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| 'Aproveitar
não só os momentos bons como os ruins que a
vida nos dá', Johnny
Bozza, 20, estudante de administração |
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Sem medo de ser
piegas, a campanha de Lula à Presidência explorou o desejo
comum de ser feliz, pretensão maior e mais óbvia de qualquer
um. Com a vitória, entram em pauta o otimismo e os alertas para
o risco de frustração coletiva. Suponha que as promessas
feitas sejam realizáveis e que, em quatro anos, o crescimento
do país dê um salto: qual será o efeito disso sobre a
'felicidade interna bruta'?Pesquisas cruzando a performance
econômica dos países e os sentimentos dos seus habitantes
mostram que a "felicidade objetiva" (medida em
índices de nutrição, saúde, renda per capita, educação
etc.) tem impacto muito fraco sobre a felicidade ligada à
percepção interna, ao julgamento que a pessoa faz de própria
vida (imensurável). Em países muito pobres, o crescimento
econômico melhora essa percepção, mas, nos lugares com nível
de renda em torno de US$ 10 mil anuais per capita, mais dinheiro
não traz estados mentais e emocionais mais agradáveis. No
Brasil, onde a renda é bem mais baixa que esse valor, a melhora
da situação econômica teria, em tese, algum impacto sobre a
felicidade objetiva da população. Os depoimentos das pessoas
que aparecem na reportagem, no entantol, não mencionam
dinheiro.
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| 'É
fazer realmente o que eu quero da vida',
Fábio Makhoul, 37, advogado |
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Ainda que exista
maior proporção de pessoas que se consideram felizes entre os
mais ricos, o aumento da renda pessoal só afeta a experiência
interna dos que estão nas faixas sociais baixas. A conclusão
reforça o que o bom senso popular vive repetindo: dinheiro não
traz felicidade para quem já tem dinheiro suficiente.A
relação entre indicadores objetivos de bem-estar e
satisfação subjetiva é uma das preocupações do livro
"Felicidade", de Eduardo Giannetti, recém-lançado
(leia resenha à página 15). Inspirado na prática dos
pensadores dos séculos 17 e 18, o economista adota o formato de
diálogo para investigar "o que deu errado" no projeto
iluminista. A pergunta é: por que os avanços científicos,
materiais e tecnológicos dos últimos dois séculos não
resultaram em aumento de realização existencial humana?
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| 'Felicidade
é ver todo mundo de bem com a vida',
Cristina S. da Paixão, 25, doceira |
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O pensamento
majoritário europeu da chamada era da razão apostava na
dominação da natureza para alcançar bem-estar. Os iluministas
imaginaram não o conflito, mas o elo direto entre progresso e
felicidade. O livro analisa os custos do processo civilizatório,
entre eles a constante ameaça de desastre ecológico e uma
espécie de crise de "ecologia psíquica", ou seja, a
perda da vitalidade instintiva, da alegria espontânea de
existir. Embora seja uma discussão filosófica que não desce a
aspectos conjunturais, "Felicidade" esconde uma
mensagem otimista para o Brasil, segundo o autor. Já que ricos
fracassaram na conquista de bem-estar, os países pobres
poderiam evitar a cópia dos projetos de desenvolvimento
pautados só na exploração radical da natureza e no ganho
econômico.
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| 'É
ajudar a humanidade a crescer',
Silvio Batusanschi, 55, sociólogo |
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"Cada
cultura incorpora um sonho de felicidade. Se o Lula puder
atender de forma responsável a demandas sociais como
educação, saneamento, saúde etc., é possível que o Brasil,
com sua herança pré-moderna de passado indígena e influência
africana, encontre um caminho próprio, que preserve a
exuberância, a subjetividade, a alegria", afirma Giannetti.
Só que, enquanto o país não resolver a base da vida material,
ficará escravizado a esses valores econômicos.A dimensão
econômica de busca de bem-estar prende as pessoas a um círculo
chamado no livro de "corrida armamentista do consumo".
Em vez de colher os frutos espirituais de suas conquistas
materiais, o sujeito que já tem o necessário passa a se
preocupar com a sua renda relativa e a se comparar aos outros. O
poder do dinheiro não está mais ligado ao conforto que traz,
mas à falta relativa de dinheiro no bolso dos outros.
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| 'Meus
filhos. Minha mãe. Felicidade é viver',
Cristiane Resende, 33, jardineira |
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É evidente que
os holofotes da mídia sobre os mais afortunados estimulam a
neurose comparativa e amplificam as aspirações ilusórias. Os
mecanismos da publicidade, em particular, acabam
responsabilizados por todo esse processo, mas o publicitário
Ricardo Guimarães, presidente da Thymus Branding, lembra que a
publicidade é só um alto-falante dos desejos em voga:
"Ela bebe nas pesquisas de mercado, reflete os valores das
pessoas. É conservadora, não é ética em si e não cria nada,
não tem papel nem intenção de transformação. Pode até
acelerar alguns processos, torná-los crônicos, mas o que pode
mesmo é fazer a sociedade se enfrentar nos seus desejos, nobres
ou não".
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| 'É
estar com a minha esposa e meu cachorro em um
dia bonito no parque',
Gustavo Tramula, 29, contabilista |
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Guimarães acha,
entretanto, que é "mais honesto oferecer um cabelo bonito
que oferecer felicidade nesse cabelo". Conhecido por usar
mulheres reais em campanhas de cosméticos, no lugar dos usuais
modelos de beleza inatingível, ele conta que o grande desafio
para quebrar esse tabu foi reverter o desejo de ilusão das
consumidoras. "O anunciante e a agência não queriam
enganar ninguém, mas a consumidora, no início das pesquisas,
não queria enfrentar a verdade de que um cosmético não traz
aparência de 20 anos."
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| 'Felicidade
é poder ser autêntica',
Ana Julia Oliveira, 21, estudante |
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Comerciais
infantilizam consumidores, mas alguns já atendem às cobranças
crescentes por uma posição social mais responsável das
empresas. Segundo Guimarães, a atual velocidade das
informações torna a vida mais complicada para quem pretende
explorar a desinformação e a manipulação. É como se a
sociedade em tempo real exigisse também o "valor
real" das coisas: "Transparência é a característica
do novo cenário. A imagem do produto ou da empresa tem de estar
muito próxima da sua verdadeira identidade". Mas o
publicitário reforça que, enquanto a sociedade achar que
felicidade é um carro zero, o anúncio vai espelhar isso.
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| 'É
estar bem comigo mesma',
Vanessa Queiroz, 26, designer |
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A competição
por bens posicionais —aqueles que posicionam o consumidor na
sociedade— traz frustração permanente, explica o livro de
Giannetti: "Os apetites se estendem ao infinito e a
escassez está sendo sempre recriada. A moeda escassa nesse jogo
de soma zero é a atenção respeitosa, a disposição
favorável e o afeto alheios". É o que o filósofo alemão
Hegel (1770-1831) chamou de "desejo de
reconhecimento". A vontade de possuir coisas não vem mais
do prazer e do conforto que proporcionam, mas da necessidade de
ser amado, respeitado e reconhecido pelos outros como alguém
que tem valor —um valor emprestado do objeto.
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| 'É
poder estar no parque. É andar de bicicleta',
Walnei de Camargo, 40, aposentado |
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Esse e outros
mecanismos dos desejos de consumo são analisados também no
livro "A Filosofia e a Felicidade" (Martins Fontes,
274 págs., R$ 25,40), do filósofo francês Philippe van den
Bosch. Em um passeio didático pelas correntes de pensamento,
ele tenta responder à pergunta "como viver para ser
feliz?".Desejar menos e gastar menos é a resposta de um
público crescente, interessado em uma vida mais satisfatória,
distante da corrida atrás de status mas também daquele retiro
romântico em comunidades. Nessa alternativa à roda do
trabalhar-consumir, são eliminados os excessos de posses e
atividades que produzam cansaço extremo ou sejam incompatíveis
com valores ecológicos e éticos.
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| 'Ter
um mundo melhor, com menos poluição, menos
violência, mais árvores...',
Natanael Barbosa dos Santos, 11, estudante |
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O livro "Choosing
Simplicity" ("Escolhendo Simplicidade", www.simpleliving.net/resources)
mostra o que pensam e como vivem esses pós-yuppies
minimalistas, muitos deles instalados em metrópoles. Baseado
num estudo de três anos (de 1995 a 97) envolvendo 211 pessoas
de 40 Estados norte-americanos e oito países, o livro apresenta
uma diversidade de soluções que simplificaram as vidas de
pessoas de diferentes níveis sociais e ocupações. A autora do
livro e da pesquisa, Linda Breen Pierce, é uma advogada
americana que trocou dez anos de carreira pela teoria e a
prática da vida simples.
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| 'Feclicidade
envolve paz, amor, harmonia e festas',
Dione Lima, 33, agente de reservas |
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Militante do
movimento "Simplicidade Voluntária", Pierce declara
que a rejeição ao prestígio social e ao acúmulo material
como objetivos máximos da vida vem crescendo nos Estados
Unidos. "Depois dos eventos trágicos de 11 de setembro,
houve um notável aumento nos acessos aos sites dos movimentos e
um crescimento generalizado do interesse pelo assunto. O choque
leva as pessoas a reavaliar suas vidas e a perceber que
importante não é a fortuna, o poder e o status, mas os
relacionamentos, os laços comunitários, o significado e o
propósito da vida."
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| 'É
saber viver o seu dia. É ser legal com os
outros e fazer as pessoas rirem',
Thaisa Rodrigues Tarante, 16, estudante |
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Não é fácil
chegar à simplicidade: "Somos programados a querer sempre
mais, trabalhamos em ocupações estressantes e nos voltamos às
coisas materiais para compensar o estresse e a insatisfação
com nossas vidas. É um ciclo difícil de ser quebrado",
diz Linda Pierce, e manda o recado: "Fico triste ao pensar
que tantas outras pessoas em outros países aspiram viver no
chamado sonho americano. Se simplesmente soubessem como é
insatisfatório trabalhar e consumir, neglicenciando os aspectos
mais emocionantes da vida...".
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| 'Sol,
luz, mar, bebês e chachorros',
Thatiana Sé Barbosa, 25, advogada |
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Esse
"novo" estilo de vida, que valoriza as coisas fáceis
de obter, como a alimentação frugal, lembra muito as idéias
do filósofo grego Epicuro (341-279 a.C.) , segundo o qual o
controle dos desejos supérfluos é essencial à felicidade. Sua
"Carta Sobre a Felicidade" (Editora Unesp, 51 págs.,
R$ 5) pode ser uma leitura inspiradora, nesta fase de
esperanças inflacionadas.Felicidade é o inverso de
expectativa, para a analista junguiana Denise Ramos, que estuda
o bom humor e coordena o curso de pós-graduação em psicologia
clínica da PUC-SP. "É fundamental planejar coisas boas
para a vida, mas as esperanças trabalham contra", diz.
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| 'Felicidade
não é algo contínuo, são momentos felizes',
Thomas Mielenhausen, 58, engenheiro |
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Na visão do
francês André Comte-Sponville, representante dos novos
filósofos bastante influenciado por tradições orientais como
hinduísmo e budismo, a esperança é a pior forma de
ignorância, e a felicidade está na sabedoria de não esperar
nada. Quem quiser conhecer "o caminho do desespero"
que ele propõe para a busca da felicidade deve ler "A
Felicidade, Desesperadamente" (Martins Fontes, 140 págs.,
R$ 13,50), que reproduz uma palestra a um público leigo.Na tese
de Comte-Sponville, a palavra desespero é usada num sentido
diferente do habitual. Não significa sofrimento ou
infelicidade, mas designa simplesmente ausência de esperança.
"Esperar é um desejo que se refere ao que não temos, que
ignoramos se foi ou será satisfeito, cuja satisfação não
depende de nós: esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem
poder", define.
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| 'É
passear no Shopping Interlagos e ir ao cinema',
Kelly de Sousa, 18, estudante |
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Parece sombrio,
mas é nada perto de "A Arte de Ser Feliz" (Martins
Fontes, 138 págs., R$ 12,50), um conjunto de máximas do
alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), considerado um
representante da corrente pessimista. Apesar do título, o texto
contido nesse livrinho oferece esforços para que o homem
alcance apenas um estado relativamente menos doloroso, já que
felicidade completa e positiva é impossível, para o filósofo:
"Todos viemos ao mundo cheios de pretensões de felicidade
e prazer, e conservamos a insensata esperança de fazê-las
valer, até que o destino nos aferra bruscamente e nos mostra
que nada é nosso, mas tudo é dele".A idéia da felicidade
é desesperadora também para o escritor francês Pascal
Bruckner, mas não no sentido neutro de Comte-Sponville. Em
"A Euforia Perpétua" (Difel Brasil, 240 págs., R$
34), o ensaísta disserta sobre a "obrigação de ser
feliz" na atual sociedade hedonista. Bruckner sustenta que
o bem-estar foi transformado em signo de status e que as pessoas
tentam comprar a fugaz felicidade como se fosse ela um imóvel.
Conforme esse raciocínio, a busca obsessiva de um objeto
efêmero funciona como fonte de angústia, fazendo o homem
sofrer duplamente: por ser da sua condição e por não poder
sofrer. "Felicidade é uma palavra velha, prostituída,
adulterada, tão envenenada que gostaríamos de bani-la de todas
as línguas", escreve Bruckner. Seu livro mostra como o
direito à felicidade, palavra de ordem emancipadora do
iluminismo, acabou sendo tomado como dever e dogma. No
prefácio, o autor se justifica: "Não se trata de ser
contra a felicidade, mas, sim, contra a transformação desse
sentimento frágil em verdadeiro entorpecente coletivo ao qual
todos devem se entregar, em suas modalidades químicas,
espirituais, psicológicas, informáticas, religiosas".
Mesmo sendo muito mais otimista em relação aos ganhos de
bem-estar na sociedade moderna, o médico e psicoterapeuta João
Augusto Figueiró, do Hospital das Clínicas de São Paulo,
concorda que a pressão social pela euforia vem distorcendo a
busca de felicidade: "A cultura narcísica impõe a
ostentação carnavalesca e histérica da alegria, mesmo que
falsa. Não estar feliz é o fim. É preciso ser não apenas
rico mas também jovem e feliz o tempo inteiro. Daí o grande
mercado da auto-ajuda, das drogas, cirurgias plásticas e
academias", diz.
O que alimenta essa indústria é a noção equivocada de
felicidade como "coleção de momentos de prazer", na
avaliação do psiquiatra brasileiro Roberto Shinyashiki,
segundo quem o erro não está em querer ser feliz, mas em
tentar no lugar errado e de maneira massificada. "O
principal é encontrar o seu eu interior e achar o sentido da
vida —seja ganhar rios de dinheiro ou trabalhar no terceiro
setor, não importa", diz ele, autor do best-seller "O
Sucesso É Ser Feliz". É um livro de auto-ajuda, sim, e
Shinyashiki não vê problema nisso, já que "Dalai Lama
também entra no rótulo e até Freud e Jung foram campeões de
vendas". Auto-ajuda, diz o psiquiatra, só é problema
quando padroniza respostas e conceitos como felicidade ou
sucesso. "Aí, mais atrapalha do que convida à
reflexão."
O conceito de felicidade sofreu uma "medicalização",
conforme o psicoterapeuta Figueiró. A preocupação com o corpo
perfeito e a alimentação ideal toma o lugar de qualquer
reflexão mais ampla sobre bem-estar. "A composição dessa
sensação é multideterminada, envolve desde a
auto-responsabilidade no condicionamento físico até a
quantidade de área verde e o sistema político de onde a pessoa
vive", afirma.
Não é à toa que se confunde felicidade com saúde. Os
primeiros programas de promoção de bem-estar chegaram às
empresas brasileiras nos anos 80, por meio da medicina
ocupacional e com o objetivo de reverter as perdas de
produtividade e os custos com doenças de funcionários. O
conceito evolui devagar no sentido de envolver outras áreas,
que não a médica, e outros funcionários, que não os mais bem
posicionados na hierarquia das corporações.
Figueiró aposta que a globalização fará chegar ao Brasil
campanhas pró-bem-estar cada vez mais sofisticadas no formato e
no alcance, custeadas por companhias de seguros e empresas
multinacionais. Tudo para quem tem emprego, claro.
"Escreve-se muito pouco hoje sobre a promoção da
felicidade. Há um preconceito, como se fosse um assunto piegas
e de pouco valor para o estudo científico. Faltam líderes
naturais para a questão: há alguns na área religiosa, mas
ninguém no campo pragmático", diz.
Não há mesmo chance de surgir um ministério da felicidade.O
objeto preferido da tradição filosófica é impreciso e se
rebela contra tentativas de sistematização. Santo Agostinho
(354-430) deu-se ao trabalho de contar 289 opiniões diferentes
sobre o assunto; o século 18 dedicou uns 50 tratados ao tema.
"Felicidade é assunto sobre o qual todo ser humano é
especialista e ninguém é especialista, tal a complexidade e
interdisiciplinaridade que envolve", diz o economista
Eduardo Giannetti. Por isso, no seu livro, a troca de idéias
entre amigos de perfis distintos é o pretexto para uma
discussão em que as vozes se alternam, sem que uma verdade se
imponha. Como Epicuro, Giannetti considera a amizade superior ao
amor e vê no diálogo filosófico entre amigos "uma boa
modalidade de felicidade".
Colaborou Camila Prado
Heloísa Helvécia
Jornalista
hhelvecia@uol.com.br
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