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Brasil
pode virar 'lixão' mundial de pneus
Com 100 milhões de carcaças, País corre o risco de receber
sobras da Europa via Mercosul
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SILVIO BRESSAN
Com um passivo ambiental de 100 milhões de pneus usados,
o Brasil corre um sério risco de tornar-se o lixo preferencial dos países
do primeiro mundo, que já não sabem onde colocar as sobras de uma produção
anual de 900 milhões de peças. O cenário sombrio da última década - período
em que 43 milhões de pneus usados e reformados entraram no País e
somaram-se a uma produção que não pára de crescer (46 milhões em 2002)
- foi agravado por confusões e espertezas no fim do governo FHC e piorou em
fevereiro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por meio do
Decreto 4.592/03, isentou de multa as importações de pneus remoldados do
Mercosul.
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O grande pesadelo dos ambientalistas é a transformação
do Uruguai e do Paraguai em entrepostos para despejar no Brasil a carcaça
pneumática dos países desenvolvidos. Com produção crescente,
descarte constante e legislação ambiental rígida, os europeus não
sabem o que fazer com seus pneus velhos. Um país continental e distante
como o Brasil representa a solução ideal.
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Para os importadores, então, é um negócio sem
paralelo, embora proibido desde 1991. Eles importam o produto por US$
0,58, fazem a reforma com baixo custo e vendem o "seminovos"
por até US$ 25. Com tanto lucro, esses grupos montaram um forte lobby
no Congresso e armaram, desde 1990, uma verdadeira indústria de
liminares para importar 28,9 milhões de pneus usados e 14,2 milhões de
recauchutados.
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A perspectiva de abrir agora uma segunda porta, via
Mercosul, provocou uma avalanche de protestos na área ambiental e
dividiu o próprio governo. O procurador Antonio Herman Benjamin, membro
do Conselho Superior do Ministério Público de São Paulo e professor
de Direito Ambiental na Universidade do Texas (EUA), considera o decreto
um desastre. "Não podemos nos transformar no lixão dos países
industrializados nem fazer do Mercosul a carta de alforria para
traficantes internacionais", protesta. "Estamos falando de
produtos com impacto direto na saúde humana, cujos efeitos vão além
das próximas gerações."
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Desconforto - No Congresso, as críticas
uniram a oposição e parte da bancada governista. Há duas semanas, o
deputado Rodrigo Maia (PFL-RJ) solicitou a anulação do decreto
presidencial. "Estamos importando lixo", alega. Ele lembra que
o ministério do Meio Ambiente não foi ouvido, cita a proibição na
Argentina (onde esse comércio é vetado) e tem a mesma desconfiança
dos ambientalistas. "No final, acabaremos importando pneus velhos
da Europa."
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A mesma sensação causou desconforto no Ministério
do Meio Ambiente e na própria base governista. Segundo um deputado
petista, a ministra Marina Silva não era favorável ao decreto e a Casa
Civil deu parecer contrário, mas assim mesmo o documento foi assinado.
Há 15 dias, uma comissão de quatro parlamentares petistas - Fernando
Gabeira (RJ), Luciano Zica (SP), Dr.
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Rosinha (PR) e Mauro Passos (SC) - visitou o ministro
das Relações Exteriores, Celso Amorim, para questioná-lo sobre o
assunto.
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Amorim ponderou que o governo apenas cumpriu uma
determinação do Tribunal Arbitral do Mercosul. No início do ano
passado, a corte condenou por 3 a 0 (com o voto do delegado brasileiro)
a restrição do Brasil a essa importação.
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"Para quem aspira um papel de líder no
Mercosul, questionar a decisão seria um tiro no pé, porque depois
perderíamos legitimidade em causas que nos interessam", confirma
um assessor do Itamaraty.
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Os deputados do PT não ficaram convencidos. Na
quarta-feira passada, durante instalação da Comissão do Consumidor,
Meio Ambiente e Minorias, Gabeira e Zica requisitaram a convocação de
Amorim e da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, para explicar o
decreto. "Gosto muito do Lula, mas nessas questões não tem
acordo", diz Gabeira. "Essa importação traz prejuízos
ambientais, causa desemprego e nos obriga a assumir um alto custo para
reciclar um lixo que não produzimos."
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Também inconsolável, o deputado Zica defende a
extinção imediata do decreto ou a criação de salvaguardas para a
reciclagem desses pneus. "O decreto é inaceitável, porque no mínimo
cria um precedente. Não dá para viabilizar o Mercosul pela banda podre
da história", ressalta Zica. "O Congresso não vai aceitar
essas condições."
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Fábrica nova - O presidente da Associação
Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), Gerardo Tommasini, também
está preocupado. "Lula apenas acatou o que o tribunal determinou,
mas o fato é que o Brasil tornou-se o maior importador de pneus usados
e reformados do mundo", destaca Tommasini. Segundo ele, só no ano
passado entraram no País 3 milhões de pneus já utilizados. "Dá
quase 10 mil pneus por dia, o que significa uma fábrica nova, com 500
operários", compara. "O emprego foi gerado no exterior, os
impostos foram pagos lá e as divisas também ficaram do outro lado.
Aqui restou um pneu com pouco tempo de vida e o custo todo de sua
reciclagem", constata. "Não vou me atrever a calcular quanto
esses países gastariam para reciclar os 43 milhões de pneus que já
nos mandaram."
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Para a diretora da Secretaria de Qualidade Ambiental
do Ministério do Meio Ambiente, Marijane Vieira Lisboa, as críticas são
válidas, mas o problema não foi criado pelo atual governo. A origem
estaria no texto da portaria 258/99, do Conselho Nacional do Meio
Ambiente (Conama), que obrigou "as empresas fabricantes e as
importadoras" a reciclarem seus pneus gradualmente. Segundo ela, a
importação do pneu usado sempre foi proibida, mas ao não discriminá-lo
no texto, a portaria abriu uma brecha. "Grupos inteligentes
perceberam a chance e entraram com liminar, alegando que quem fabrica ou
importa pneus estava dentro da lei."
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O Conama redigiu nova portaria, mas nesse meio tempo,
a Casa Civil publicou o decreto 3919/01, estipulando uma multa de R$
400,00 na importação de cada pneu usado ou reformado. "Como a
importação do reformado (com a banda refeita) sempre foi permitida, o
decreto criou uma anomalia: algo que não era proibido passou a ter
multa", diz ela.
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Para consertar a situação, a diretora avisa que será
preciso paciência e cautela. Ela adianta que na primeira reunião do
Conama, em abril, o texto da portaria será alterado, mas com validade
para janeiro de 2004. "Se colocarmos janeiro de 2003 poderemos ter
nova enxurrada de liminares", observa Marijane. Mais tarde, cogita
ela, poderia ser proibida a importação de qualquer pneu usado ou
reformado. "Antes, vamos avaliar se impor custos ao importador não
é mais efetivo do que proibir."
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