Casa-alimento, uma revolução que nasce
por Renato Pompeu e Ligia Morresi (Caros Amigos, n. 77, agosto/03)
Um
projeto surpreendente pode ajudar a eliminar o lixo plástico e a resolver os
problemas da habitação e da alimentação.
Um sonho que parece um sonho: é o projeto dos Curadores da Terra de construir,
com garrafas de plástico usadas, casas sólidas quatro vezes mais baratas e duráveis
do que as casas convencionais, e de cujas paredes e teto nascem plantas comestíveis
– como frutas, verduras, legumes –, ervas medicinais e plantas ornamentais.
A idéia, a direção do projeto e a patente são do arquiteto Sérgio Prado,
que hoje prefere ser chamado de artista plástico ambiental e, como militante
oposicionista à ditadura militar, esteve algum tempo preso no Brasil e vários
anos exilado na França. O projeto, de uma tacada só, pode ajudar a resolver os
problemas da poluição ambiental por lixo plástico e combustíveis, da habitação
popular, da alimentação – e da agressão ao ambiente, pela drástica redução
na extração de materiais tradicionais de construção, como areia e ferro, e
da produção de cimento e concreto.
Pelo projeto de lei federal 269 de 1999, do senador Carlos Bezerra em parceria
com os Curadores da Terra, já aprovado pelo Senado – faltando a votação
final na Câmara dos Deputados e a sanção do presidente da República –, na
garrafa de refrigerante e em sua publicidade, como também em qualquer embalagem
ou objeto de plástico (poliuretano, isopor, polipropileno, todos os cinqüenta
tipos de plástico), devem figurar as informações e instruções de
reaproveitamento e a proibição de ser jogada fora ou no lixo.
Diz Sérgio Prado: "Cada produto que use plástico precisa ter um código
que diga como é que ele tem de ser reutilizado, e assim acabou o lixo dos
ambientalistas – o plástico constitui 25 por cento do lixo mundial e essa
proporção está crescendo, já constituindo 70 por cento da poluição oceânica
–, qualquer João da Silva pode usar na sua casa. É só ver como se faz a
montagem".
A proibição de jogar garrafas no lixo intensifica a implantação de sistemas
de coleta seletiva. Começa-se a separar o plástico no próprio bairro, num
trabalho de colaboração entre as sociedades amigos de bairros e as
cooperativas de catadores. Na construção das sedes das centrais dos catadores
são utilizados garrafas e outros objetos de plástico. As garrafas são fixadas
umas às outras por meio de telas de plástico (do tipo normalmente usado em
piscicultura), formando paredes e tetos. Para as paredes, as garrafas são
enchidas de água com uma gota de cloro, de modo que o risco de incêndio ou de
contaminação por vetores de doenças, como a dengue, é inexistente.
Utilizam-se no teto garrafas vazias, para ficarem mais leves, sem risco de
desabar. O sistema estrutural continua sendo o tradicional, de concreto, ferro
ou madeira; ou pode ser com vigas de plástico fundido e que sofreu extrusão
por máquina; os pavimentos, paredes e tetos são feitos também de garrafas.
Cada garrafa fica sempre fechada, com a própria tampinha.
Ao
lado umas das outras, as garrafas formam, segundo Sérgio Prado, um tecido vivo
semelhante a um tecido vegetal, ou à pele humana, cada garrafa sendo uma célula.
Mais exatamente, de cada vinte garrafas com água da parede ou vinte com ar do
teto, uma tem um sistema de hidroponia, um gotejamento com alimento para a
planta, com as raízes dentro da garrafa, em um xaxim plástico encontrado em
lojas de plantas. O xaxim é como uma esponja cheia de água e nutrientes sempre
renovados, que preenche a garrafa toda e na qual ficam fincadas as raízes da
planta. O fundo da garrafa é virado para fora ou para cima; a tampa é voltada
para dentro ou para baixo. De modo que em pouco tempo, em um mês, quando a
planta cresce (o crescimento em hidroponia é duas vezes mais rápido do que no
sistema natural tradicional), o que se vê é uma parede vegetal e não de plástico.
Não se vê mais plástico nenhum, nem no teto – a privacidade, que poderia
ficar comprometida pelo plástico translúcido, fica assim protegida por tapetes
verdes indevassáveis.
As águas da chuva são guardadas, levadas pela calha até caixas-d’água
escuras, para não receberem luz do sol e se tornarem, assim, imunes a bactérias.
Essa água vai constantemente renovando o gotejamento, de modo que não existe
trabalho de jardinagem – ele é feito automaticamente. Já foram
experimentadas quarenta plantas alimentares, tomate, berinjela, cebola, chuchu,
verduras, legumes, feijão, arroz, por exemplo, e todos os tipos de fruta,
maracujá, morango, amoras, uva – o sistema só não funciona com tubérculos,
como batata, mandioca e beterraba, que precisam de terra para sobreviver.
A construção apresenta-se forte, porque o plástico é a matéria mais
resistente à tração e compressão, mais do que o aço – os cabos que
seguram em alto-mar as torres de petróleo são de plástico, os de aço não
resistiriam às marés. As armações de plástico, em arco, poderiam até
cobrir sem risco o Maracanã, desde que recobertas de plantas, pois as únicas
coisas que o plástico não suporta são o sol, que o torna quebradiço, e o
fogo, que o transforma em óxido carbônico. Mas, estando cheio de água e com
plantas, não há exposição ao sol nem perigo de fogo. A clorofila da planta
absorve a luz do sol e o anidrido carbônico dos combustíveis fósseis
espalhados fora pelos veículos e fábricas.
São construções verdes, vivas – o sistema é chamado PBH, plástico,
biomassa e hidroponia. A planta absorve todo o sol, não há necessidade de ar
condicionado; não há risco de incêndio, porque a água está sendo sempre
renovada.
Como as paredes são em grande parte vazias por dentro, num tecido alveolar,
podem ser facilmente instaladas as redes de eletricidade e de água e até de gás.
O piso ideal é de plástico fundido e extrudado. Os blocos de plástico não
absorvem calor nem umidade, ao contrário de todos os materiais tradicionais de
construção, como areia, ferro e cimento. A construção pode ter dezenas de
andares.
Um dos pontos de partida do projeto de lei já aprovado no Senado e em tramitação
final na Câmara foi a construção em Brasília, em maio de 1998, na gestão do
prefeito Cristovam Buarque, de uma armação, em praça pública, de garrafas de
plástico, que ficou em exposição sete meses. Nesse período houve um vendaval
em Brasília tão forte que entortou os postes de energia, mas a estrutura de plástico
resistiu, ficou incólume, conta Sérgio Prado.
Em Santo André, Osasco e Jandira, cidades da Grande São Paulo, já existem
comunidades interessadas. Grupos ligados à produção de plástico no país –
como Braskem, Instituto do PVC, Associação Brasileira de Pet, Plastivida,
Sindiplast – estão estudando a viabilidade do projeto. A idéia é que cada
município faça uma casa-alimento para mostrar a seus habitantes.
"A casa-alimento ajuda a combater as enchentes, reduzir o gasto de
eletricidade e a aumentar a disponibilidade de alimentos. Ela não depende do
Banco Mundial, não depende de recursos – depende apenas de vontade política
para ser realizada. O Brasil cria um projeto mundial, em especial para os países
tropicais e subtropicais, que têm excesso de lixo plástico e populações sem
casa e alimentos. Usa-se a maior mídia do mundo, o ícone da globalização,
que é o plástico, num projeto de auto-sustentabilidade", conclui Sérgio
Prado. Parece um sonho.
Outras informações estão no site www.curadoresdaterra.com.br