Efeito
Estufa e Consumo
O Falso Mote da Energia Nuclear
Por Domingos Bernardi Neto
Há
apenas alguns dias o Jornal Independent publicou artigo polêmico de James
Lovelock, no qual o autor da Hipótese de Gaia defende e conclama ambientalistas
e ecologistas à desmistificação do uso da energia nuclear como alternativa
sistêmica ao controle da velocidade dos acontecimentos relacionados ao efeito
estufa e ao aquecimento global. O artigo em questão aborda, nas entrelinhas,
que a velocidade da sucessão ecológica proveniente das alterações
climáticas provocadas pelo homem se constitui na maior ameaça à
civilização.
Desde
que surgiu, Homo sapiens têm-se dedicado a conquistar o planeta, a criar e
estender seu domínio a todas as demais espécies e a todas as forças da
natureza.
A
ecologia, também criada por Homo sapiens sapiens faz uso de uma linguagem que
se refere às mudanças das espécies como resultado das mudanças do ambiente.
Nesse contexto o processo de sucessão pode ser visto como uma conseqüência
inevitável do caráter histórico dos ecossistemas. Ao considerarmos o homem
enquanto espécie, como parte de um sistema subordinado a sistemas maiores - as
comunidades - e estas subordinadas a sistemas ainda maiores, os ecossistemas ou
a biosfera, se assume que o funcionamento dos sistemas mais amplos influencia na
manutenção e determinação do número de espécies e de indivíduos.
À
sucessão são conferidas as propriedades de estimular e direcionar o processo
evolutivo. A importância do processo sucessional se apóia na premissa de que a
estrutura e funcionamento dos ecossistemas não estão determinados
primariamente por leis biológicas e sim por leis não biológicas, como por
exemplo as leis ou princípios da termodinâmica, além de umas poucas leis
gerais da física envolvidas nas hipóteses que explicam a estrutura do universo
conhecido. Por outro lado, a dinâmica de populações omite as variações
devidas à evolução do comportamento das espécies, das quais o gênero Homo
faz parte.
Segundo
MARGALEF, 1986 (citado por IGLÉSIAS,1995), nos últimos cem milhões de anos,
apesar da impressionante dinâmica de criação e extinção de espécies, a
biosfera manteve-se praticamente constante no que se refere à produção
primária (P) e à biomassa (B), isto é a relação P/B permaneceu praticamente
constante. Produção primária é o produto líquido da energia solar absorvida
pelos vegetais e algas pelo processo fotossintético. Ocorre, que apenas nos
últimos 150 anos, o homem com seu rápido estilo de desenvolvimento, promoveu
alterações de peso na composição térmica da biosfera.
No
início da revolução industrial ninguém supunha que o uso de combustíveis
fósseis levaria a uma mudança climática.
O Consumo Insustentável
A
maneira como são expressas as atividades humanas atuais parece traduzir que sua
evolução dirige-se a qualquer custo para a satisfação das necessidades
materiais.
Homo
sapiens sapiens aninha-se em cidades. O atual imóvel urbano oferece ao
indivíduo a máxima liberação do ambiente. Suas necessidades em matéria de
luz, calor, umidade, distração, comércio, informação, assim como sua
exigência intelectual ou religiosa, podem ser satisfeitas num espaço restrito
e na maioria das vezes por elementos artificiais que nada tem a ver com o meio
local.
O
homem urbanizado escolhe objetos e atividades que constituirão seu mundo real.
Isso implica, de fato, dispor de uma vasta gama de recursos do mundo inteiro,
que consomem uma energia brutal para seu simples transporte. A diversidade de
materiais, mormente ao comportamento humano, dispende quantidades de energia
cada vez maiores, indo desde os processos geológico e biológico de acúmulo
dos recursos, passando por inúmeras transformações até a utilização dos
objetos necessários ao conforto. Em outras palavras, a minúscula célula que
é um gabinete de uma empresa no centro do ecossistema infinitamente complexo,
qual seja a cidade de Londres, por exemplo, constitui a resultante
caleidoscópica de enorme variedade de recursos.
Além
da diversidade de materiais constante no ambiente urbano sua expansão e
transporte normalmente obedecem a padrões distintos conforme a diversidade e o
comportamento social de seus agrupamentos humanos. A periferia de uma grande
metrópole, como São Paulo por exemplo, tende a obedecer a padrões
comportamentais em relação ao ambiente completamente diferente das localidades
centrais. Conforme a cidade expande-se, ocorre a preparação do ambiente rural
para tornar-se ambiente periférico, onde seus moradores dependerão de
distâncias maiores para o trabalho, convivência com infra-estrutura desigual,
além de condições ambientais distintas. No entanto há um fator comum: o
consumo de energia.
O
modelo de expansão, arquetipado pela revolução industrial levou ao acréscimo
do consumo e do uso de energia, desencadeado pela descoberta de elementos
fósseis tais como o petróleo, o gás natural e o carvão mineral e a
conseqüente liberação adicional de gases-estufa na atmosfera. Cabe então a
seguinte questão: qual é a energia necessária dentro de um modelo consumista?
Resposta: cada vez maior e mais rapidamente assimilável para garantir o lucro.
Tempo é dinheiro! Esta é a máxima do capitalismo desenfreado. A contrapartida
em biomassa é limitada e nossa biosfera também. Assim, o modelo atual
apresenta-se como insustentável, ao necessitar sempre de expansão.
O Uso da Energia Nuclear e o aquecimento da Terra
O
Ecossistema Terra atual recebe energia proveniente do Sol e das chamadas ilhas
de sintropia – ou das fontes não renováveis tais como o petróleo e o
carvão mineral. Com este quantun de energia, todos os subsistemas ecológicos e
econômicos são movidos mais rapidamente. O excedente, convertido em calor é
despejado na atmosfera, daí é dissipado para o cosmo via ondas térmicas na
alta atmosfera.
O
efeito estufa é natural e necessário à estabilidade da biosfera enquanto se
constitui de uma barreira natural responsável por manter uma certa quantidade
de calor durante um determinado intervalo de tempo para movimentação dos
sistemas naturais até que este seja finalmente dissipado.
Até
meados do século XVIII, os únicos excedentes calóricos despejados na biosfera
decorriam da queima de biomassa (lenha e incêndios florestais), da energia
magmática do interior terrestre (vulcões), ou mais raramente pelo impacto de
corpos celestes como o que aniquilou com os dinossauros há 65 milhões de anos.
Para
todos os efeitos relacionados ao aquecimento terrestre, o uso da energia nuclear
por fissão ou fusão apresenta como principal inconveniente o fato de se
constituir em uma fonte adicional de calor não renovável, extraída das
entranhas da matéria.
Extrair
energia do núcleo do átomo é o mesmo que queimar combustíveis fósseis em
termos quantitativos de consumo de calor e energia, ou parafraseando Gaia - é
transpirar mais gás carbono indiretamente para a atmosfera via consumo de
energia elétrica, com o grande inconveniente de produzir lixo que demanda longo
período para ser neutralizado.
Conviver
com mais energia no sistema Terra, necessariamente significa que para sua
estabilidade teríamos de contar com mais biomassa que assegurasse uma ciclagem
natural não repentina desse excedente. No entanto o que verificamos é que a
energia excedente vem acompanhada pelo excesso de consumo em mais de 20 porcento
da capacidade planetária, conforme dados do WRI (2003).
Independente
dos inconvenientes do lixo nuclear, dos acidentes em usinas e do pressuposto
potencial bélico, o acréscimo de biomassa não é gerado a partir da energia
nuclear - é realizado pelo processo natural da fotossíntese – ou seja,
dependemos dos vegetais em crescimento que é justamente quando absorvem a
energia solar e convertem-na em biomassa. Entretanto, há um limite máximo de
absorção da energia e de gás carbônico por plantações, algas marinhas e
florestas. Estudos recentes realizados no continente australiano (Berry,
Roderick, 2002), com base em dados de satélites climáticos, apontam que há um
limite de rendimento de absorção dos vegetais para a concentração de gás
carbônico presente na atmosfera. Ultrapassado este limite, as plantas
terrestres em depressão passariam a absorver menos gás carbônico e assim
converter conseqüentemente menos energia luminosa em biomassa. A saída estaria
então no também limitado uso de reflorestamento avançando sobre maior área
do interior dos continentes ou, no florestamento de algas em áreas
(superfície) oceânicas. No entanto, áreas disponíveis para este suposto
florestamento estão sendo destinadas a qualquer custo para a agricultura e
florestas tropicais vem sendo sistematicamente destruídas pelo avanço do
cultivo de cereais e para a pecuária com a finalidade de alimentar o ser
humano.
Até
o momento, o homem somente promoveu desestabilização climática, seja por sua
expansão qualitativa ou quantitativa. Nosso corpo consome energia absorvida do
Sol pelos alimentos e dissipa calor. Nossas indústrias automatizadas,
certificadas ou não, dissipam calor. Todos os aparelhos eletro-eletrônicos que
utilizamos consomem energia elétrica e no final dissipam calor, desde sua
manufatura até o seu uso. Veículos a combustão interna dissipam calor
proveniente da queima de combustíveis fósseis e ainda por cima liberam gás
carbonico que vai assim aumentar a concentração na atmosfera e barrar o calor
por mais tempo.
O
ciclo térmico terrestre está alterado: quanto mais calor – mais movimento
– mais reprodução – mais consumo – maior seletividade e extinção de
espécies e de ambientes - maior degradação – mais calor erodido para a
atmosfera.
Na
prática, o pior tipo de poluição é a poluição térmica, por desestabilizar
praticamente todos os ecossistemas através da alteração climática gerada
pela demanda extra de calor.
É
falsa portanto, a afirmação de que a energia nuclear pode ser alternativa ao
controle climático e é, na verdade, um grave erro considerar o gás carbônico
como o único vilão do aquecimento planetário e de sua alteração climática.
É
certo que somos dependentes dos combustíveis fósseis principalmente para o
transporte, no entanto devemos dar preferência e exigir sistemas limpos
urgentemente, tais como as células de combustível e o ar comprimido para
movimentação de automóveis, bem como manter o hábito saudável do ciclismo e
da caminhada. Ao utilizarmos as chamadas "energias alternativas" como
a eólica, das marés ou do sol, estamos amenizando o planeta e evitando o
acréscimo de energia. Mais: ao depararmos que o nosso consumo é quem está
produzindo efeito estufa, então estaremos aptos e conscientes de que é preciso
praticar o consumo responsável, sustentável e até pró-ativo se necessário.
Aliás, quando os rótulos dos produtos apresentarem o valor da energia
dispensada para a sua produção e a origem desta energia, teremos como avaliar
nossa decisão de consumo.
Quanto
ao controle da concentração de gás carbônico, pensa-se atualmente em
capturá-lo na atmosfera. Não se pensa em proibir sua emissão como vem
ocorrendo com os gases destruidores da camada de ozônio, nem se pensa em parar
por completo o uso de combustíveis fósseis. Acontece que o efeito estufa gera
mais efeito estufa – como peças de dominó emparelhadas formando uma extensa
linha e prestes a cair ao simples impulso na primeira peça - : se os oceanos
elevarem-se devido ao derretimento de geleiras e calotas polares, biomas como a
Amazônia que regulam o fluxo de calor da Terra deixarão de existir. Fenômenos
climáticos tais como tempestades, furacões, secas, expansão dos desertos,
ondas de calor e de frio, extinção e mutações indesejáveis de espécies,
entre outros conduzirão à escassez de alimentos e à guerras, sempre levando
no final a mais efeito estufa, de maior intensidade até se tornar
insuportável. Isto custará um preço elevado e supostamente impagável à
humanidade – até dar cabo de todo tipo de capacidade suporte dos ecossistemas
naturais ou artificiais e aí só nos resta, se possível, a adaptação com
infinitamente menos conforto ou muito mais provavelmente a extinção. Somos
responsáveis pela sucessão ecológica atual.
Certamente
o terrorismo não é a maior ameaça mas a conseqüência direta da maneira como
tratamos o ambiente e nossos semelhantes. O nosso tempo é muito pequeno em
relação à dimensão temporal das mudanças que estão vindo à tona e não é
esta a sucessão ecológica que queremos para nós e para a Terra. A pressa para
vislumbrar mudanças que de fato são emergenciais deve ter levado o Senhor
Lovelock a emitir tal artigo. Portanto, notícias seguramente verdadeiras, temos
do ambiente em que vivemos, basta abrir a janela todas as manhãs e deixar o sol
e a brisa entrar.