Armando de Melo Lisboa (Dpto. de Economia/UFSC)
“As universidades brasileiras estão pesquisando com os olhos voltados para a OMC (Organização Mundial do Comércio) e de costas e ouvidos moucos para a OMS (Organização Mundial da Saúde), cultuando o bezerro de ouro, nesta altura clonado da vaca louca” (D. Mauro Morelli, abril/03)
Vivemos no país mais desigual do mundo onde milhões vivem sem a mínima de dignidade. Nossa civilização fracassou por não propiciar às maiorias felicidade e segurança, por não dar de comer ao planeta, mas torná-lo um lugar cada vez mais fétido e sem vida. O natural de um órgão público seria estar envolvido com estas urgentes e imensas demandas da sociedade. Porém, estamos voltados para nossos próprios umbigos (puro academicismo), ou, quando muito, conectados apenas com os interesses empresariais-capitalistas.
Estamos numa universidade “pública” cada vez mais prostituída com o interesse de poucos. Os vínculos com a sociedade (de pesquisa, extensão ou cursos) das pessoas criativas e inovadoras são deixados, em geral, aos cuidados das fundações, deixando de fortalecer uma perspectiva de compromisso do trabalho acadêmico com o interesse público. Cabe construir formas coletivas que permitam combinar os interesses individuais com uma perspectiva político-acadêmica não mercantilista-privatista. Ainda somos uma universidade pública de direito. Resta construí-la de fato.
Em parte as forças “humanistas” na UFSC são débeis por ficarem restritas à crítica ao neoliberalismo e ao mercado, não apresentando alternativas ancoradas em outras formas de gestão e num horizonte viável que possibilite a (re)produção vital. Precisamos de utopias mais encarnadas no nosso entorno, na sociedade catarinense em particular. Precisamos sair do discurso apenas ideológico (sem renunciar às utopias) e apresentar alternativas concretas para as pessoas, a começar pelos nossos alunos.
SC possui um perfil econômico-urbano diferenciado do hegemônico no Brasil, pois sua estrutura fundiária, pulverizada pelo processo de colonização, assenta-se em unidades familiares, forjando um tecido social de disseminada capacidade empreendedora e com vastas reservas de cooperação e solidariedade. Apesar deste potencial, as políticas desenvolvimentistas privilegiaram os grandes grupos econômicos com capacidade exportadora, bem como o molde da revolução verde incentivou a integração da agricultura ao complexo agro-industrial conforme um pacote tecnológico importado e inadequado às nossas condições naturais. Descartou-se uma orientação que favorecesse os produtos com identidade cultural oriundos da agroindústria familiar de pequeno porte. Todavia, este processo de modernização segundo a ótica fundamentalista de mercado nunca se completou entre nós, sobrevivendo até hoje, ainda que enfraquecida, uma densa agricultura de base familiar e uma rede de pequenas e médias empresas.
O desafio é duplo. Num contexto onde a economia cada vez mais se funda no conhecimento, a necessidade de um modelo de desenvolvimento nacional impõe a ponte entre o mundo empresarial e o acadêmico. Por outro lado, ficar restrito apenas à uma conexão economicista com o grande capital no país mais iníquo do mundo é alimentar uma exploração despudorada e sem limites!
O capitalismo nunca viveu apenas da produção capitalista. O conceito de Modo de Produção levou Marx a ignorar ou subestimar as relações econômicas não hegemônicas. Parte da esquerda continua a não perceber racionalidades produtivas diferenciadas ao interior do capitalismo. Encontramos diferentes tipos de empresas, não apenas as organizadas pelo capital, mas também empresas metabolicamente distintas organizadas pelo trabalho que inclusive se situam nos mercados, com processo próprio de acumulação e que buscam uma outra eficiência. Não apenas há uma pluralidade de formas produtivas, mas também de estilos de vida e de consumo, contra-hegemônicos sem dúvida.
Pegando carona na idéia de "responsabilidade social empresarial ", trata-se de perceber que o mercado não é uma força abstrata, mas um organismo que assume peculiaridades conforme época e lugar, Possui história, é afetado pela cultura, está vinculado aos jogos de poder e, portanto, sujeito à controles sociais. É estratégico que a UFSC mantenha relações com o mundo empresarial, politizando-as! Este campo de disputa é vital se queremos construir alternativas societárias para as maiorias e para todos. Neste debate as ciências humanas têm muito a dizer.
Vivemos o esgotamento do modelo de desenvolvimento tipo plantation, o qual era competitivo porque socializava custos (não computava em sua cadeia produtiva todos os custos envolvidos). Hoje estamos diante de novas formas produtivas onde redes de pequenas e médias empresas flexíveis tem muita competitividade. De fato não se eliminará todas as grandes unidades produtivas (o pequeno pode ser belo, mas não é suficiente para tudo que a sociedade precisa). No atual estágio tecnológico a produção de aço e laminados apenas é eficiente quando feita em grandes unidades fabris. O mesmo vale para portos e aeroportos internacionais.
O modelo de modernização disciplinar torna-se inadequado para dar suporte às novas tecnologias, as quais aprofundam o aspecto cooperativo do trabalho. Em parte a Economia Solidária é expressão dum outro paradigma produtivo e civilizatório, estando bem sintonizada com as novas possibilidades organizacionais. Cabe estar a altura da nova lógica de solidarismo econômico, que se diferencia da individual-capitalista. As formas econômicas solidárias, juntamente com as da economia popular (solidárias ou não) carecem duma outra assessoria e suporte técnico.
É aí que surge no Brasil a original e relevante Rede de Incubadoras de Cooperativas Populares ao interior de diversas universidades, como é o caso da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da FURB, exemplar em incubar cooperativas de forma colada com os processos locais de organização popular. Na FURB uma perspectiva político-acadêmica de "centro-esquerda" já está no seu terceiro mandato (e em Blumenau, uma cidade aparentemente mais conservadora). Apesar do desgaste internacional do neoliberalismo, no nível local de uma Universidade é preciso gestar perspectivas concretas e saber ocupar os espaços cotidianos com as mesmas.
Neste campo da economia popular solidária é mister se articular com as demandas concretas da sociedade e conhecer suas frágeis experiências. Cabe aprender a metodologia do empreendedorismo solidário e dos jogos cooperativos (área onde as ciências humanas muito têm a contribuir), para contrapor ao enganoso empreendedorismo individualista que se dissemina cada vez mais como alternativa ao desemprego, inclusive dentro das universidades.
Na UFSC, no micro-campus da Agronomia muito se avançou nesta direção. Lá temos um modelo universitário de alta qualidade, fundado nas parcerias com instituições do Estado de SC, com as redes da sociedade civil (em especial com o setor da agricultura familiar, articuladas através de ONGs – como o CEPAGRO – de sindicatos e associações, como a AGRECO) e enraizada numa idéia de desenvolvimento econômico-tecnológico alternativo (agricultura orgânica, ênfase no desenvolvimento local e sustentável). Deste caldeirão surgiu, na EPAGRI, o inovador e fecundo programa Microbacias. Também se gestou o que de mais relevante a nossa Universidade já produziu em termos sócio-econômicos: a MARICULTURA, forjada numa perspectiva de fortalecer as comunidades locais através de formas familiares, cooperativas e associativas de produção.