Revista do Terceiro Setor www.rits.org.br Segunda-feira, 20 de Outubro de 2003 20:01h
Como doar 1,1 bilhão de dólares
Marcos
Sá Corrêa*
Com uma barba que
parece estar sempre por fazer, cabelo aparado a máquina e gravata curta demais,
o empresário suíço Stephan Schimidheiny passaria por um professor contratado
para dar uma palestra a executivos se o prédio da conferência não tivesse seu
nome, a maior parte dos ouvintes de ternos escuros no auditório lotado não
trabalhasse em suas empresas e ele não estivesse no Instituto Centro-americano
de Administração de Empresas de Alajuela, Costa Rica, para explicar por que
resolveu doar 1,1 bilhão de dólares para programas filantrópicos na América
Latina.
Esse patrimônio,
desde quinta-feira passada, pertence ao Viva Service S.A., um fideicomisso
criado para controlar os negócios de Schimidheiny no continente. É coisa de
gente grande: 30 fábricas e 40 empresas que se espalham por 17 países,
empregam 13 mil pessoas e faturam um bilhão de dólares por ano com tubos plásticos,
material de construção, plantações de palmito, macadâmia e arroz, além de
300 mil hectares de florestas para a produção de madeira certificada.
Ou seja, todo o
GrupoNueva, o conglomerado de quatro tentáculos – Amanco, Ecos, Terranova e
Masisa – nascido depois da Conferência Mundial do Meio Ambiente, que
Schimidheiny ajudou a promover no Rio de Janeiro em 1992, para provar que dá
para ganhar muito dinheiro na América Latina tratando direito sua sociedade
pobre e sua natureza vulnerável. Nas mãos do Viva, ele passará daqui para a
frente a gerar recursos para sustentar a Avina, uma fundação que nos últimos
seis anos gastou 280 milhões de dólares com ONGs que tocam projetos sociais e
ambientais em 10 países latino-americanos.
Juntando o
GrupoNueva e a Avina, Schimidheiny criou o Viva com “duas pernas”, uma
lucrativa, outra benemerente, e uma só cabeça, programada para encurtar a distância
entre o lucro e a filantropia: “Para os funcionários, saber que os lucros
gerados já não beneficiam um acionista, mas que serão reinvestidos em seu próprio
meio social, beneficiando de forma direta a sociedade e de forma indireta a
empresa, espero que esta seja uma motivação adicional”.
Último a falar
como “convidado de honra” na conferência da quinta-feira passada, depois de
passar pelo microfone até o premio Nobel Oscar Arias Sánchez, ex-presidente da
Costa Rica, ele foi o primeiro orador que se atreveu a justificar a doação
como medida do “senso comum”. À falta de um modelo para copiar, ele foi
“o melhor conselheiro”, disse Schimidheiny. A fanfarrice não é seu forte.
No fim do discurso, espremendo os olhos como se os óculos estivessem fracos,
ele parecia embaraçado ao reconhecer que “a doação é sem dúvida grande
para os padrões da América Latina”.
Mas a justificativa
estava pronta. Por que se desfazer de tanta coisa aos 55 anos? “Porque estou
numa idade em que ainda posso ver os resultados”, ele respondeu. Não é a
primeira vez que troca de rumo. Aos 45, depois da Rio-92, ele vendeu suas
companhias na Suiça, transferiu sua sede para a Costa Rica e plantou deste lado
do mundo o GrupoNueva. Aos 29, assumiu a presidência da Eternit, a
multinacional da família, no momento em que a empresa balançava com a
descoberta de que o amianto, matéria-prima de suas placas fabricadas em mais de
20 países, era cancerígeno.
Bisneto de oleiro,
neto de um fabricante de cimento, filho de um industrial que fundara um império
sobre o amianto, Schimidheiny achou que estava metido num negócio sem futuro.
Ele mesmo, estagiando na Eternit brasileira, mexera com a fibra venenosa.
“Tomei uma decisão radical”, ele conta. Antes que o produto fosse proibido,
prometeu em entrevistas coletivas que o grupo pararia de fazer produtos baseados
no amianto. Como, nem ele mesmo sabia. Era como procurar a fórmula “da água
seca”.
Na década de 80,
quase quebrou várias vezes. Acabou “mais bem sucedido do que poderia supor”
apostando em novidades, como redes de quiosques em estações de trem, banco, aço,
máquinas fotográficas ou instrumentos eletrônicos, de preferência
“empresas em crise que precisavam de uma reestruturação”. Em alguns desses
investimentos, tirou a sorte grande. Ao pôr as fichas na relojoaria suíça,
acuada pelos relógios japoneses, deu à luz a Swatch.
No começo dos anos
90, já era um troféu para ser exibido a assembléias de empresários, quando
Maurice Strong, secretário geral da Conferência das Nações Unidas sobre Meio
Ambiente, transformou-o em parteiro do Conselho Empresarial do Desenvolvimento
Sustentável. Era uma cruzada para mostrar, como ele repete até hoje, “que não
há negócios bem sucedidos em sociedades que fracassam” e é possível
“atender as necessidades do presente sem comprometer o bem-estar das gerações
futuras”. Schimidheiny largou tudo e foi cuidar da tarefa. No ano que
antecedeu a Rio-92, fez 50 reuniões em 20 países. Lançou uma cartilha de
desenvolvimento sustentável traduzida para 15 idiomas. Cunhou o termo
“eco-eficiência”, para definir o padrão de decência ambiental. E fundou
um conselho que hoje reúne 700 pessoas em 45 países.
Foi assim, via
Rio-92, que chegou de vez para a América Latina, região onde sua família
atuou marginalmente por mais de 60 anos. Aqui, encontrou uma “grande
necessidade de filantropia”, tão grande que todo o dinheiro do mundo não
bastaria para atender. E passou a investir em “empreendedores sociais”,
dispostos a “produzir mudanças positivas” para “o maior número possível
de pessoas”.
Gente que, no
Brasil, acabou encarnando na médica carioca Vera Cordeiro, da Renascer, uma ONG
que cuida de crianças pobres em suas próprias casas, ou da arquiteta Patrícia
Chalaça, que implantou em Recife a Casa da Criança, uma réplica da Casa Cor
para reformar e decorar de graça abrigos e creches. É esse o tipo de pessoa
que desde 1994 a Avina banca, para tornar estáveis iniciativas que antes viviam
da mão para a boca. Só no Brasil, quase 170 projetos sociais e ambientais já
foram associados à fundação. No continente, há mais de 600 parcerias
semelhantes. Cada um deles tem uma boa história, daquelas que raramente
aparecem nos jornais.
“Sei que não
vamos salvar a América Latina com esta doação”, disse o empresário na
entrevista coletiva que apresentou o Viva à imprensa na sede do Instituto
Centro-americano de Administração de Empresas, num campus à sombra de
mangueiras que lembrava ao mesmo tempo a Jacarepaguá do passado e a Fundação
Getúlio Vargas do futuro. Mas a seu lado estava James Wolfensohn, presidente do
Banco Mundial, que passara de manhã pelo gabinete do presidente Abel Pacheco de
la Espriella.
A audiência
oficial atiçou os repórteres. “O que veio fazer na Costa Rica?”,
perguntou-lhe um jornalista. “Vim aqui para encontrar meu amigo Stephen e
agradecer o exemplo que ele está dando”, respondeu Wolfenshon, que no começo
da carreira trabalhou para a família Schimidheiny. Só assim o doador se animou
a ser enfático. “Espero que o Viva se torne contagioso”, ele concluiu, como
se estivesse de volta ao tempo das discussões sobre o amianto. “Espero que
contagie outras empresas”.
*
Marcos Sá Correa é jornalista. Texto originalmente publicado pelo nomínimo
(www.nominimo.com.br).