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Centros Urbanos dão um Basta à Pressa Cidades italianas constroem trincheiras para lutar contra globalização, preservar tradições e melhorar a qualidade de vida DANIELA
FALCÃO Os
participantes do movimento não são neo-luditas nem saudosistas que sonham
viver no campo. Eles dão boas-vindas à internet, às fibras ópticas e às
placas de bateria solar, mas abominam alarmes de carro, telefones celulares,
alimentos transgênicos e antenas parabólicas - sobretudo quando instaladas
em prédios seculares. Admitem que o progresso trouxe bem-estar e conforto,
mas lamentam que tenha homogeneizado hábitos culturais e gastronômicos,
transformando cidades européias, sul-americanas e asiáticas em réplicas
da americana Las Vegas. O símbolo das slow cities - um caracol
passando no meio de dois prédios, um moderno e outro antigo - reflete bem o
que o movimento se propõe: escolher o que a tecnologia e a vida moderna
trouxeram de bom sem abdicar das tradições ''Todo o mundo se molda hoje no
exemplo de Las Vegas. Há cada vez mais cidades virtuais em vez de cidades
reais'', diz Paolo Saturnini, líder do movimento e prefeito de
Greve-in-Chianti, uma agradável cidade da Toscana famosa pela qualidade de
seus vinhos. Não é de espantar que o movimento que luta para manter as
características locais das vilas e melhorar a qualidade de vida de seus
habitantes tenha surgido na Itália, país que reúne algumas das cidades
mais charmosas do mundo, que ainda preservam quase intactos hábitos e
costumes como almoços familiares aos domingos e compras diárias em
armazéns de secos e molhados.
Sem estresse
- Viver numa slow city parece, de fato, um sonho para quem não
agüenta mais gastar duas horas diárias só para chegar ao escritório nem
engolir um sanduíche em 15 minutos em cima da mesa de trabalho porque falta
tempo para almoçar de verdade. Combater o estresse e manter a diversidade
local são as principais metas dos prefeitos que aderem ao movimento. Para
chegar lá, incentivam a preservação de restaurantes e pousadas familiares
em vez de cadeias de fast food e grandes redes de hotéis. Também vetam a
entrada de carros no centro da cidade, incentivam a produção de alimentos
orgânicos e dão incentivos fiscais para a construção de casas
inteligentes - com energia solar e reaproveitamento de água.
A vida dos
moradores muda para melhor porque as slow cities estimulam as
empresas a adotarem jornada de trabalho semanal inferior a 40 horas e
estimulam a convivência em praças e a apreciação das boas comidas e
bebidas produzidas localmente.
Por tudo isso,
terminam se tornando extremamente atraentes para turistas. Entre as 32
cidades italianas que aderiram ao movimento estão algumas das mais
charmosas do país, como Orvieto, Urbino e Positano, a última, na Costa
Malfitana. Como aconteceu com o Slow Food, que montou suas bases na
Itália, sem pressa, e depois conquistou o mundo (o movimento hoje tem 65
mil membros espalhados por 35 países), o Slow City já começa a
conquistar adeptos fora da fronteira italiana. No Canadá, uma dezena de
cidades já pleiteiam a inclusão no movimento. No Brasil, são duas:
Antônio Prado, no Rio Grande do Sul, e Tiradentes, em Minas Gerais (leia na
página 9). ''O que defendemos, em última instância, é o direito ao
prazer. E isso mobiliza as pessoas e traz adeptos ao movimento em qualquer
lugar do mundo'', diz Renato Sardo, ex-diretor internacional do movimento,
que acaba de se mudar para Nova York para cuidar da filial americana do Slow
Food, que, curiosamente, é a que mais cresce hoje.
Candidatas -
Virar uma slow city, entretanto, não é fácil. Para se candidatar,
as cidades têm de mostrar que são ecologicamente corretas, que preservam
história e tradições e que fazem de tudo para não deixar seus moradores
estressados pela correria da vida moderna.
Em primeiro
lugar, os prefeitos têm de provar que não apóiam práticas que possam
degradar o meio ambiente. Antenas de celulares, por exemplo, só podem ser
instaladas longe de prédios residenciais. E a emissão máxima de ondas
eletromagnéticas permitida tem de ficar abaixo do limite recomendado pela
Organização Mundial da Saúde. Apesar de ainda não haver consenso sobre o
perigo do consumo de alimentos transgênicos, experimentos dessa natureza
são terminantemente proibidos nas cidades lentas. Por outro lado,
plantações de alimentos orgânicos - que dispensam agrotóxicos e, assim,
protegem o solo e a saúde dos moradores - são mais que bem-vindas. Em Bra slow
city italiana com 27 mil habitantes localizada no Piemonte, todas as
frutas e verduras compradas para fazer a merenda nas escolas públicas têm
de ser orgânicas.
Poluição
sonora e visual são consideradas grandes ameaças à qualidade de vida dos
moradores. Por isso, boa parte das slow cities proíbe a instalação de
alarmes de carro e combate com rigor a instalação não-autorizada de
outdoors e letreiros em neon.
Planejamento
- Os prefeitos também têm de adotar medidas que melhorem concretamente
a vida dos cidadãos. Em Greve-in-Chianti, por exemplo, os órgãos
municipais passaram a abrir as portas nas manhãs de sábado para permitir
que quem trabalha em tempo integral possa resolver seus problemas
burocráticos. Mas, para não sobrecarregar os funcionários públicos,
fecham as portas durante à tarde de quinta-feira. Já em Bra, as
mercearias, açougues e frutarias são proibidos por decreto municipal de
funcionarem às quintas-feiras (para dar aos proprietários tempo de
resolver problemas pessoais) e aos domingos, claro.
Planejamento
urbano também é fundamental. O centro da cidade deve ficar livre de
carros, sobretudo se for histórico e tiver prédios tombados. E as cidades
carentes de parques, área exclusiva para pedestres e ciclovias, precisa
criar espaço de circulação não-motorizada. Moradores que são
proprietários de prédios antigos recebem auxílio financeiro para
deixá-los bem conservados e donos de restaurantes e pensões familiares
recebem treinamento para atender bem o turista.
''Nossa maior
preocupação é em melhorar a qualidade de vida de quem mora na cidade, mas
sabemos que tratar bem o turista é fundamental. Sobretudo para as cidades
menores, que dependem da renda trazida pelos visitantes'', diz Saturnini. Slow
City: Duas cidades brasileiras aderem ao movimento
Arquivo
Antônio
Prado, no Rio Grande do Sul: as 47 casas de madeira colorida que
abrigaram os primeiros imigrantes italianos continuam de pé até
hoje Duas
cidades brasileiras podem se transformar nas primeiras slow cities da
América Latina. A pacata Antônio Prado (no Rio Grande do Sul) e a
tradicional Tiradentes (cidade histórica de Minas Gerais) devem se juntar
à liga das vilas que lutam para preservar suas origens ainda neste ano.
Para passar pelo crivo dos responsáveis pela adesão ao movimento ambas
apostam em seus prédios históricos bem preservados e nas tradições
gastronômicas.
A 60 km de
Caxias do Sul e com 13 mil habitantes, Antônio Prado já é quase uma slow
city. No próximo mês, a liga deve formalizar sua entrada no movimento.
''O nosso porta-voz lá é o prefeito de Orvieto. Segundo ele, em outubro
já vamos assinar a carta de intenções para que Antônio Prado vire a
primeira cidade latino-americana a aderir ao Slow Cities'', afirma
Jorge Ossanai, presidente do convívio (filial) do Slow Food do
Rio Grande do Sul. Um dos primeiros núcleos de colonização italiana do
país, Antônio Prado mantém intactas as 47 casas de madeira que abrigaram
os imigrantes da área, vindos sobretudo do Vêneto a partir de 1875. Todas
coloridas, as casas foram construídas com madeiras extraídas da própria
região. Tombadas pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional),
algumas construções são quase centenárias. ''As casas estão muitíssimo
bem conservadas porque são usadas até hoje '', afirma Norci Bortolotto,
secretária de Educação de Antônio Prado.
Além da
importância histórica, da proximidade com a Itália (berço do movimento)
e da arquitetura bem preservada, Antônio Prado tem chances de virar uma slow
city porque é um exemplo de respeito às tradições. Até hoje, seus
moradores ainda usam no cotidiano produtos da época da colonização. Um
exemplo típico é o artesanato. As sportas, por exemplo, bolsas de
palha feitas com tiras de palha de trigo trançadas à mão, chamadas de tressas,
são muito cobiçadas pelos turistas que visitam a região. Além disso,
existem famílias que plantam, fiam e tecem o linho com rocas e teares
domésticos. Outras ainda cultivam plantas medicinais, fazem embutidos,
conservas, passas e até sabão artesanal. ''Mas também temos internet'',
afirma Norci.
Filosofia -
Tiradentes só decidiu pleitear sua entrada no movimento há 15 dias, quando
foi sede de um festival de gastronomia que contou com a presença do diretor
internacional do Slow Food, Sebastiano Sardo. Mas já conta com uma
estrutura digna das 32 cidades que criaram o Slow City. ''Cada vez
que ouvia o Sardo explicando a filosofia do movimento, pensava que
Tiradentes já nasceu uma slow city. Temos tradições gastronômicas
e culturais fortíssimas, uma arquitetura rica e bem preservada (a cidade é
tombada pelo Iphan). Tudo que precisa'', diz Ralph Justino, secretário de
Cultura, Turismo e Meio Ambiente de Tiradentes.
Apesar de
considerar Tiradentes uma slow city nata, Justino já está
implementado as medidas que facilitarão a entrada da cidade na liga.
''Proibimos a circulação de carros no centro histórico durante os fins de
semana e estamos estudando maneiras de incentivar a gastronomia local.
Haviam pratos típicos que estavam desaparecendo. Vamos dar um jeito de
colocá-los de volta no cardápio dos restaurantes'', planeja Justino. Entre
as iguarias ameaçadas de extinção estão o kibebe, o mastruço, e a ora
pro nobis (orai por nós, em latim), que é uma folha típica da região,
geralmente cozida para acompanhar quiabadas. O
desafio das metrópoles Ainda
que o Rio de Janeiro pareça estar muito distante dos princípios defendidos
pelas 32 cidades italianas que criaram o Slow Cities, entre os
grandes centros urbanos brasileiros, é o Rio quem mais se aproxima do que
prega o movimento. A sobrevivência dos cinemas de rua apesar da onda dos
multiplex, os trilhos e o bonde de Santa Teresa, bairros como a Urca e o
recente tombamento do Leblon são exemplos de que o carioca está mais perto
de moradores de Bra, Greve-in-Chianti ou Orvieto (todas slow cities
italianas) do que imagina.
Alguns hábitos
que já foram marca registrada da cidade, entretanto, estão com os dias
contados. É o caso do café passado com coador (quase todos os restaurantes
já sucumbiram à popularidade do expresso) e do mate servido em garrafão
de alumínio (hoje praticamente só se encontra o mate em copinho). ''O Rio
tem um amor à tradição que São Paulo não tem. Mas está perdendo
rápido alguns costumes importantes'', diz Margarida Nogueira, uma das
coordenadoras do Slow Food no Rio.
Cidades de
médio porte, de fato, se adaptam mais facilmente às propostas do Slow
City. Mas grandes centros urbanos também podem se beneficiar muito da
filosofia do movimento.
''Claro que as
cidades maiores estão mais contaminadas pela pressa, poluição e falta de
apego às tradições e é difícil acabar com tudo isso por decreto. Mas,
ainda assim, podem fazer pequenas mudanças que tornarão a vida dos
moradores menos estressante'', disse Sebastiano Sardo, diretor internacional
do Slow Food/Slow City, que esteve no Rio há 15 dias.
Proibir o
trânsito de carros no centro histórico, por exemplo, é uma medida slow
city que poderia ser adotada sem grande tumulto em Salvador, São Luís e
até no Rio de Janeiro. Destinar mais áreas para pedestres e construir
ciclovias são outras medidas que as capitais brasileiras poderiam adotar
com facilidade.
''Virar uma
slow city é mais fácil do que se imagina, mas é preciso haver
mobilização da prefeitura e da comunidade para tombar áreas históricas
da cidade, cuidar desses imóveis e não deixar que hábitos culturais e
gastronômicos desapareçam'', diz Sardo.
Contra
estresse, Itália lança Cittaslow 13.08.2000 Movimento
quer preservar tradição de tranquilidade e de qualidade gastronômica nas
pequenas cidades "Queremos
melhorar a vida dos cidadãos" Folha
- Quais são os objetivos do movimento? Folha
- Quais as características principais de uma "cittaslow"? Folha
- E o que não pode ser uma "cittaslow"? Folha
- O movimento é exclusivamente italiano? Folha
- Como o movimento Cittaslow afeta a vida das pessoas? Orvieto
resiste à pressa da vida moderna |