Entrevista Clara Brandão: Painelista do Fórum do Acúcar, dia 01/08/03, em Porto Alegre
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Brasília, 18/07/2003
Tatiana Wittmann

Há mais de vinte anos, a proposta da alimentação alternativa vem sendo utilizada, entre outras experiências, pela Pastoral da Criança. Criada para combater a desnutrição, ela é baseada no aproveitamento de vários alimentos de alto valor nutricional e na utilização de alimentos, ou parte deles, que costumam ser desperdiçados. A alimentação alternativa tem alcançado ótimos resultados motivando a ingestão de alimentos de baixo custo, com paladar adaptado às diferentes regiões do Brasil e preparo rápido.

Uma das criadoras deste tipo de alimentação é a pediatra e nutróloga Clara Takaki Brandão, que atualmente é gerente de equipe do Ministério da Saúde. Clara Brandão trabalha no Programa de Orientação Alimentar e Nutricional do Ministério, que visa utilizar recursos locais e acessíveis a todos, independentemente de condições sócio-econômicas, para estimular a adoção de hábitos e estilos de vida saudáveis e contribuir para reduzir a fome revertendo a carência nutricional e outros distúrbios. Além disso, o programa do Ministério também incentiva a comunidade a adotar formas de complementação alimentar com produtos regionais de alto valor nutritivo e de baixo custo. Nesta entrevista, exclusiva ao Cidadania-e, Clara Brandão explica o que é a alimentação alternativa, o conceito de multimistura e como ela pode combater a desnutrição e a fome no Brasil.

Cidadania-e - Quando e como você se envolveu no estudo da alimentação alternativa?
Clara Brandão - Surgiu em função da minha mudança para o Pará, nos anos 70. A região vivia um período de seca intensa e tinha altos índices de desnutrição. Não existia nenhum atendimento no sentido de mudar aquela realidade. Em função da miséria extrema, eu e meu marido (Rubens Brandão) decidimos fazer um levantamento do que poderia ser adotado para mudar aquela realidade. Começamos a perceber que existiam várias alimentos, com altos índices nutritivos, que eram desperdiçados ou usados apenas em datas festivas. As pessoas não davam valor, por exemplo, ao piracuí - uma farinha de peixe rica em proteínas, vitaminas e carboidratos. Já a taruba, que tem alto valor nutritivo, era bebida somente nas festas de São João.

Passamos a falar para as pessoas do valor destes alimentos e que eles poderiam ser consumidos durante todo o ano. Começamos a fazer adaptações, como a feijoada de folha de mandioca. E, aos poucos, fomos mudando um hábito cultural, que também passou a gerar trabalho, renda e cidadania.

Cidadania-e - Qual é a base da alimentação alternativa e como ela pode combater a desnutrição?
Clara Brandão - A base da alimentação alternativa é o conceito de multimistura, que prega que é a variedade que dá a qualidade da alimentação. Quanto maior o número de alimentos diferentes ingeridos pelas pessoas, melhor. Usamos, por exemplo, todas as partes das verduras. Incluímos no cardápio partes e alimentos que costumam ser descartados.

Começamos nossos estudos desenvolvendo técnicas de utilização de farelos com o aproveitamento da alimentação local. Crianças desnutridas começaram a tomar mamadeira com diversos nutrientes, como leite, farelo de arroz ou de trigo, fubá, farinha de mandioca, pó da folha do aipim e pó da casca do ovo. Em pouco tempo engordavam, ficavam com cabelo e pele melhores. As creches ligadas à LBA (Legião Brasileira de Assistência) e à Pastoral da Criança começaram a usar esse sistema pelo Brasil inteiro e alcançaram resultados impressionantes nos últimos 20 anos. Em três dias, a multimistura é capaz de acabar com a diarréia e fazer com que a criança desnutrida comece a ficar mais saudável e ganhar peso, pois ajuda na absorção de proteína.

Há pouco tempo estive em Fortaleza, no Ceará, para assistir a apresentação dos resultados do programa de orientação alimentar de lá. Com a alimentação alternativa, em 10 anos eles eliminaram a desnutrição. A multimistura tem um efeito impressionante. Ao mesmo tempo em que repõe os minerais, ela neutraliza os metais pesados.

Cidadania-e - A multimistura é um método acessível? Que doenças ela ajuda a prevenir e tratar?
Clara Brandão - A multimistura só funciona porque é baseada nos conceitos de sustentabilidade e nutrição. É um método super acessível, pois utiliza os alimentos disponíveis na região. Hoje a multimistura está presente em 14 países, onde tem alcançado ótimos resultados. O que importa na utilização deste método é a informação e não o dinheiro.

O uso de concentrados de minerais e vitaminas, composto por farelos de arroz e/ou trigo, pó de folhas verdes, de sementes e de casca de ovo, em pequenas doses no cardápio tradicional, é capaz de recuperar casos graves de desnutrição, prevenir anemias, acabar com a diarréia, aumentar a resistência a infecções, e até diminui doenças respiratórias e casos de cáries dentárias. Ela melhora a saúde como um todo, dá mais disposição para o trabalho, elimina dores e câimbras e melhora a pele.

Cidadania-e - De que forma é possível fazer estas receitas mais conhecidas?
Clara Brandão - A melhor forma é o boca-a-boca. As pessoas que fazem uso da multimistura acabam contando para os outros e assim por diante. Em 1996 a Fundação Banco do Brasil publicou uma das edições do livro Alimentação Alternativa, do qual sou autora. Naquela ocasião, a Fundação distribuiu 283 mil exemplares gratuitamente para instituições que trabalham com diferentes públicos, de diversas faixas etárias.

Meu trabalho tem duas vertentes. Por um lado trabalhamos a origem fetal da desnutrição, onde observamos os efeitos na saúde das crianças que nascem de mães desnutridas, como problemas de diabetes e doenças do coração. Por outro trabalhamos na promoção da saúde, no consumo dos alimentos inteligentes, que podem ter todas as suas partes consumidas. Hoje é comum se viver mais de 50 anos e, por isso, é preciso se ter hábitos saudáveis.

Cidadania-e - O que leva o brasileiro a comer mal? É a falta de conhecimento, de renda ou de oferta de alimento?
Clara Brandão - É uma questão de hábito e de falta de conhecimento. Nos últimos 10 anos aumentou, e muito, o número de supermercados. As pessoas migraram do campo para a cidade e passaram a se alimentar de muitos alimentos industrializados e poucas verduras e frutas. Há poucos anos nós tínhamos uma pessoa obesa para cada três desnutridas, hoje temos um desnutrido para cada dois obesos. As pessoas passaram a comer mais na rua e lanchar no escritório ao invés de sentar numa mesa para almoçar. As pessoas não sabem o que estão ingerindo.

Cidadania-e - De que forma a alimentação alternativa pode ajudar no combate à fome?
Clara Brandão - A alimentação alternativa evita o desperdício, aproveitando ao máximo os resíduos dos alimentos. Usamos as partes não convencionais dos alimentos, pois cada parte do alimento tem um nutriente. Muitos alimentos têm sua melhor parte - seja folha, caule, ou outra - jogados fora. A folha de mandioca, por exemplo, é riquíssima em nutrientes.

Com a alimentação alternativa se aprende a comer o melhor, a evitar produtos com agrotóxicos. Incentivamos a produção de muros vivos, hortas perenes e plantio de vegetais como o chuchu. Comer folhas, semente e casca do que é plantado em casa. Todos têm direito à alimentação saudável!

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