como finalidade o progresso da estruturação ideológica e consciente de cada indivíduo e de uma humanidade concebida por cada indivíduo como um super-indivíduo de si próprio.  Isso leva a redefinições de

·       propriedade - a propriedade é uma reserva de recursos para serem geridos em função dos desígnios do indivíduo ou do grupo, e os recursos podem ser específicos (bens) ou genéricos (crédito financeiro).  A propriedade deverá ter limites mínimo e máximo, conquistados em função do mérito dos indivíduos a partir de um modelo permanentemente discutido em consenso.  Os indivíduos deverão ter uma cidadania ampliada para administrarem a participação em propriedades coletivas de grupo, tomando ações corretas.

·       afetos - os laços afetivos são um processo de evolução do autoconhecimento na jornada espiritual de cada indivíduo, e devem ser respeitados como tal.  O estabelecimento de critérios de propriedade sobre laços afetivos deve ser visto como imoral e vicioso, e a família tradicional deve ser analisada como hospedeira de parte considerável da degenerescência afetiva da humanidade.

·       trabalho - a função do trabalho deve ser criativa em princípio, e produtiva na seqüência. Deve ter como prioridade a materialização da manifestação individual da consciência, ou sua assinatura do mundo objetivo.  Assim, funções repetitivas industriais que comparem os indivíduos a peças são imorais, e devem ser automatizadas e banidas como trabalho humano.  Por outro lado, nenhuma suficiência material exime o indivíduo da necessidade de exercer trabalho criativo e diversificado (intelectual, manual, nobre e humilde) em toda a extensão de sua vida, vida que só se justifica pela contínua criação e aprendizado do indivíduo.  Como uma forma simplificada, cada indivíduo deve usar metade de seu tempo em tarefa especializada a ser trocada por créditos, e a outra metade na manutenção de cada pequeno aspecto de sua demanda de ser humano.  Isso significa meio-turno de trabalho externo para a sociedade e meio-turno de trabalho interno para seu núcleo de convivência.  Estas mudanças podem ser gatilhadas pelos governos, por exemplo, ao instituirem contratos trabalhistas com duração máxima de meio-turno, e outras medidas gerais.

·       diversidade - a resposta da civilização a rupturas do sistema atual, devidas ao esgotamento de recursos, de margens de tolerância, à deflagração de conflitos, a catástrofes climaticas, geológicas ou ambientais, depende da diluição da versatilidade dos seres humanos para improvisar adaptações sociais e tecnológicas, baseados da compreensão individual do todo.  O alto grau de especialização e dedicação ao consumo produz massas de seres pouco diferenciados e sem capacidade de reprojetar seu entorno em situações de ruptura.  A civilização é densa, volumosa, potente, mas frágil.  A estrutura geral não resistirá a uma primeira série encadeada de rupturas.

·       população - os objetivos sociais devem incluir a estabilização da população como condição indispensável à sobrevivência da Humanidade.  Isso significa uma cota máxima de filhos por indivíduo, e uma seriedade no planejamento e controle de natalidade, estatisticamente efetivos.

3.3  Materialidade - a subsistência material só será moral quando contemplar indivíduos em progresso espiritual, e sociedades que preservem a noção de super-indivíduo e a confraternização universal.  Uma série de conceitos deve ser considerada para a implementação destes objetivos

·       Perenidade - o abastecimento material dos indivíduos deve se responsabilizar pelo futuro.  Isso leva a planos de depleção nas taxas de uso dos recursos não renováveis, a uma tecnologia da durabilidade dos equipamentos, a uma filosofia de manutenção permanente, e estruturas de reuso em todos os níveis da atividade material humana.

·       Fechamento - a idéia de lixo tem de ser minimizada, e todos os materiais deverão ser reaproveitados em escala máxima.  Estas tarefas não devem ser processadas em nível de super-estruturas sociais, mas remetidas a cada pequeno núcleo consumidor, para que a consciência da conservação seja gerada.  O problema do lixo é em primeira instância espiritual (consciência de consumismo), e em segundo grau material.

·       Alimentos e ambiente - a manutenção destes recursos dependem da área superficial da Terra disponível aos mesmos, e implica mesmo em uma recuperação de aproveitamentos do passado.  Todas as grandes cidades se estabeleceram sobre as regiões mais férteis, nas cabeceiras dos rios, e depois as transformaram em zonas urbanas, sem fertilidade.  A recomposição do suprimento ambiental passa pela liberação das áreas urbanas para reconversão em plantações ou novos parques reflorestados.  Para isto, as estruturas urbanas devem migrar para o sub-solo, onde podem crescer a vários pavimentos de profundidade, em volume virtualmente suficiente para muitas humanidades, sendo necessário polarizar a economia humana na direção destas tecnologias, balizadas por legislação governamental.

·       Residência - as estruturas de referência quotidiana dos humanos devem possibilitar as funções básicas de sobrevivência, ou seja, a disponibilização de alimentos, água e ar, a proteção dos residentes e das funções contra adversidades climáticas, biológicas e sociais, a manutenção e ampliação de todas as estruturas de abrigo e transporte, a produção energética e a reciclagem dos sub-produtos, e principalmente a manutenção de uma infraestrutura básica da civilização, através de recursos estáticos como documentação, e recursos dinâmicos como a integração dos residentes a todas as funções que constituem o acervo civilizatório local, formando em cada indivíduo um resumo da civilização.  Para isso, deve conter ambientes de captação de água e ar, cultivo de vegetais e animais, construção e manutenção de estruturas, veículos e aparelhos, obtenção e reciclagem de produtos domésticos quotidianos, ambientes educacionais e de comunicação, estruturas de interface com a civilização adjacente.

4.  Proposta geral

A estrutura BASECOM em proposição tem a finalidade de representar uma célula viável de uma Base Comunitária para uma civilização estável, diversa e adaptativa, que tolere a mudança contínua de padrões e ao mesmo tempo represente em pequena escala uma amostra do todo.  Os seguintes aspectos desta nova estrutura são essenciais:

a) complementaridade- o núcleo socio-econômico deve fazer uma interface adequada com a estrutura vigente, capaz de se inserir no mercado de trocas de forma construtiva, reduzindo no entanto as relações a um patamar mais eficiente.  Os residentes devem poder conciliar suas vidas e ocupações com critérios estáveis e permanentes de convivência com o regime vigente.

b) mobilidade- como experimental, os experimentadores, que investem a si próprios no projeto, devem ser assegurados em nível mínimo sobre a frustração da adaptação pessoal ao modelo obtido, tendo uma garantia de desvinculação do processo com reinclusão externa, mesmo que em um certo prazo.

c) intencionalidade- a convivência, dentro dos critérios de viabilidade, é uma proposta intencional entre os residentes.  Procedimentos de aproximação, períodos de experiência e termos de compromisso são elaborados no sentido de que a residência não é apenas um mecanismo de suprimento de necessidades materiais, mas uma integração social e espiritual afim permanentemente proposta pelo grupo.

d) modularidade- a criação de uma Basecom deve ter um módulo básico, dentro de um projeto médio, dentro de um projeto pleno, seguido por um projeto continuado, em etapas de implementação bem definidas.  A primeira etapa visa a constituição do grupo e o redirecionamento de recursos da sociedade de consumo para a etapa média.  O projeto ganha auto-sustentabilidade.

4.1  População - o tamanho do grupo previsto leva em conta a capacidade de reprodução social (para o que a atual célula familiar é completamente incompetente).  Em uma forma de regime, o grupo pode ter em torno de 20 pessoas, preferentemente distribuídos nas seguintes faixas etárias:

                        A-  crianças                3 (<10)

                        B-  adolescentes        3 (11-20)

                        C-  jovens                   3 (21-30)

                        D-  adultos                  3 (31-40)

                        E-                                3 (41-50)

                        F-                                3 (51-60)

                        G-  veteranos             2 (>60)

No regime de ocupações, as faixas B e G desempenhariam preferencialmente funções internas autonomas, e a faixa  A funções internas assistidas.  O perfil etário propõe uma estrutura plana de Crescimento Populacional Zero, que precisa ser atingido neste século.

Em um regime permanente de coexistência de várias células, prevê-se uma migração permanente entre as mesmas, talvez nas faixas B e C, de acordo com a evolução da personalidade dos residentes, na direção da conciliação de identidade de grupo.

4.2  Área física e localização - De uma forma preliminar, imagina-se um fator de 0,1 a 0,5 ha/pessoa de área total, prevendo um certo recurso para produção vegetal e animal associadas.  Um local típico seria uma encosta de morro, em cotas acima de 40m do nível do mar, com parte plana e parte inclinada.  Este tipo de terreno permite uma série de dispositivos,  além de ter um valor menor para a agricultura convencional.

  

De uma forma relacional, esta área seria localizada na periferia de uma pequena cidade, próxima a estradas bem pavimentadas, que permitam acesso ao centro urbano em menos de 20 minutos, bem como acesso ao local para a prestação de funções econômicas.

4.2  Estrutura de privacidade - um dos maiores receios de mudanças nos modos de viver é a possibilidade da perda da privacidade.  A privacidade deve ser entendida como a liberdade de agir em assuntos que não usurpem recursos comuns sem a ingestão de outros, ou mesmo sem o conhecimento de ninguém.  Podemos entender como uma reserva  privada de decisão ou de informação.

A pretensa privacidade doméstica na realidade deve ser dividida entre os familiares, e sofre quando o domus sofre a visita de pessoas com relações a alguém da família mas não a todos, durante festas ou tratos comerciais ou reformas e manutenção.  Nos regimes de condomínio, os recursos devem ser divididos entre condôminos não intencionais, porque não se escolheram, e as situações podem ser ainda mais constrangedoras.

Imagina-se aqui implementar um sistema de privacidade em perímetros hierárquicos, de forma a permitir de forma organizada a interface social e a preservação individual a todos os níveis, em 4 tipos de áreas classificadas:

A- pública - área de acesso aberta à comunidade (compra, venda, etc)

B- comunitária- área de acesso aos amigos  ou colegas de algum dos residentes

C- residente-  área reservada aos residentes, só acessível por convite coletivo

D- individual- áreas reservadas aos indivíduos, nominais ou compartilhadas

  

As áreas públicas têm acesso externo sinalizado, e conduzem a alguns escritórios ou lojas, onde se possa manter algumas atividades econômicas sediadas na base e de atendimento público.  Devem prever circulação e estacionamento de veículos, desembarque e sistema de chamada de visitantes, bem como proteções de acesso.

A área comunitária deve incluir áreas externas de lazer, e área interna de estar tipo salão para atividades de grupo (festas ou recepção de amigos), com todas as facilidades de convivência (sanitários, compartilhados com a área pública,  cozinha, mesas p/estudo ou jogos, etc.)

A área para residentes envolve todas as atividades internas da base, mesmo as de cultivo, criação e energia, sendo local privado de circulação para os residentes.  As exceções desta reserva seriam feitas em ocasiões específicas como festas ou cursos ou recepções, por deliberação coletiva.  Fora destes eventos, qualquer residente deve poder contar em só encontrar outros residentes quando circula pelas áreas privadas.

As áreas individuais nominais são os apartamentos obrigatórios a todos os maiores de 10 anos.  As crianças ficam em princípio em um recinto comum, ao fazerem 10 anos devem ocupar apartamentos pequenos em que se responsabilizam pela arrumação e manutenção.  A partir de 20 anos, os residentes ocupam um apartamento convencional com banheiro, escrivaninha e armários privativo de cada indivíduo.  Esta convenção se aplica mesmo aos residentes que mantenham relação conjugal, preservando por uma regra externa a privacidade individual, que pode ser transcendida de comum acordo pelo casal.  De qualquer forma, a limpeza, organização e manutenção dos ambientes continua sendo responsabilidade de cada indivíduo em seu apartamento.

As áreas individuais compartilhadas são banheiros ou locais de meditação, em que uma sinalização pode ser ativada mostrando que a área está reservada para uso individual no momento, mas em momentos distintos pode ser acessada por dferentes residentes.

O planejamento geográfico das áreas deve obedecer a topologias das hierarquias, ficando as áreas individuais contidas nas de nível imediatamente inferior, como ilustrado pelo croquis abaixo;

  

4.3  Implementação da modularidade-  a modularidade do projeto permite que os objetivos sejam ousados e abrangentes, mas para serem implementados no decurso da história.  A Sociedade de Consumo trabalha com objetivos finais encapsulados, que portanto têm de ser limitados dentro das posses previstas do consumidor, que após implementá-los não tem mais outra função além de consumir, o que reduz a humanidade do sistema e das pessoas nele engajadas.  A modularidade do projeto contempla a necessidade de ações iniciais em etapas iniciais com investimentos iniciais mínimos, que possam por o processo em andamento, e ações sucedentes, em uma cronologia de objetivos que de tempos em tempos delimitam etapas, mas são virtualmente infinitos como infinito é o caminho da humanidade, quando contemplada sob um ângulo espiritual e largo.

A estrutura de módulos tem a seguinte cronologia:

    a) Básica        - Formação de grupo implementador

                            - Implementação de entidade econômica de aglutinação

                            - Aquisição da área

                                    - Edificação básica (acampamento, armazenamento bens, oficina de obra

                                    - Rotinas externas dos resitentes

    b) Média        - Edificação área  comunitária (estar, dormitório, sanitário, cozinha, atelier, loja)

                           - Proteção da área total (cercamento, etc)

                           - Rotinas internas de manutenção e produção

                           - Inicialização de estruturas de base alimentar, energética, mística

                                   - Soluções comunitárias de transporte, educação, reuso

            c) Plena         - Edificação da área residente individual

                                   - Edificações do setores de autonomia (predial/estrutural, mecânico, elétrico, químico, têxtil), expansão subterrânea

                                   - Interdisciplinarização continuada dos residentes

                                   - Interface econômico permanente c/comunidade externa

                                   - Estruturas de armazenamento de longo prazo

                                   - Manuais de treinamento comunitário

            d) Continuada

                                   - Suporte à formação de outras bases comunitárias

                                   - Pesquisa e desenvolvimento de reuso e reciclagem

                                   - Desenvolvimento Espiritual Permanente (todos aspectos)

                                   - Ampliação da Comunicação Global (línguas, viagens, net)

                                   - Miniaturização da Tecnologia e sua Manutenção

                                   - Ampliação permanente da base estrutural não superficial

4.4  Viabilidade econômica primária - a Base Comunitária só é viável se for economicamente possível, de uma forma trivial.  Por trivial aqui entendemos uma Base a  ser estabelecida quando já existem centenas na mesma área, por pessoas comuns, e sem um suporte institucional externo.  Isso quer dizer que deve contar com os recursos próprios e com sacrifícios compatíveis a um grupo que a vai implantar.  No máximo, pode-se imaginar o apoio de um grupo externo (por exemplo de uma outra Base, visto ser um compromisso comunitário o de alavancar outros grupos).

Para efeito de modularidade, comparamos aqui um grupo de 20 comunitários com um grupo de 8 famílias no estilo tradicional, com residências e economias separadas.

(a) Área - no critério de 0,1-0,5 ha/pessoa obtém-se uma área de 2 a 10 ha.  Tomaremos como valor médio uma área de 5 ha, na periferia de uma cidade de 50.000 habitantes, a não mais de 20 min do centro da cidade.  Esta área tem um valor estimado de R$ 40 mil em estado bruto, isto é, sem edificações, sem açude ou outras benfeitorias, e com uma topografia acidentada (costa de morro em parte da área).   Uma residência urbana típica, em terreno de 400 m2 (0,04 ha) vale R$ 60 mil, e o seu aluguel, em torno de R$ 500/mês.  Isto significa que as 8 economias que vão constituir o grupo, ou possuem um patrimônio médio de R$ 480 mil, ou um custo mensal de R$ 4 mil em aluguéis, ou uma situação mista.

Estes recursos são amplamente suficientes para efetivar a implementação da etapa básica.  A área visada pode ser adquirida em 48 x R$ 1 mil, por exemplo, e a construção básica de estruturas usar R$ 2 mil/mês, em um custo total de R$ 3 mil/mês.  Supondo um grupo sem nenhuma propriedade, esse valor é coberto pelo custo mensal, mantendo por esse prazo ainda o aluguel de 2 das 8 economias como recurso de moradia coletiva para o grupo.  Em outra estratégia, um imóvel do grupo poderia ser alienado para a aquisição da área, ou locado para transformação em renda mensal.  Estas estratégias são possíveis devido à grande diferença entre os custos de residência familiar x comunitária.


(b) Renda - a situação de subsistência do grupo não necessita mudar na fase básica de implementação.  Todos os participantes podem manter atividades de 40 h/sem em suas ocupações presentes, invertendo mais 20 h/sem adicionais no projeto.  Estas 20 horas semanais são divididas em 2 horas noturnas para o planejamento e adaptação do grupo nos dias úteis, e 10 horas do fim-de-semana em regime de mutirão para a construção da estrutura básica.   Supondo que pelo menos 16 participantes sejam jovens ou adultos, isto significa uma disponibilidade de 320 h/sem, ou o equivalente a 8 pessoas contratadas em tempo integral.  Se o rendimento individual for de 25% do de um profissional, isto ainda significa um equivalente a 2 operários para a construção civil, o que é suficiente para o andamento inicial.  Em poucos meses, o rendimento deve atingir 50%.  Entende-se que no grupo de apoio existam pessoas com alguma prática na área.

Quando os indivíduos vivem em famílias nucleares, os graus

de liberdade são muito poucos, e muitos serviços são contra-

tados externamente, como cuidado de crianças, cabeleireiros,

lavagem e passagem de roupas, jardinagem, lavagem de veí-

culos, conserto de veículos, aparelhos, roupas, etc.  A monta-

gem de uma matriz comunitária permite que muitas destas ta-

refas se desenvolvam em trocas internas, diminuindo a neces-

sidade de meio de troca ($) para compras, e valorizando a ren-

da dos indivíduos.

4.5  Níveis de abrangência da implementação comunitária-  a estrutura comunitária estará bem direcionada quando a experiência for prazeirosa, levar os indivíduos a emotivamente mais seguros, terem iniciativa, tolerância e firmeza no trato social, tornarem-se mais inteligentes, críticos, cultos e habilidosos em todas as áreas da cultura humana, e o trabalho do grupo permitir o provimento progressivo de recursos sofisticados que garantam um nível gerencial de apropriação da cultura da civilização como um todo.

4.5.1  Plano material - a base deve atingir um equilíbrio ecológico, uma suficiência tecnológica e um pioneirismo operacional, propondo novos equipamentos ou soluções que contemplem novos modos de vida no cotidiano.

            a) a vida nativa e o habitat botânico é preservado e o ambiente é regenerado

            b) os alimentos procedem de fontes locais e orgânicas, sem contaminantes.  Os comunitários dominam o cultivo de algumas espécies, o reconhecimento para colheita extrativa de outras, a preparação e armazenagem de alimentos como farinhas e pães, conservas, óleos e grãos, vinagres e fermentados.

            c) as estruturas não agridem o ambiente natural, não diminuem a área com cobertura vegetal, não utilizam materiais tóxicos.  Os indivíduos participam da construção, adaptação e manutenção de prédios e móveis, cisternas e torres, calçamentos, escadarias, estradas e jardins, sendo familizarizados com materiais e ferramentas.

            d) os métodos e equipamentos de transporte são otimizados para a conservação de energia, do meio ambiente.  Os comunitários dominam individualmente o manuseio de todos os meios de transporte disponíveis.

            e) o consumo e a geração de lixo é minimizada.  Todo o resíduo das atividades é guardado para ser reprocessado, e medido para avaliação de eficiência.  O excedente não processável só pode ser retirado da área após avaliação por toda a comunidade, e em períodos mensais ou semestrais.

            f) o abastecimento de água é feito a partir de todas as alternativas, com armazenamento separado, e identificação dos tipos e funções de uso, para gerar uma cultura de valorização hídrica.  A água é reprocessada e reutilizada até a última instância possível.

            g) água servida e dejetos são utilizados para extração de energia e nutrientes ao meio ambiente

            h) o abastecimento de energia é feito a partir de todas as fontes possíveis, e os comunitários dominam individualmente a gestão, acionamento, instalação, manutenção e manuseio de combustíveis , geradores e acumuladores, criando uma cultura energética e um posicionamento crítico sobre as disponibilidades e implicações de cada fonte.

            i) os indivíduos dominam a fabricação de tecidos e confecção de vestuário e peças têxteis, bem como a manutenção, limpeza e tingimento.

            j) adquire-se progressivamente o domínio de materiais de higiene, recuperando e fabricando sabões e sabonetes, detergentes orgânicos, perfumes e bactericidas, solventes e abrasivos.

            k) um sistema de comunicações eficiente é montado e operado por todos os comunitários, envolvendo intercomunicadores, telefones, rádios, televisores, computadores, redes internas e internet, sistemas de amplificação e reprodução de som e imagem.

4.5.2  Plano social - a dimensão mais crítica a ser equacionada é a da convivência, porque a relação entre os seres para o convívio são baseadas em preconceitos - idéias que seguimos porque as vimos aplicadas, sem um julgamento ou referencial próprio - do tipo “é assim que se faz”.  Em uma Base Comunitária os participantes se sentem o próprio grupo, e tomam as decisões que afetam a via comum de forma transparente, de forma a:

            a) reconhecer e se relacionar a cada um dos outros

            b) Compartilhar recursos comuns e prestar auxílio mutuamente

            c) Enfatizar práticas holísticas e preventivas da saúde

            d) Prover sustento e trabalho realizador aos membros

            e) Integrar grupos marginais no grande grupo

            f) Promover uma educação continuada e vitalícia

            g) Encorajar a unidade através do respeito pelas diferenças

            h) Incentivar a expressão cultural

4.5.3  Plano espiritual - nossa civilização atual é infantil em relação à espiritualidade.  Para a maioria das pessoas, espiritualidade diz respeito apenas a religião, ao sagrado, a rituais místicos, a fatores esotéricos, a milagres e pecados, aos mortos, a possessões e obsessões, a castigos eternos e profetas salvadores, a anjos e demônios, fadas e gnomos, magos e bruxas, a revelações.  Estes fatores são todos ligados a espiritualidade, sem dúvida, mas muitas vezes foram as maneiras ignorantes de se atribuir formas a fatores, fugindo ao entendimento ou interpretação de funções.

Em uma Base Comunitária, propõe-se partir de conceitos muito simples de espiritualidade, que possam permitir aos indivíduos a inclusão posterior de um desenvolvimento espiritual firme e um referencial próprio produtivo.  Para isso, consideramos as capacidades espirituais dos seres humanos como:

·       objetivas- como a razão, as percepções, a memória, a estética, a lógica

·       subjetivas- como a intuição, as emoções, a identidade, o amor

·       volitivas- a de iniciar uma ação sem estímulo externo, e persistir na mesma

Alicerçados do desenvolvimento pleno destas capacidades (que chamaremos de moralidade),  uma Base Comunitária deve levar seus participantes a:

            a) Conhecer-se pela convivência e diálogo não fúteis com outras pessoas de idades, gostos ou hierarquias próximas (a família não oferece isso), observando suas atitudes como um espelho de si próprio

            b) Exercitar suas habilidades, gostos e limites pelo sem número de pequenas tarefas cotidianas criativas, não ligadas ao consumismo mas a pequenas superações; não ligadas a finalidades materiais imediatas, mas também ao prazer de poder e de entender o seu entorno

            c) Desenvolver uma re-ligação com a Vida e o Universo pelo contato com a terra, as águas, plantas, animais, ritmos e estações, intuindo um pensamento orgânico a respeito do Todo, elaborado pelo próprio indivíduo

            d) Construir uma memória de grupo escrita, valorizando seu grupo como único no universo, detentor de um ângulo único de observação do processo de civilização, e sistematizar arquivos, plantas, manuais, cronologias, e crônicas entendendo o valor do caminho que se está trilhando, e por extensão avalizando todos os caminhos dos demais seres humanos, suas histórias e tradições.

            e) Habituar-se a se reportar aos outros, expondo de forma clara suas idéias e propósitos, aprendendo a dialogar e chegar a opiniões de consenso, construindo práticas coletivas de tomada de decisão e de transmissão de idéias, valorizar a necessidade de aprender outras línguas e de se comunicar com outras culturas para que a Humanidade possa chegar a ser um Indivíduo

            f) Iniciar-se em práticas contemplativas e meditativas, resgatar a capacidade de intuir caminhos e soluções, conjugando com a habilidade de usar a razão para coordenar as idéias em um todo coerente e operacional, que saiba transformar em ações

            g) Familiarizar-se com o milagre da vida e da morte permanentes, atingir uma cultura de serenidade perante o incerto e perante o fatal, conseguindo focalizar objetivos que se proponha e não lutar em vão contra a passagem da vida nem contra o tempo, mas usufruir deles como seus cúmplices

            h) Construir e participar de rituais de passagem que assinalem etapas no desenvolvimento espiritual dos participantes, e constituam um currículo comunitário que promova e incentive a permanente busca pela sabedoria

            i) Empreender periodicamente expedições de transcendência, que proponham caminhadas, orientação, conhecimento de outros lugares, chegando a viagens a outros países ou ambientes

5.  Evolução da Proposta

O apresentado aqui é um ante-projeto, que deve ser detalhado por um grupo interessado.  As pessoas deste grupo poderão assumir, ao longo do detalhamento, as seguintes posições:  pioneiros, se correrem o risco de se assumirem como moradores iniciais da Base, assessores, se se dispuserem a trabalhar ou prestar sua excelência à materialização das estruturas básicas, ou estudiosos, se se interessarem em acompanhar o projeto e a implementação, discutindo em conjunto o plano geral, e auxiliando na elaboração de documentação do projeto.

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