Correio da Cidadania

Qual ecologia?

Frei Betto: Foi o biólogo alemão Ernest Haeckel (1834-1919) quem cunhou o termo Ecologia, que deriva do grego "oikos", que significa casa, e "logos", conhecimento ou estudo. Na sua definição, "ecologia é o estudo da interdependência e da  interação entre os organismos vivos (animais e plantas) e seu meio ambiente  (seres inorgânicos)". Como não se trata apenas de conhecer a natureza, mas  sobretudo de cuidar para que seja preservada, talvez o termo mais adequado  fosse ecobionomia, pois "nomia" significa o que é de lei ou de direito. Assim  como Economia é a obrigação de cuidar da casa, ecobionomia seria o cuidado da  vida.   Existem basicamente três conceitos ecológicos. O primeiro é o fundamentalista,  derivado de uma interpretação literal do texto bíblico e adotado pelo  capitalismo: a natureza está aí para quem quiser deitar e rolar, cortar árvore,  pôr fogo na mata, aproveitar e, sobretudo, extrair lucros. É o que pensa Bush,  que se recusa a assinar o Protocolo de Kyoto e qualquer tratado que exija a  redução da poluição industrial causada pelos EUA.   O segundo é o conceito que chamo de social-democrata: lutar pela defesa das  baleias, dos golfinhos, da não poluição dos rios e das matas. Agora, a fome na  África, na Ásia, na América Latina, isso não interessa. A natureza deve ser  tratada como um santuário. Mas o bicho-homem e o bicho-mulher passando fome não  é problema nosso.   O terceiro, considero evangélico: não dá para separar o ser humano da natureza.  Nós somos natureza e não há nada que se faça à natureza que não repercuta no  homem e na mulher. E não há nada que façamos a nós mesmos que não repercuta no  meio ambiente.   Quem simbolizou essa unidade no Brasil foi Chico Mendes, assassinado no Natal  de 1988. Sua postura ecológica nasceu da militância nas Comunidades Eclesiais  de Base do Acre e, em seguida, na CUT e no PT. Ao defender a Amazônia e propor  a reserva extrativista, ele sabia que, assim, evitava a expansão do latifúndio  na região. Com os "empates", Chico impediu o desmatamento no Acre, ao contrário  do que ocorreu em Rondônia. Ele vinculava a defesa do meio ambiente à urgência  da reforma agrária em nosso país. De todas as espécies de vida, a humana é a mais sagrada. No entanto, aciona-se  o alarme para alertar que, nos próximos 20 anos, a aids matará 70 milhões de  pessoas no mundo (até hoje, matou 20 milhões). Mas não é a aids a principal  ameaça à vida humana. É a fome, que mata uma criança a cada três segundos.   É preciso preservar, não apenas o meio ambiente, mas o ambiente inteiro: este  planeta que, por enquanto, não tem como captar recursos fora de suas  fronteiras. Portanto, sem a partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho  humano, o nosso futuro estará cada vez mais distante do Jardim do Éden e  próximo dos círculos abissais de Lúcifer. A prosseguir a atual escala de  poluição atmosférica, sem contar a da água, as gerações vindouras já nascerão  envenenadas.

Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto ­ Autobiografia Escolar" (Ática),  entre outros livros.

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