Centros Urbanos dão um Basta à Pressa

Cidades italianas constroem trincheiras para lutar contra globalização, preservar tradições e melhorar a qualidade de vida

 DANIELA FALCÃO

Uma cidade onde carros não circulam pelo centro, onde todo lixo produzido é reciclado, letreiros de neon são proibidos, comerciantes conhecem seus clientes pelo nome e a sesta é um direito sagrado está a anos luz do cotidiano da maioria das pessoas que vive hoje em grandes centros urbanos. Mas é exatamente isso o que almejam 32 cidades italianas e uma croata que, no fim de 1999, fundaram o movimento das Slow Cities (cidades lentas em inglês) para brecar a degeneração da qualidade de vida nos centros urbanos. Inspiradas pelo Slow Food, movimento criado na Itália há 14 anos para preservar tradições gastronômicas, as slow cities querem se libertar do ritmo frenético imposto pela vida moderna e economia globalizada.

Os participantes do movimento não são neo-luditas nem saudosistas que sonham viver no campo. Eles dão boas-vindas à internet, às fibras ópticas e às placas de bateria solar, mas abominam alarmes de carro, telefones celulares, alimentos transgênicos e antenas parabólicas - sobretudo quando instaladas em prédios seculares. Admitem que o progresso trouxe bem-estar e conforto, mas lamentam que tenha homogeneizado hábitos culturais e gastronômicos, transformando cidades européias, sul-americanas e asiáticas em réplicas da americana Las Vegas. O símbolo das slow cities - um caracol passando no meio de dois prédios, um moderno e outro antigo - reflete bem o que o movimento se propõe: escolher o que a tecnologia e a vida moderna trouxeram de bom sem abdicar das tradições ''Todo o mundo se molda hoje no exemplo de Las Vegas. Há cada vez mais cidades virtuais em vez de cidades reais'', diz Paolo Saturnini, líder do movimento e prefeito de Greve-in-Chianti, uma agradável cidade da Toscana famosa pela qualidade de seus vinhos. Não é de espantar que o movimento que luta para manter as características locais das vilas e melhorar a qualidade de vida de seus habitantes tenha surgido na Itália, país que reúne algumas das cidades mais charmosas do mundo, que ainda preservam quase intactos hábitos e costumes como almoços familiares aos domingos e compras diárias em armazéns de secos e molhados.

Sem estresse - Viver numa slow city parece, de fato, um sonho para quem não agüenta mais gastar duas horas diárias só para chegar ao escritório nem engolir um sanduíche em 15 minutos em cima da mesa de trabalho porque falta tempo para almoçar de verdade. Combater o estresse e manter a diversidade local são as principais metas dos prefeitos que aderem ao movimento. Para chegar lá, incentivam a preservação de restaurantes e pousadas familiares em vez de cadeias de fast food e grandes redes de hotéis. Também vetam a entrada de carros no centro da cidade, incentivam a produção de alimentos orgânicos e dão incentivos fiscais para a construção de casas inteligentes - com energia solar e reaproveitamento de água.

A vida dos moradores muda para melhor porque as slow cities estimulam as empresas a adotarem jornada de trabalho semanal inferior a 40 horas e estimulam a convivência em praças e a apreciação das boas comidas e bebidas produzidas localmente.

Por tudo isso, terminam se tornando extremamente atraentes para turistas. Entre as 32 cidades italianas que aderiram ao movimento estão algumas das mais charmosas do país, como Orvieto, Urbino e Positano, a última, na Costa Malfitana. Como aconteceu com o Slow Food, que montou suas bases na Itália, sem pressa, e depois conquistou o mundo (o movimento hoje tem 65 mil membros espalhados por 35 países), o Slow City já começa a conquistar adeptos fora da fronteira italiana. No Canadá, uma dezena de cidades já pleiteiam a inclusão no movimento. No Brasil, são duas: Antônio Prado, no Rio Grande do Sul, e Tiradentes, em Minas Gerais (leia na página 9). ''O que defendemos, em última instância, é o direito ao prazer. E isso mobiliza as pessoas e traz adeptos ao movimento em qualquer lugar do mundo'', diz Renato Sardo, ex-diretor internacional do movimento, que acaba de se mudar para Nova York para cuidar da filial americana do Slow Food, que, curiosamente, é a que mais cresce hoje.

Candidatas - Virar uma slow city, entretanto, não é fácil. Para se candidatar, as cidades têm de mostrar que são ecologicamente corretas, que preservam história e tradições e que fazem de tudo para não deixar seus moradores estressados pela correria da vida moderna.

Em primeiro lugar, os prefeitos têm de provar que não apóiam práticas que possam degradar o meio ambiente. Antenas de celulares, por exemplo, só podem ser instaladas longe de prédios residenciais. E a emissão máxima de ondas eletromagnéticas permitida tem de ficar abaixo do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Apesar de ainda não haver consenso sobre o perigo do consumo de alimentos transgênicos, experimentos dessa natureza são terminantemente proibidos nas cidades lentas. Por outro lado, plantações de alimentos orgânicos - que dispensam agrotóxicos e, assim, protegem o solo e a saúde dos moradores - são mais que bem-vindas. Em Bra slow city italiana com 27 mil habitantes localizada no Piemonte, todas as frutas e verduras compradas para fazer a merenda nas escolas públicas têm de ser orgânicas.

Poluição sonora e visual são consideradas grandes ameaças à qualidade de vida dos moradores. Por isso, boa parte das slow cities proíbe a instalação de alarmes de carro e combate com rigor a instalação não-autorizada de outdoors e letreiros em neon.

Planejamento - Os prefeitos também têm de adotar medidas que melhorem concretamente a vida dos cidadãos. Em Greve-in-Chianti, por exemplo, os órgãos municipais passaram a abrir as portas nas manhãs de sábado para permitir que quem trabalha em tempo integral possa resolver seus problemas burocráticos. Mas, para não sobrecarregar os funcionários públicos, fecham as portas durante à tarde de quinta-feira. Já em Bra, as mercearias, açougues e frutarias são proibidos por decreto municipal de funcionarem às quintas-feiras (para dar aos proprietários tempo de resolver problemas pessoais) e aos domingos, claro.

Planejamento urbano também é fundamental. O centro da cidade deve ficar livre de carros, sobretudo se for histórico e tiver prédios tombados. E as cidades carentes de parques, área exclusiva para pedestres e ciclovias, precisa criar espaço de circulação não-motorizada. Moradores que são proprietários de prédios antigos recebem auxílio financeiro para deixá-los bem conservados e donos de restaurantes e pensões familiares recebem treinamento para atender bem o turista.

''Nossa maior preocupação é em melhorar a qualidade de vida de quem mora na cidade, mas sabemos que tratar bem o turista é fundamental. Sobretudo para as cidades menores, que dependem da renda trazida pelos visitantes'', diz Saturnini.

Slow City: Duas cidades brasileiras aderem ao movimento

Arquivo

Antônio Prado, no Rio Grande do Sul: as 47 casas de madeira colorida que abrigaram os primeiros imigrantes italianos continuam de pé até hoje

Duas cidades brasileiras podem se transformar nas primeiras slow cities da América Latina. A pacata Antônio Prado (no Rio Grande do Sul) e a tradicional Tiradentes (cidade histórica de Minas Gerais) devem se juntar à liga das vilas que lutam para preservar suas origens ainda neste ano. Para passar pelo crivo dos responsáveis pela adesão ao movimento ambas apostam em seus prédios históricos bem preservados e nas tradições gastronômicas.

A 60 km de Caxias do Sul e com 13 mil habitantes, Antônio Prado já é quase uma slow city. No próximo mês, a liga deve formalizar sua entrada no movimento. ''O nosso porta-voz lá é o prefeito de Orvieto. Segundo ele, em outubro já vamos assinar a carta de intenções para que Antônio Prado vire a primeira cidade latino-americana a aderir ao Slow Cities'', afirma Jorge Ossanai, presidente do convívio (filial) do Slow Food do Rio Grande do Sul. Um dos primeiros núcleos de colonização italiana do país, Antônio Prado mantém intactas as 47 casas de madeira que abrigaram os imigrantes da área, vindos sobretudo do Vêneto a partir de 1875. Todas coloridas, as casas foram construídas com madeiras extraídas da própria região. Tombadas pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional), algumas construções são quase centenárias. ''As casas estão muitíssimo bem conservadas porque são usadas até hoje '', afirma Norci Bortolotto, secretária de Educação de Antônio Prado.

Além da importância histórica, da proximidade com a Itália (berço do movimento) e da arquitetura bem preservada, Antônio Prado tem chances de virar uma slow city porque é um exemplo de respeito às tradições. Até hoje, seus moradores ainda usam no cotidiano produtos da época da colonização. Um exemplo típico é o artesanato. As sportas, por exemplo, bolsas de palha feitas com tiras de palha de trigo trançadas à mão, chamadas de tressas, são muito cobiçadas pelos turistas que visitam a região. Além disso, existem famílias que plantam, fiam e tecem o linho com rocas e teares domésticos. Outras ainda cultivam plantas medicinais, fazem embutidos, conservas, passas e até sabão artesanal. ''Mas também temos internet'', afirma Norci.

Filosofia - Tiradentes só decidiu pleitear sua entrada no movimento há 15 dias, quando foi sede de um festival de gastronomia que contou com a presença do diretor internacional do Slow Food, Sebastiano Sardo. Mas já conta com uma estrutura digna das 32 cidades que criaram o Slow City. ''Cada vez que ouvia o Sardo explicando a filosofia do movimento, pensava que Tiradentes já nasceu uma slow city. Temos tradições gastronômicas e culturais fortíssimas, uma arquitetura rica e bem preservada (a cidade é tombada pelo Iphan). Tudo que precisa'', diz Ralph Justino, secretário de Cultura, Turismo e Meio Ambiente de Tiradentes.

Apesar de considerar Tiradentes uma slow city nata, Justino já está implementado as medidas que facilitarão a entrada da cidade na liga. ''Proibimos a circulação de carros no centro histórico durante os fins de semana e estamos estudando maneiras de incentivar a gastronomia local. Haviam pratos típicos que estavam desaparecendo. Vamos dar um jeito de colocá-los de volta no cardápio dos restaurantes'', planeja Justino. Entre as iguarias ameaçadas de extinção estão o kibebe, o mastruço, e a ora pro nobis (orai por nós, em latim), que é uma folha típica da região, geralmente cozida para acompanhar quiabadas.

O desafio das metrópoles

Ainda que o Rio de Janeiro pareça estar muito distante dos princípios defendidos pelas 32 cidades italianas que criaram o Slow Cities, entre os grandes centros urbanos brasileiros, é o Rio quem mais se aproxima do que prega o movimento. A sobrevivência dos cinemas de rua apesar da onda dos multiplex, os trilhos e o bonde de Santa Teresa, bairros como a Urca e o recente tombamento do Leblon são exemplos de que o carioca está mais perto de moradores de Bra, Greve-in-Chianti ou Orvieto (todas slow cities italianas) do que imagina.

Alguns hábitos que já foram marca registrada da cidade, entretanto, estão com os dias contados. É o caso do café passado com coador (quase todos os restaurantes já sucumbiram à popularidade do expresso) e do mate servido em garrafão de alumínio (hoje praticamente só se encontra o mate em copinho). ''O Rio tem um amor à tradição que São Paulo não tem. Mas está perdendo rápido alguns costumes importantes'', diz Margarida Nogueira, uma das coordenadoras do Slow Food no Rio.

Cidades de médio porte, de fato, se adaptam mais facilmente às propostas do Slow City. Mas grandes centros urbanos também podem se beneficiar muito da filosofia do movimento.

''Claro que as cidades maiores estão mais contaminadas pela pressa, poluição e falta de apego às tradições e é difícil acabar com tudo isso por decreto. Mas, ainda assim, podem fazer pequenas mudanças que tornarão a vida dos moradores menos estressante'', disse Sebastiano Sardo, diretor internacional do Slow Food/Slow City, que esteve no Rio há 15 dias.

Proibir o trânsito de carros no centro histórico, por exemplo, é uma medida slow city que poderia ser adotada sem grande tumulto em Salvador, São Luís e até no Rio de Janeiro. Destinar mais áreas para pedestres e construir ciclovias são outras medidas que as capitais brasileiras poderiam adotar com facilidade.

''Virar uma slow city é mais fácil do que se imagina, mas é preciso haver mobilização da prefeitura e da comunidade para tombar áreas históricas da cidade, cuidar desses imóveis e não deixar que hábitos culturais e gastronômicos desapareçam'', diz Sardo.

 

Contra estresse, Itália lança Cittaslow

 13.08.2000

Movimento quer preservar tradição de tranquilidade e de qualidade gastronômica nas pequenas cidades

    Preocupadas com os "perigos" da globalização sobre a qualidade de vida, 32 cidades italianas se juntaram num movimento destinado a preservar o modo de vida tranquilo de seus cidadãos.
Trata-se do movimento Cittaslow (uma mistura de italiano e inglês que poderia ser traduzida por "cidade lenta"), que pretende proteger as características que fazem das pequenas cidades do país lugares atrativos a quem busca calma e tranquilidade, além de hospitalidade e comida de ótima qualidade.
Os inimigos do grupo são os vícios trazidos pela vida moderna, presentes nas grandes cidades de todo o mundo: poluição do ar e sonora, trânsito, falta de áreas verdes, padronização das ofertas de alimentação e, principalmente, muita pressa.
"O fenômeno da globalização permite, entre outras coisas, a troca e a difusão de informações, mas tende a eliminar as diferenças e esconder as características peculiares de realidades distintas. Em resumo, propõe modelos medianos que não pertencem a ninguém e inevitavelmente geram mediocridade", diz a carta de fundação do movimento.
"O padrão urbano americano está invadindo nossas cidades e fazendo-as parecer todas iguais. O que queremos é preservar nossa identidade", explica Paolo Saturnini, idealizador e coordenador do movimento Cittaslow e prefeito da pequena cidade toscana de Greve in Chianti, na região central da Itália.
Segundo ele, para uma cidade ser aceita no movimento, deve seguir uma série de requisitos, que vão desde a preocupação ambiental, com ações como a construção de parques, ciclovias e calçadões e a reciclagem do lixo, até políticas de proteção ao pequeno comércio e a restaurantes tradicionais.
As 34 cidades que fazem parte do movimento (além das 32 iniciais, outra cidade italiana e uma croata se juntaram ao grupo) são analisadas por uma comissão, que verifica se os "mandamentos" do grupo estão sendo cumpridos, e recebem um certificado e a permissão para usar o logotipo do Cittaslow.
O símbolo do movimento é um providencial escargô, que, como lembram os seus idealizadores, além de um símbolo da lerdeza é também um refinado item da culinária mediterrânea.
A cada ano, uma das "cittaslow" abrigará a reunião anual do movimento, para discutir questões relacionadas à melhoria da qualidade de vida nas cidades e estabelecer suas prioridades para o ano seguinte.
A cidade de Orvieto, na região da Umbria, abrigou a primeira reunião, de fundação do movimento.

Orgulho gastronômico

A questão da qualidade da alimentação é uma das principais preocupações do Cittaslow. O próprio movimento nasceu como um apêndice de outro, criado em 1986 e destinado a combater o avanço das cadeias de fast-food e a padronização culinária.
O movimento original, batizado de Slow Food, se espalhou rapidamente e hoje já tem mais de 60 mil estabelecimentos associados em 35 países. Os ideais do Slow Food são também ideais do movimento Cittaslow.
Lanchonetes do McDonald's, nem pensar. "Queremos lutar contra a invasão das grandes redes de distribuição e de franquias, principalmente no setor de alimentação", afirma Saturnini.
"Não podemos impedir as grandes cadeias de alimentação de se estabelecerem na cidade, mas esperamos que as pessoas que vêm à cidade não queiram comer aqui o mesmo hambúrguer que podem comer em Londres, Paris ou Melbourne", diz.

Novas tecnologias

À primeira vista, as regras do movimento Cittaslow podem ser vistas como uma tentativa de manter suas afiliadas paradas no tempo. Mas Saturnini afirma que a intenção é exatamente a oposta.
"Não queremos atrasar o relógio da história. O que queremos é simplesmente preservar o que temos de bom e agradável do nosso passado", diz ele. "Não somos contra a tecnologia. Os novos sistemas de comunicação, como a Internet, podem ser uma ferramenta para preservar ou melhorar nossa qualidade de vida."
Até agora, o movimento é quase exclusivamente italiano, mas seus membros pretendem expandi-lo para outros países. "Nossa intenção é promover e desenvolver o movimento em outros países, começando pela Europa", afirma Saturnini.(Rogério Waasermann, AF)


"Queremos melhorar a vida dos cidadãos"


Paolo Saturnini, 50, criador do movimento Cittaslow, diz que seu objetivo não é deixar as cidades paradas no tempo, mas preservar as características físicas, culturais e gastronômicas que fazem delas lugares agradáveis e com boa qualidade de vida.
Prefeito desde 1990 da pequena Greve in Chianti, cidade de 12,7 mil habitantes na região produtora de vinhos na Toscana, Saturnini deu a seguinte entrevista à Folha, por fax:
(RW)


Folha - Qual a origem do movimento Cittaslow?
Paolo Saturnini -
Na Itália e em outros países já havia associações preocupadas com a preservação do meio ambiente, da cultura ou das tradições gastronômicas. Mas acho muito difícil para essas associações combaterem sozinhas a devastação provocada pela globalização nas nossas formas de vida. Acho que as instituições têm de tomar parte nessa luta. Foi por essa razão que criei esse movimento, composto de prefeituras e prefeitos próximos à população.

Folha - Quais são os objetivos do movimento?
Saturnini -
Melhorar a vida dos cidadãos, melhorar a qualidade da hospitalidade turística e preservar o meio ambiente, a paisagem e os produtos típicos das cidades e das regiões.

Folha - Quais as características principais de uma "cittaslow"?
Saturnini -
A cidade deve estar engajada numa política ambiental concreta. Tem de fazer parques, calçadões e ciclovias e manter uma política de proteção à fauna e à flora. Além disso, precisa dar proteção ao comércio tradicional e a restaurantes e lutar contra a invasão das grandes distribuidoras e franquias, principalmente do setor de alimentação. O movimento vai controlar se as cidades estão seguindo essa filosofia.

Folha - E o que não pode ser uma "cittaslow"?
Saturnini -
A oposição à "cittaslow" é uma cidade na qual o ritmo de vida e trabalho é impossível, porque há muito barulho, tráfego e poluição e não há áreas verdes. Onde há muitos supermercados e onde as pequenas lojas e restaurantes estão desaparecendo. A comida e o modo de vida são iguais em todas essas cidades.

Folha - O movimento é exclusivamente italiano?
Saturnini -
Temos hoje 34 cidades no movimento, todas italianas exceto Verteneglio, na Croácia. O número de cidades italianas vai crescer, mas também é nossa intenção promover e desenvolver o movimento em outros países, começando pela Europa.

Folha - Como o movimento Cittaslow afeta a vida das pessoas?
Saturnini -
Nossa intenção é melhorar a qualidade de vida das pessoas. Nosso movimento não é "new age" nem pretendemos colocar um freio na evolução da história. Queremos preservar o que temos de bom do nosso passado. Não somos contra a tecnologia. Os novos sistemas de comunicação, como a Internet, podem ser uma ferramenta para melhorar nossa qualidade de vida.


Orvieto resiste à pressa da vida moderna


São 9h30 da manhã, mas os relógios do poste em frente à estação de trem marcam 10h45, 11h15 e 2h20. Em Orvieto, cidade medieval no centro da Itália, ninguém parece muito preocupado com o horário.
Orvieto é uma das cidades do movimento Cittaslow, que tenta preservar velhos hábitos e resistir à pressa e aos costumes padronizados da vida moderna.
Até agora, pelo menos, Orvieto está ganhando a parada.
É preciso ter paciência para se chegar lá. Orvieto fica no alto de um penhasco, e é necessário pegar um bonde para subir o morro. Um cartaz avisa: "Se quer velocidade, vá de ônibus".
Depois de descer do bonde, é preciso andar dez minutos até o centro da cidade velha. Ao ver o lugar, porém, o visitante entende porque os seus cerca de 7.000 moradores são tão apegados ao passado.
A história de Orvieto começa com o povo etrusco, sete séculos antes de Cristo, atravessa o Império Romano, mas parece ter se mantido intocada desde a Idade Média.
Em becos estreitos, calçados com pedras, vêem-se casas baixas e irregulares, com sacadas decoradas com flores, e igrejas góticas, construídas no século 14.
Os aposentados se reúnem todas as manhãs para conversar na praça central, as crianças sentam no chão, num canto da rua principal, e as mulheres saem juntas para passear, empurrando carrinhos com bebês. As pessoas falam sem parar, em grupos, na porta das lojas ou usando celulares.
"A vida aqui parou no tempo. As pessoas têm televisão, videogame, computador, mas preferem ficar na rua, conversando com os amigos e com os vizinhos", diz Laura Cardi, funcionária da prefeitura.

Porta aberta
Segurança não é problema. Muitas pessoas saem de casa e deixam a porta aberta. De duas em duas semanas, a polícia registra algum furto.
Os policias não se lembram de ter investigado um assassinato, e o último suicídio ocorreu há seis anos. "Nossa maior preocupação é com a falta de estacionamento", diz o chefe da polícia, Beco Lucio.
A tranquilidade de Orvieto fica evidente na hora do almoço. Em poucos minutos, o barulho das pessoas conversando na rua e do movimento dos carros e das lambretas dá lugar ao silêncio. As lojas fecham, as ruas ficam vazias, todos vão para casa, comer e dormir.
Só os restaurantes ficam abertos, mas o turista acostumado com a agilidade das lanchonetes fast-food precisa se adaptar ao ritmo da cidade.
Algumas osterias, spaghetterias e pizzarias nem sequer servem Coca-Cola. Cada refeição conta com entrada, primeiro prato, prato principal, sobremesa, vinho e café expresso.
"Aqui tudo é feito na região. Nossa cozinha e nossos vinhos são famosos em todos os lugares. Porque vamos querer o McDonald's?", pergunta Chiaroti Luciano, de 63 anos, sentado no banco em frente à sua loja de vinhos, enquanto espera algum freguês.
Os moradores de Orvieto resistem às mudanças e querem preservar suas tradições, mas, assim como nos filmes do cineasta italiano Federico Fellini, muitas vezes a vida é doce apenas na aparência.
"Que vida?", pergunta a entediada Elvisa Maietto, 58, com a cabeça recostada no balcão de sua mercearia. "De casa para o trabalho e do trabalho para casa, que vida é essa?" (Ricardo Grinbaum, AF)

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