Carta Aberta a um Governante Honrado
ou
Você Tem Fome de Quê?
Creio que nunca fomos apresentados, mas desconfio que nos conhecemos de longa data porque grande é a correspondência que recebi de você ao longo dos anos, geralmente contendo um resumo de sua vida e várias propostas de melhorias para a cidade, o estado, o país, tudo em troca de um módico voto meu. Como aprecio boas intenções aliadas a boas biografias, não me fiz de rogada e votei uma, duas, três, tantas vezes quantas fossem necessárias para que nossa aliança tivesse êxito. Claro que o processo foi longo e muitas vezes penoso, como é de se esperar quando o combate é travado contra titãs como fome, miséria, injustiça e preconceito, mas isso até aumentou o sabor da alegria quando todo o poder que emana do povo passou a ser exercido pelo povo. É com base nessa intimidade, digamos, eleitoral, que escrevo essa carta, sem nome e endereço definidos porque desconheço se você é único ou múltiplo, já que o censo faz levantamento de gênero mas não de mérito, contudo torço para que ela o encontre em uma prefeitura, um governo, uma assembléia, senado ou câmara, cumprindo o mandato recebido com os mesmos princípios e ideais que nortearam as promessas de campanha, ou seja, honradamente, como se espera de um verdadeiro homem público. Para que atinja seus fins, a missiva será envolta em bytes e lançada no mar internético onde, espero, boas almas a encontrem e remetam a você. Considerando que inexiste qualquer pretensão a cargo ou função de minha parte, não enviarei santinhos, cédulas ou material promocional, mas faço um pedido: um voto contra a fome.
Sei que o presidente lançou essa bandeira aos quatro ventos e que está na moda usar camiseta, fazer doação, organizar chá, show, leilão e coquetel para exibir na ilha de Caras, mas como o mendigo da esquina continua mendigo na esquina, desconfio que as coisas não estão andando como deviam. Então me lembrei de minha amiga Clara Brandão. Ela nunca apareceu em coluna social e não faz idéia quem seja o alfaiate do José Dirceu, mas há mais de vinte anos ela inventou um troço maravilhoso: a multimistura. Desenvolvendo técnicas de utilização de farelos com o aproveitamento da alimentação local, com base no conceito de que a variedade é que dá a qualidade da alimentação, Clara chegou nesse composto. E dê-lhe a usar piracuí, taruba, farelo de arroz, fubá, farinha de mandioca, pó da folha do aipim, pó da casca do ovo e um monte de coisas que crescem como inço por aí e a gente não usa porque desconhece. Foi então que dona Zila Arns, que de boba não tem nada, botou a Pastoral da Criança a difundir a multimistura, provocando uma verdadeira revolução alimentar em todos os locais onde foi implementada, acabando com a desnutrição inclusive nos catorze países para onde foi exportada a idéia. E Clara, na qualidade de servidora pública (e depois dizem que a gente não serve pra nada!) e gerente da equipe de nutrição do Ministério da Saúde, continuou batendo pernas pelo Brasil, catando mais e mais alimentos e conhecimento para incrementar e difundir o programa, com a confiança inabalável de que a vida é o bem supremo e tudo deve ser posto a seu serviço. Conversar com Clara deveria ser experiência obrigatória para todos os políticos. Você não sabe se chora ou se ri, porque as maiores misérias são descritas com aquele seu jeito manso de falar justo na hora em que o filé está sendo servido, porém é na hora da sobremesa que o sorriso aflora em toda sua plenitude porque o álbum que abre sobre a mesa não a deixa mentir, e aquele menino ali, pele e osso aos três meses, é o mesmo garotão bonito de seis meses da foto ao lado, e nós, seus amigos, temos a dádiva de saber que é graças a ela que esses pequenos grandes milagres ainda acontecem nas entranhas da pátria.
Clara, entretanto, tem um grave defeito (para certos padrões éticos), é capaz de dizer publicamente coisas como: "O que importa na utilização deste método é a informação e não o dinheiro". Ora, ora, ora! Isso é coisa que se diga? E o dinheirão todo arrecadado pelas socialites, pelas modelos, os artistas, como fica? E a comida vendida pelos supermercados vai ser trocada por capim? Tem cabimento um negócio desses? Não, não, não, isso não se diz, dona Clara, não mesmo. Assim, para deixar claro que a fome tem dono e patrocinadores a bordo, o ministério da saúde despediu Clara e extinguiu seu projeto. Desta forma, se algum dia algum miserável receber alimento saberá que foi graças aos trocados da Gisele Bündchen, e não a uma mulher que não namora o Leonardo e nem deve ter visto o Titanic!
Agora, caro governante, vou deixar as brincadeiras de lado, dar um descanso ao sarcasmo e dizer, com todas as letras que o alfabeto me dá: tô puta com isso! Putíssima! Não foi pra isso que bandeiras vermelhas estrelaram o céu desse país nas últimas décadas. Não foi para contentar banqueiros, financistas, latifundiários ou as transnacionais alimentícias que votamos em você. Foi para que mulheres como Clara brotassem e vicejassem de tal maneira que fome zero virasse realidade e não projeto de marketing para, literalmente, inglês ver. Tenho a felicidade de não tê-la sentido, - como o retirante que nos preside e que por isso mesmo deveria combatê-la com unhas e dentes e não com slogans e dudas - mas nem por isso estou imune a ela e seus efeitos, tão terríveis quanto. Uma estupidez desse porte só pode ser fruto de ignorância, má-fé ou doses cavalares de insensibilidade mas, seja qual for a causa, o resultado é um só: aumento da mortalidade infantil e da miséria coletiva. Se isso não é causa para uma ação penal pública, então não sei o que mais é. Posso até aceitar que o ministério esteja desenvolvendo novos projetos, que isso faça parte de algum plano maior de busca de bem-estar social, etc., etc., mas um problema grave como esse só tem uma maneira de acabar: é agregando. Isso é coisa pra se levar em todas as frentes, por todas as pessoas, em todos os quadrantes, de todas as maneiras possíveis. Só somando se acrescenta, dá pra entender?
Portanto, se você for honrado como meu voto foi, pega essa bandeira e bota bem alto, onde todos a possam ver, e chama a Clara e todas as claras que existam por aí, para que possamos aprender não o caminho das pedras, que esse todo brasileiro conhece, querendo ou não, mas o caminho do alimento e da saúde, sem o qual não haverá paz possível. Não precisa fazer estardalhaço, ir pro Jornal Nacional nem contratar o Nizan, basta arregaçar as mangas e fazer o que a minha amiga fez: por-se a serviço do todo que a parte se ajeita. Conto com teu voto?
Clarice Müller
10/11/03