Consciência de Grupo: A Essência da Cooperação
Por: Eduardo Coutinho de Paula
Nos
últimos movimentos e avanços da Cultura da Cooperação, muito temos nos
referido à necessidade de conscientização sobre valores éticos e à prática
cotidiana dos mesmos. Estamos tão acostumados a usar a palavra grupo que muitas
vezes sua acepção apropriada nos escapa. Este Artigo objetiva aprofundar o
significado de "Grupo" e colocar em foco o sentido de
"Consciência de Grupo", bem como partilhar algumas idéias sobre a
dicotomia entre interesses individuais e coletivos e a verdadeira Consciência
da Cooperação. Gary Zukav, físico e escritor premiado, em seu livro "A
Morada da Alma", afirma que para a percepção limitada dos cinco sentidos
humanos, a base da vida ainda é o medo. E o medo alimenta a crença de que a
sobrevivência só é garantida aos mais aptos - ou aos que cooptam com o status
quo, mesmo sentindo interiormente que é necessário promover mudanças
favoráveis à vida. Dando força a várias inseguranças, a humanidade abstraiu
toda uma cultura de individualismo, controle e competição, que tão bem
conhecemos. (Re)descobrir, resgatar e (re)conectar o verdadeiro espírito de
grupo, (re)despertar o sentido amplo de comum-unidade e a chamada Consciência
de Grupo em nossas relações pessoais e interpessoais, na relação entre
instituições e entre as nações se revela um passo fundamental para a
reversão desse quadro. Sabemos que a Cooperação, mais que uma mudança de
paradigmas, é uma transformação da Consciência. "Cinco
pessoas sobem uma montanha por uma fina trilha. O caminho é tão estreito que
elas têm que andar em fila única. À sua direita, há um profundo
despenhadeiro; à esquerda, a parede íngreme da montanha. As cinco pessoas
estão caminhando há horas, conversando, cantando, gracejando e rindo. Para um
estudioso do comportamento organizacional, ou para um antropólogo, ou ainda
para um psicólogo ou psicólogo social, existe uma organização nesse grupo, e
cada um desses profissionais seria capaz de escrever vários livros sobre o
comportamento e a interação dessas cinco pessoas. Todavia, neste nosso
contexto, podemos admitir que não existe um grupo organizado até essas cinco
pessoas chegarem a um local em que uma pedra enorme impede-lhes a passagem e
nenhuma das pessoas é capaz de movê-la sozinha. Agora, as pessoas precisam se
mobilizar para formarem efetivamente um Grupo. Precisam pensar, planejar,
avaliar, motivar e agir para tirar a pedra do caminho. O processo de Grupo passa
a existir quando há um propósito comum a ser realizado e quando há uma tarefa
que requer a interdependência das tarefas realizadas por diversas pessoas. Se
alguém conseguisse erguer a pedra sozinho, não haveria necessidade de
organização de um Grupo. No instante em que a tarefa exige a participação de
mais de uma pessoa, passa a ser necessário uma gestão." Referências
Bibliográficas · Gilman, R. - Eco Vilas e Comunidades Sustentáveis -
Reportagem - Dinamarca: Gaia Trust. · Heider, J. - O Tao da Realização
Pessoal - São Paulo: Ed. Cultrix. · Marriott, S. - Consciência de Grupo,
palestra - Jornal Partilha, Ano IV, N. 6, 2002 - Centro de Vivências Nazaré.
· Mclaughlin, C. & Davidson, G. - Builders of the Dawn - Tenesse/EUA: Book
Publishing Company. · Paula, E. C. de - Vivendo em Comum-unidade - Livro de
Boas Memórias, Segundo Festival de Jogos Cooperativos: Construindo Um Mundo
Onde Todos Podem VenSer - Taubaté, SESC São Paulo, Setembro/2001. · Walker,
A, - A Verdade Interior - Um guia do trabalho espiritual da Comunidade de
Findhorn - São Paulo: Editora Triom. · Walsch, N. D. - Conversando com Deus,
Um Diálogo Incomum - Rio de Janeiro: Ediouro.
O
que é um Grupo?
Ganhei
um texto com a historieta acima de um antigo colega, empresário de sucesso, e
fiz questão de resgatá-la de meus arquivos empoeirados pois a considero muito
ilustrativa. Sabemos que a base para qualquer Grupo e requisito necessário é a
coesão. E um dos tipos de coesão reconhecidamente mais importantes é o de Compartilhar
Visões Claras. Esta visão ou meta deve ser uma expressão honesta
da essência do Propósito Comum do Grupo. Numa expressão até poética e
lembrando a física quântica que nos confirma que estamos imersos em
vibrações: um Grupo é o resultado do pulsar de cada indivíduo e do pulsar
coletivo. Particularmente, intuo que ao partirmos de um propósito pessoal
definido e em alinhamento emoção-pensamento-ação, podemos viver melhor a
Vida em si, em seu sentido sagrado. Além disso, muito provavelmente, torna-se
mais fácil atrairmos - ou sermos atraídos para - outras pessoas com
propósitos semelhantes e, assim, por sincronicidade, construirmos um verdadeiro
Grupo.
O
Processo de Desenvolvimento do Grupo Abaixo, na série de parágrafos marcados
em itálico, ficam registrados alguns preciosos excertos do Livro "O Tao da
Realização Pessoal", de John Heider:
"O
modo de proceder do grupo evolui naturalmente. Ele se autogoverna. O resultado
surgirá. Os esforços para controlar o modo de proceder costumam falhar; eles o
bloqueiam ou o tornam desordenado. Aprende a confiar no que está acontecendo.
Se houver silêncio, deixa-o crescer; algo há de surgir. Se houver tempestade,
deixe-a rugir; ela se dissipará em calmaria. O grupo está descontente? Não o
podes tornar feliz. Mesmo se pudesses, teus esforços o privariam de um
exercício muito criativo. Os modos de proceder do grupo e do líder
desenvolvem-se de igual modo, de acordo com o mesmo princípio. O líder sabe
como exercer profunda influência sem forçar para que as coisas aconteçam. Por
exemplo: facilitar o que está acontecendo tem mais força que insistir no que
desejas que acontecesse. Demonstrar ou formar comportamentos tem mais força que
insistir com discursos. As posições destituídas de preconceito são mais
fortes que o preconceito. O brilho encoraja as pessoas, mas a tentativa de
sobressair-se as inibe.
Sobre
Consciência de Grupo O que podemos entender por "Consciência de
Grupo"? Um conceito sutil, nem tão simples de se explicar... Podemos
encará-la como o oposto complementar do conceito de "consciência de
massa", ou seja, um elevado estado de organização na qual passa a existir
a ênfase na valorização do indivíduo e sua integridade e cada indivíduo
encontra sua própria autonomia. Segundo Eva Pierrakos, a verdadeira
Consciência Grupal só é experimentada num Grupo quando o indivíduo encontrou
a si mesmo. Ele pode então cooperar com o Grupo e dele se beneficiar, sem
perder sua individualidade, sua própria autonomia e responsabilidade. A
Consciência de Grupo dá estímulo e suporte ao seu direito de se expressar de
modo singular. O equilíbrio adequado entre as necessidades do Grupo e as do
indivíduo é uma decorrência natural e assim o Grupo passa a ser, na verdade,
uma extensão do indivíduo, onde ele pode operar como um livre agente. Dentro
da definição de Sinergia, podemos nos perceber como uma parte de algo maior
que a soma de nossos relacionamentos individuais. Segundo Maslow, um grupo ou
uma instituição sinergética é aquela configurada de modo que uma pessoa, ao
buscar seus objetivos "egoístas" automaticamente também está
ajudando os outros: e que ao procurar ajudar os outros, ser-lhes útil é ser
"altruísta", também e automaticamente obtém vantagens
"egoístas". Quer dizer, é uma resolução da dicotomia entre
egoísmo e altruísmo, mostrando muito claramente que a oposição entre ambos
esses termos ou sua exclusão mútua é função de uma cultura pouco
desenvolvida. Em outras palavras, o conflito entre interesses pessoais e
coletivos, em seus diferentes graus, é indicativo direto da debilidade de
sinergia e carência de "Consciência de Grupo". David Spangler,
pensador contemporâneo e autor de diversos livros, fala sobre a Comunidade de
Consciência: "jamais há um momento em que não estamos em comunidade e
nossa prática é despertar para a experiência da comunhão". Eis aí o
sentido amplo de comum-unidade.
"Uma
boa corrente pode puxar um grande peso; entretanto, ela é tão forte quanto o
seu elo mais fraco. Um Grupo é algo similar. Ao enfrentar desafios, assumir
tarefas e expressar sua responsabilidade, um grupo é tão forte quanto o seu
membro menos desenvolvido, ou menos capacitado. É muito importante que ajudemos
uns aos outros a desenvolver potenciais e evoluir conscientemente. Em um Grupo,
à medida que cada membro se desenvolve e progride, a consciência total do
Grupo aumenta. E todos se beneficiam igualmente disso. É extremamente valioso
perceber que somos parte do corpo da humanidade e o afetamos diretamente com
cada pensamento e sentimento que emitimos. Num Grupo, esses pensamentos e
sentimentos se expandem em espirais cada vez mais amplas. Isso acontece o tempo
todo, de modo positivo ou negativo, quer estejamos conscientes disso ou
não." (Sara Marriott)
O
desenvolvimento do processo grupal em si é um grande mistério e a Consciência
de Grupo cria um campo de ressonância que facilita o aprendizado e o fluir do
próprio processo. A Vida em comum-unidade é um "estado de ser" que
catalisa o crescimento pessoal dentro de um Grupo e o crescimento do Coletivo
dentro do Todo. Devemos valorizar a contribuição de cada pessoa. A
combinação de qualidades como atuação, coragem e eficiência (vontade),
cuidado, confiança e vínculo (coração), entendimento, visão e integridade
(mente), de modo equilibrado, resultam numa poderosa integração. Em essência,
a Consciência de Grupo nasce da grande força de Atração, que faz do ser
humano um ser social, capaz de criar relacionamentos e vínculos afetivos, sobre
o plano pessoal. Consideramos que o ser humano se compõe das dimensões
físico-biológica, psicológica, social, cultural, histórica, ambiental e
espiritual. Somente com o despertar da dimensão espiritual do ser humano, a
Consciência de Grupo torna-se, enfim, o estado chamado pelos antigos sábios
como Consciência Universal.
"
Aprendendo o verdadeiro significado da Consciência de Grupo, paramos de olhar
para nós mesmos como um ser separado de todos os outros e começamos a ver
nosso elo com toda a humanidade, com a Natureza e o Cosmos. Nessa realização,
aprendemos a ciência e a arte da Cooperação." (Torkom Saraydarian)
A
Consciência da Cooperação Aristóteles já nos indicava que viver bem e cada
vez melhor é o que justifica a vida em comum, em coletividade. Tendo entendido
o real significado de Consciência de Grupo, podemos chegar a algumas
interessantes conclusões. Partilho a compreensão de que a semente da
Cooperação cresce espontaneamente do simples fato de nos percebermos
integrantes de um verdadeiro Grupo, em unidade e comunhão de Propósito. Além
deste aspecto essencial e a importância de sua contínua vitalização, bem
como organização geral e comunicação cuidadosas, outro aspecto fundamental
na coesão de um Grupo provém do coração. Assim, o autêntico espírito de
grupo emerge na construção de relações e laços afetivos sólidas, numa
comunicação efetiva, olho no olho, onde as experiências partilhadas e
desafios possam favorecer as bases de um entendimento mútuo, com amorosidade e
elos de confiança. Tudo isso certamente é válido de um pequeno Grupo de
estudos ou de trabalho a abrangentes organizações internacionais tais como a
ONU - em seu papel e sentido originais: respeitar as diferenças, favorecer
negociações e o bem estar de todos os povos, garantindo a Paz entre as
nações. O medo é a energia que restringe, paralisa, retrai, leva-nos a fugir
e a nos esconder. E fere. Se a base da vida ainda é o medo, lembro-me ter
aprendido ser o Amor, e não o ódio, a outra emoção humana fundamental que
motiva, em profundidade, todas as nossas ações. Assim, no caminho de
transformação da Consciência, temos o grande exercício de conversão do medo
em Amor. O Amor é a energia que expande, move, revela, leva-nos a ficar e
partilhar. E cura. É a verdadeira essência da própria força de
atração/coesão na natureza. Nessa linguagem, somos livres para escolher o
modo como queremos atuar, interagir e co-habitar, desde a rua onde moramos à
casa planetária chamada Terra. Podemos ainda lembrar que a Cooperação deve se
estabelecer em três níveis interdependentes: consigo mesmo, com o(s) outro(s)
e com o ambiente. Somos levados também a pensar que o exercício consciente da
Cooperação no dia a dia contribui de modo orgânico e efetivo para a
manifestação da Consciência de Grupo. Através da Consciência de Grupo,
haverá seguramente época de uma nova realidade em nossa civilização na qual
a atitude "não cooperativa" será percebida com a mesma estranheza
com que hoje consideramos os regimes totalitários ou a escravatura. Nas
conhecidas palavras de Gibran: "O Amor nada dá senão de si próprio e
nada recebe senão de si próprio. O Amor não possui e não se deixa possuir,
pois o Amor basta-se a si mesmo". Para finalizar, deixamos um instigante
pensamento que tem sido levado para reflexão em Oficinas com "grupos
cooperativos":
"Todos
os homens são pegos numa teia sem escape de mutualidade, presos em uma peça de
roupa singular do destino. O que quer que afete alguém diretamente, afeta a
todos indiretamente. Não posso nunca ser o que deveria ser até você ser o que
deveria ser e você não pode nunca ser o que deveria ser até que eu seja o que
devo ser." Martin Luther King (Fonte: Inst. Christophorus)