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Jornal Valor Econômico - 05/02/03 Fracassomania, fome e boa intenção Doações diminuem. Ou, um dia, acabam Popularizado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o termo fracassomania mantém a atualidade. Foi criado pelo pensador Albert Hirschman, a partir da experiência como especialista da Fundação Rockefeller, nos anos 50 e 60, em países como o Brasil e a Colômbia. Ao contrário do que imagina o senso comum, a expressão não é sinônimo de pessimismo irremediável com o país; Hirschman cunhou o termo para nomear um vício comum em intelectuais latino-americanos, o de desprezar as soluções para problemas nacionais criadas no próprio país, e preferir os modelos importados com qualidade de Primeiro Mundo. Fracassomania é a crença de que está condenada ao insucesso qualquer iniciativa que não se fundamente em algum exemplo de país desenvolvido. É o freqüente desperdício da boa e simples experiência assentada na criatividade nacional. Em tempos de fome zero, há, por exemplo, um programa que viceja em todo o país sem apoio oficial, que mereceria maior atenção da opinião pública e dos estrelados gabinetes palacianos. É o uso da multimistura, um suplemento alimentar fabricado com farelo de arroz ou trigo, casca de ovo e farinha obtida de folhas verdes e sementes de vegetais, resíduos ricos em nutrientes habitualmente desperdiçados no processo de preparação alimentar. Engana-se quem pensa que é ração para pobre: farmácias em Brasília e outras cidades no país já vendem a multimistura, que, pelo alto teor de vitaminas, como a A e a D e pela concentração de minerais, como o ferro, rivaliza, em qualidade nutritiva, com produtos de etiquetas coloridas e preço salgado fabricados por grandes empresas para o público de renda mais alta. Adicionada ao leite, ao feijão, ou a outros pratos, a multimistura garante vitaminas e minerais geralmente ausentes no cardápio das famílias pobres. Pioneira no uso desse suplemento para combate à desnutrição, a médica pediatra e especialista Clara Brandão defende a iniciativa também como forma de geração de "renda e cidadania". Agricultores tem transformado em fonte de receita partes de plantas que, antes, tinham o lixo como destino. Em Minas Gerais, redes de fornecedores abastecem pequenas fábricas, como as que fornecem mais de 20 mil quilos por mês à prefeitura de Belo Horizonte, há nove anos adepta da "farinha enriquecida". O uso dessa multimistura, combinado a outras ações de atendimento a mães e crianças desnutridas, tem trazido bons resultados nos programas de assistência alimentar sustentados pela Pastoral da Criança, de D. Zilda Arns. Em Belo Horizonte, cidade onde se inaugurou o primeiro restaurante popular e onde os programas de assistência alimentar já mereceram prêmios internacionais, a "farinha enriquecida" é ingrediente tradicional e complementar ao atendimento planejado a crianças e mães. "Eliminam-se doenças oportunistas como diarréias e doenças respiratórias e de pele; 56% das crianças desnutridas melhoram imediatamente a situação clínica", relata Neusa Medeiros, coordenadora de Atenção à Saúde da Criança. Apesar dos casos de sucesso, só recentemente uma universidade, a Federal de Pelotas, começou um estudo profundo sobre os efeitos nutricionais da multimistura. O programa enfrenta forte resistência da comunidade acadêmica e de sociedades médicas, que acusam as substãncias encontradas nas folhas verdes e em outros componentes da farinha de prejudicar, em vez de ajudar, a absorção de nutrientes, como o zinco. A acusação vem perdendo força devido a estudos fitoquímicos mais recentes, mas deixou fortes marcas na administração pública, com auxílio discreto dos fortes lobbies industriais. Um extinto programa federal de suplementação alimentar cancelava o reembolso dos programas que usavam a multimistura em adição ao leite. Só permitia adição de óleo vegetal. O Fome Zero já merece aplausos por trazer ao debate político as ações de atendimento à população carente. Mas o governo tem de descobrir como evitar que as boas intenções sejam soterradas por uma avalanche de cestas alimentares doadas sem o necessário cuidado com os meios de distribuição e conservação. Doações diminuem, com o tempo. Ou acabam. Pior, fazem com que as populações carentes desprezem soluções inovadoras de educação alimentar, em favor de alimentos industrializados que terão dificuldade em obter no futuro. As campanhas dos anos 50, com apoio de médicos, pela substituição do leite materno por leite em pó, são um precedente nefasto do risco a que está sujeito um programa desses, se ceder ao populismo. |