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Boaventura de Sousa Santos
Segundo Franz Hinkelammert, o Ocidente tem
recorrentemente caído na ilusão de tentar salvar a humanidade através da
destruição de parte dela. Trata-se de uma destruição salvífica e
sacrificial, cometida em nome da necessidade de concretizar radicalmente
todas as possibilidades abertas por uma dada realidade social e política
sobre a qual se supõe ter um poder total. Foi assim no colonialismo com o
genocídio dos povos indígenas e dos escravos africanos. Foi assim no período
de lutas imperialistas que causaram milhões de mortos em duas guerras
mundiais e muitas guerras coloniais na África e na Ásia. Foi assim no
estalinismo com o Gulag e no nazismo com o holocausto. É assim hoje no
neoliberalismo com o sacrifício colectivo do Terceiro Mundo. Com a guerra
contra o Iraque, cabe perguntar se está em curso uma nova ilusão genocida
e sacrificial e qual o seu âmbito. Cabe sobretudo perguntar se a nova ilusão
não anunciará a radicalização e perversão última da ilusão ocidental:
destruir toda a humanidade com a ilusão de a salvar. Se assim for,
tratar-se-á de uma radicalização do mesmo tipo da que, por razões muito
diferentes, há muito vem sendo denunciada pelo movimento ecológico.
O genocídio sacrificial decorre de uma ilusão totalitária que se
manifesta na crença de que não há alternativas à realidade presente e de
que os problemas e as dificuldades que esta enfrenta decorrem de a sua lógica
de desenvolvimento não ter sido levada até às últimas consequências. Se
há desemprego, fome e morte no Terceiro Mundo, isso não resulta dos malefícios
ou das deficiências do mercado; é antes o resultado de as leis do mercado
não terem sido aplicadas integralmente. Se há terrorismo, tal não é
devido à violência das condições que o geram; é antes devido ao facto
de não se ter recorrido à violência total para eliminar fisicamente todos
os terroristas e potenciais terroristas.
Esta lógica política, assente na suposição do poder e do saber totais e
na recusa das alternativas, é ultraconservadora, na medida em que pretende
reproduzir infinitamente o statu quo. É-lhe inerente a ideia do fim da história.
Durante os últimos cem anos, o Ocidente passou por três versões dessa lógica
e, portanto, por três versões do fim da história: o estalinismo com a sua
lógica da eficiência insuperável do plano; o nazismo com a sua lógica da
superioridade racial; e o neoliberalismo com a sua lógica da eficiência
insuperável do mercado. Os dois primeiros momentos envolveram a destruição
da democracia. O último trivializa a democracia, desarmando-a ante actores
sociais suficientemente poderosos para privatizarem a seu favor o Estado e
as instituições internacionais. Tenho caracterizado esta situação como
uma combinação de democracia política com fascismo social. Uma manifestação
actual desta combinação reside no facto de a fortíssima opinião pública
mundial contra a guerra se revelar incapaz de parar a máquina de guerra
posta em marcha por governantes supostamente democráticos.
Em todos estes momentos domina uma pulsão de morte, um heroísmo de catástrofe,
a idéia da iminência de um suicídio colectivo só prevenível pela
destruição maciça do outro. Paradoxalmente, quanto mais ampla é a definição
do outro e eficaz é a sua destruição, tanto mais provável é o suicídio
colectivo. Na sua versão genocida sacrificial, o neoliberalismo é uma
mistura de radicalização do mercado, neoconservadorismo e fundamentalismo
cristão. A sua pulsão de morte tem assumido várias formas, desde a idéia
das "populações descartáveis" para referir os cidadãos do
Terceiro Mundo inaptos para serem explorados como operários e consumidores
até ao conceito de "danos colaterais" para designar a morte de
milhares de civis inocentes em consequência da guerra. Este último heroísmo
da catástrofe está bem evidente em dois factos: segundo cálculos fiáveis
da Organização Não-Governamental MEDACT de Londres, morrerão no Iraque,
durante a guerra e nos três meses seguintes, entre 48.000 e 260.000 civis
(isto no caso de não haver guerra civil nem ataques nucleares); a guerra
custará 100 biliões de dólares, o suficiente para custear as despesas de
saúde dos países mais pobres durante quatro anos.
É possível lutar contra esta pulsão de morte? É importante ter em mente
que historicamente a destruição sacrificial esteve sempre associada à
pilhagem económica dos recursos naturais e da força de trabalho, ao desígnio
imperial de mudar radicalmente os termos das trocas económicas, sociais,
políticas e culturais ante a quebra das taxas de eficiência postuladas
pela lógica maximalista da ilusão totalitária em vigor. É como se as potências
hegemónicas passassem recorrentemente, tanto em sua fase de ascensão como
em sua fase de declínio, por momentos de acumulação primitiva,
legitimadores das mais ignominiosas violências em nome de futuros onde, por
definição, não cabe tudo o que se tem de destruir. Em sua versão actual,
o momento de acumulação primitiva consiste na combinação da globalização
económica neoliberal com a globalização da guerra. Contra ela está em
curso a globalização contra-hegemónica, solidária, protagonizada pelos
movimentos sociais e ONGs de que o terceiro Fórum Social Mundial (FSM) foi
uma manifestação eloquente.
O FSM tem sido uma portentosa afirmação da vida no seu sentido mais amplo
e plural, incluindo seres humanos e natureza. Que desafios defronta ante a
cada vez mais íntima interpenetração da globalização económica e da
globalização da guerra? Penso que a nova situação obriga o movimento dos
movimentos a repensar-se e a reconfigurar as suas prioridades. É sabido que
o FSM, logo em sua segunda reunião, em 2002, identificou a articulação
entre o neoliberalismo económico e o belicismo imperial e, por isso,
organizou o Fórum Mundial da Paz de que a segunda edição teve lugar em
2003. Isso, porém, não basta. É necessária, em meu entender, uma inflexão
estratégica. Os movimentos sociais, quaisquer que sejam as suas áreas de
luta, devem dar prioridade à luta pela paz como condição necessária ao
êxito de todas as outras lutas. Isto significa que têm de estar na frente
da luta pela paz, não deixando que esta seja solitariamente ocupada pelos
movimentos pela paz. Todos os movimentos contra-hegemónicos são, a partir
de agora, movimentos pela paz. Estamos em plena quarta guerra mundial e a
espiral de guerra vai certamente continuar a girar. O princípio da não
violência que consta da Carta de Princípios do FSM tem de deixar de ser
uma exigência feita aos movimentos para passar a ser uma exigência global
dos movimentos. Esta inflexão é necessária para, nas actuais condições,
contrapor à vertigem do suicídio colectivo a celebração da vida, um
humanismo novo, cosmopolita, construído contra as abstracções
iluministas, a partir da resistência concreta ao sofrimento humano concreto
imposto pelo verdadeiro eixo
do mal: neoliberalismo e guerra.
Autor : Franz Hinkelammert
Publicado na Visão e na Folha de São Paulo
20-03-2003 |