Final
dos Tempos
Início de Outro Tempo
Silêncio
de Ensurdecer.
A mídia custa a dar voz ao debate científico sobre o aquecimento global.
A
repercussão internacional da matéria publicada pela revista britânica The
Observer, no domingo 22 de fevereiro, embute uma omissão, como notou o escritor
e jornalista australiano Tom Engelhardt em seu blog Tom Dispatch. Mas a forma
como isso passou despercebido da maioria dos leitores e comentadores revela um
problema quase tão grave quanto o do próprio aquecimento global.
A matéria não forneceu informações falsas, nem sequer exageradas. Mas dava a
entender ser um furo mundial sobre um assunto, até então, mantido em segredo.
Não foi bem assim: em 9 de fevereiro, na revista norte-americana Fortune, as
mesmas informações, com mais detalhes técnicos, haviam sido publicadas sob o
título de Climate Collapse, The Pentagon’s Weather Nigthmare (Colapso
Climático, o Pesadelo do Pentágono) e reproduzidas por mídias independentes.
Você pode lê-la, por exemplo, no site ambientalista http://sierratimes.com/04/02/09/ar_weather.htm
ou em http://www.independent-media.tv
A falta de atenção para essa primeira matéria –
a ponto de poder ter sido relançada duas semanas depois como furo de
ressonância mundial – é, por si mesma, uma história muito reveladora sobre
os pontos cegos, cada vez mais vastos da imprensa, principalmente, mas não só
a norte-americana.
A maior precisão científica do artigo de David Stipp na Fortune tornava-o até
mais assustador que o da Observer para quem o soubesse ler. Que o mundo está a
caminho de virar um inferno em razão das mudanças climáticas, há muito tempo
deixou de ser novidade, mas se “há poucos anos tais mudanças pareciam ser
sinais de possíveis problemas para nossos filhos e netos, hoje anunciam um
cataclismo que pode não esperar, convenientemente, que já tenhamos passado à
história”.
O estudo do Pentágono trabalhou com a possibilidade bem real de estarmos muito
perto de um limiar crítico a partir do qual o clima pode virar repentinamente,
em menos de uma década – “como uma canoa que se inclina pouco a pouco até
emborcar de repente”, escreveu Stipp.
A hipótese de trabalho – que deve ser entendida como um cenário plausível,
não como uma projeção – é que essa virada aconteceria entre 2010 e 2020.
Seria resultado do derretimento, já visível, das geleiras do Ártico. A água
doce assim libertada,juntamente com a chuva intensificada pelo aquecimento
global, vai se misturar à Corrente do Golfo e reduzir sua salinidade e
densidade. A corrente, hoje submarina,seria retida na superfície e perderia seu
ímpeto.
Isso travaria a “correia transportadora” que conduz calor do Caribe para a
Europa Ocidental e a torna muito mais habitável do que paragens igualmente
setentrionais no Canadá, nos EUA e na Rússia (a latitude da Holanda e das
Ilhas Britânicas é comparável à do Labrador canadense e da Kamchatka
siberiana). Icebergs chegariam à costa de Portugal e a Europa congelaria. Em
2020, a temperatura média já teria caído 3 graus na maior parte do
Hemisfério Norte.
Os peixes abandonariam as atuais zonas pesqueiras em busca de águas mais
aprazíveis. Na terra ou no mar, espécies incapazes de migrar se extinguiriam
(9% a 58% de todas as espécies animais hoje existentes, segundo diferentes
hipóteses).
Ao mesmo tempo, a temperatura do resto do mundo subiria e os padrões de chuvas
e secas seriam alterados em várias partes do planeta, provocando estiagens e
inundações, difundindo para outras partes doenças, hoje restritas aos
trópicos, e agravando os conflitos internacionais, principal razão do
interesse do Pentágono no tema.
Suas especulações incluem a invasão da Rússia pelo Japão e países da
Europa Oriental em busca de energia e recursos naturais, a reunificação das
Coréias em uma nova potência capaz de somar a capacidade nuclear do Norte com
a tecnológica do Sul e o rompimento pelos EUA do tratado que garante o fluxo do
rio Colorado para o México, o que condenaria o país vizinho à
desertificação, enquanto seus imigrantes famintos – juntamente com os do
Caribe e da América do Sul – seriam impedidos de entrar na reforçada “fortaleza
América (do Norte)”.
Stipp sugere que 25% da população masculina dos países pobres pode morrer
nesses conflitos. Contou também que a 20th Century Fox lançará em meados do
ano um filme de catástrofe mais ou menos baseado nesse roteiro, chamado The Day
AfterTomorrow, no qual Dennis Quaid interpreta um cientista que salva o mundo
(ou o Hemisfério Norte?) dessa idade do gelo, paradoxalmente, causada pelo
aquecimento global.
Mas na Fortune o teor explosivo do assunto parece ter passado despercebido –
como se Londres e Haia ficassem em outro planeta. Era “só” um “pior
cenário” plausível que o Pentágono gentilmente “concordara em partilhar”
com essa revista de economia e negócios e com os estrategistas das
transnacionais norte-americanas.
Neste caso, parece que o meio matou a mensagem. O resto da mídia global não
tomou conhecimento até a Observer relançar o assunto e politizá-lo como se
deve.
O silêncio não foi rompido nem na quarta-feira 18, quando 60 cientistas
(incluindo 12 premiados com o Nobel, 11 com a National Medal of Science, três
com o prestigiado Prêmio Crafoord, dois ex-assessores presidenciais de ciência
e vários reitores de universidades e presidentes de institutos de pesquisa)
endossaram um relatório da organização liberal União dos Cientistas
Engajados (Union of Concerned Scientists – UCS) que acusa Bush de enganar o
público ao distorcer a ciência de acordo com sua vontade política, assim como
fez com os relatórios da CIA sobre “armas de destruição em massa” do
Iraque.
Trata-se de uma denúncia ampla, que se refere também ao ocultamento pela Casa
Branca de evidências levantadas pela Agência de Proteção Ambiental (EPA)
sobre poluição por mercúrio perto de termoelétricas e produção de
bactérias resistentes a antibióticos pela criação de porcos, a troca de
peritos científicos por representantes de empresas e igrejas em órgãos
consultivos do governo federal, o apagamento e revisão de trechos de
relatórios científicos oficiais, a proibição de divulgar que a ênfase na
abstinência sexual por parte dos programas de “educação sexual” de Bush
fez subir as estatísticas de gravidez adolescente e a ordem da Casa Branca ao
Instituto Nacional do Câncer para este declarar, erradamente, que o aborto
provoca câncer de mama.
Mas a questão mais vital, sem dúvida, era a supressão dos estudos sobre
mudança climática e registros de temperatura do relatório anual da EPA
divulgado em junho de 2003, também ordenada pela Casa Branca, que os substituiu
por um estudo financiado pelo American Petroleum Institute.
Mesmo jornais que aplaudiram a UCS, como The New York Times, não citaram o
estudo do Pentágono. Do outro lado da cerca, os mais imperialistas que o
imperador – como o filósofo Olavo de Carvalho, no site Mídia Sem Máscara
– tentaram desqualificar o posicionamento da organização sobre o aquecimento
global com base em que “as referências a ela, acompanhadas dos respectivos
links, são abundantes nos sites de organizações militantes comunistas,
socialistas e pró-islâmicas”, sem se dar conta de que fontes tão
insuspeitas quanto a Fortune e o Pentágono haviam divulgado cenários muito
mais alarmantes.
Ainda mais assustador é que mesmo depois de publicada a denúncia no Reino
Unido e amplamente comentada na mídia européia, asiática, árabe, israelense,
canadense e brasileira, os principais órgãos da mídia norte-americana
continuaram alheios ao assunto. O New York Times dedicou várias matérias ao
carnaval brasileiro, mas não se referiu ao relatório do Pentágono. Nem o
Washington Post.
Já o jornal conservador Washington Times – que na véspera havia
ridicularizado o ex-candidato democrata Al Gore por tentar ressuscitar a
discussão sobre o Protocolo de Kyoto e fazer dele um tema de campanha – ao
menos acusou o golpe ao publicar um texto do filósofo Sterling Burnett, do
instituto conservador National Center for Policy Analysis.
Burnett citou as divergências ainda numerosas entre climatologistas sobre os
mecanismos exatos desencadeados pelo aquecimento global para classificar como
“ficção científica” a tese da mudança climática, sem se perguntar por
que o Pentágono se dá ao trabalho de analisar estratégias reais para
enfrentar a tal “ficção”.
É como os artigos patrocinados pela indústria do fumo que, até o início dos
anos 90, alegavam que a falta de consenso dos oncologistas em relação aos
mecanismos que levam ao câncer desqualificava como científica a tese de que o
cigarro o causava, ainda que tivesse sido exaustivamente demonstrada por
estatísticas.
Mais tarde, o discurso dessa indústria embarcou na onda do individualismo
neoliberal: passou a defender a responsabilidade e a liberdade pessoal de “optar”
pelo risco de contrair um câncer. Mas no caso do aquecimento global, não há
como optar individualmente, mesmo em tese, por correr ou não o risco de causar
uma catástrofe planetária. Aliás, de acordo com o cenário do Pentágono, os
países mais pobres e menos responsáveis pelas emissões de gás carbônico
serão os primeiros e mais duramente atingidos pela vingança cega da natureza.
Houve quem, ao constatar a indiferença da sociedade civil ante o aquecimento
global e seus efeitos mundialmente catastróficos a longo prazo, lembrasse de
certa experiência científica cruel, mas verdadeira. Uma rã colocada em água
quente salta imediatamente para fora, mas colocada em uma panela de água fria
sobre um fogo que eleve sua temperatura pouco a pouco, a mesma rã nada
tranqüilamente até morrer cozida.
Da mesma forma, a julgar pelas manchetes da imprensa norte-americana, sempre há
mais gente disposta a tomar ou exigir providências em relação aos riscos de
ser vitimado por um criminoso desconhecido, por um terrorista islâmico, pela
queda de um avião, por abelhas africanas e até pelo choque de um asteróide
com a Terra do que a fazer o mesmo contra as conseqüências muito mais vastas e
certas, mas graduais, de seu próprio consumo irracional e supérfluo de
petróleo.
Agora nos é dito, porém, que essas conseqüências talvez nem sejam tão
graduais. Talvez se tornem drásticas, óbvias e praticamente irreversíveis já
nesta década, ou na próxima. Mesmo assim, a mesma imprensa que dá capas e
manchetes a debates sobre os riscos das gorduras hidrogenadas e dos implantes de
silicone continua a tratar essa questão como um debate acadêmico complicado,
abstrato e distante.
Talvez seja mais apropriado atribuir essa relutância a uma propensão a
exagerar problemas que, aparentemente podem ser atribuídos a um “outro” a
ser punido ou uma natureza a ser domesticada, para melhor ocultar aqueles
causados pelo modo de viver, produzir e consumir da mesma sociedade que a
própria mídia não se cansa de exaltar e promover.
Como noticiar – ou simplesmente pensar de dentro do american way of life –
que as emanações dos jipes esportivos que encantam as famílias
norte-americanas podem ser muito mais úteis aos Quatro Cavaleiros do Apocalipse
que todos os terroristas da Al-Qaeda e do Hamas, somados? Que a
desregulamentação e o livre mercado, em vez de levar ao melhor dos mundos
possíveis, podem nos conduzir ao pior desastre da história?
Fez fortuna, em outros tempos, o lema “melhor morto do que vermelho (better
dead than red)”. Agora, parece que mais vale morrer sonhando o american dream
do que abrir mão do exagerado padrão de consumo dos EUA: melhor morto do que
menos rico.
Parece mais fácil ser racional na pobre República das Maldivas, tão pequena
que seus cidadãos brincam que só é preciso encher os tanques de seus carros
uma vez por ano. É formada por pequenos atóis de coral do Oceano Índico
(aquele que abriga a capital tem 500 hectares), com pouco mais de um metro de
altura. As mudanças climáticas já começaram a destruí-los e mesmo uma
pequena elevação do nível do mar os inundaria rapidamente. Seu governo tem
construído diques e quebra-mares para retardar a destruição dos atóis e, em
1997, começou a construir uma ilha artificial chamada Hulhumale, um pouco mais
alta que seu território natural, para abrigar seu povo. É a primeira Arca de
Noé do século XXI.
Seres humanos não são rãs. Distinguem-se de outros animais, entre outras
coisas, pela sua capacidade superior de interpretar indícios, relacionar causas
e efeitos e antecipar os resultados de suas ações. Mas também por sua
capacidade de mentir até para si mesmos – principalmente quando se trata de
políticos e empresários (inclusive de mídia) para os quais o encobrimento da
verdade favorece seus interesses mais óbvios e imediatos.
Isso não diz respeito apenas ao atual governo dos EUA, apesar de seu
engajamento a favor dos interesses do setor petrolífero ter obviamente agravado
a questão: já no tempo de Clinton os democratas hesitavam em defender
abertamente o Protocolo de Kyoto e sua relutância aumentou ainda mais depois
dos efusivos cumprimentos da National Association of Manufacturers (a CNI dos
EUA) e da Câmara do Comércio a Bush por ter defendido o interesse nacional
contra o tratado que limitaria o consumo de combustíveis dos países
industrializados.
Restou nos EUA, porém, uma instância encarregada de pensar o impensável –
as Forças Armadas. Como parece improvável que a Casa Branca decida
privatizá-las, seus cientistas podem acabar como os únicos autorizados a
discutir ecologia sem serem tachados de antiamericanos.
Mas não nos iludamos: ao tratar do assunto, o Pentágono lembra um certo
figurante freqüentemente citado por Luis Fernando Verissimo. Sua participação
na peça seria entrar em cena durante uma bacanal, jogar as mãos para o alto,
escandalizado, e dizer: “Mas isto é Bizâncio!” O ator entrou em cena na
hora certa e disse a fala corretamente. Só que fez isso esfregando as mãos.
Da mesma forma, é difícil não imaginar os generais a esfregar as mãos ao
listar os novos riscos para a segurança nacional e prever a transformação dos
EUA em vasta fortaleza protegida por um arsenal ampliado e modernizado que
proteja seus recursos de serem consumidos por imigrantes famintos empilhados em
precárias jangadas ou pilhados por nações desesperadas, armadas com bombas
atômicas.
A conclusão do relatório do Pentágono, vale notar, é positiva: “Os EUA
sobreviverão sem perdas catastróficas”, ao contrário da maioria das demais
nações do mundo. Se lhes importa mais estar em primeiro lugar do que viver em
um mundo razoavelmente habitável, serão os demais que terão de jogar as mãos
para o alto, se escandalizar e gritar “Mas isto é Bizâncio!” Sem esfregar
as mãos.
Fonte: Revista Carta Capital Por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
Saiba
mais:
http://www.ipetrans.hpg.ig.com.br/IPETRANS-166.htm
http://www.ipetrans.hpg.ig.com.br/IPETRANS-112.htm