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Quando
exatamente você teve a idéia de traçar um paralelo entre a
física moderna e a filosofia oriental?
No fim da década de 1960 eu estava em Paris trabalhando com
física de partículas. A cultura ocidental estava descobrindo o
Oriente, George Harrison aprendia cítara com Ravi Shankar...
Foi nesse momento que entrei em contato com a filosofia
oriental, especialmente o zen-budismo, e percebi muitos pontos
em comum com os conceitos da física moderna que estudava. Foi
assim que nasceu o meu primeiro livro, O Tao da Física.
Você
sofreu algum preconceito por ter se desviado da física
tradicional?
Na realidade, tive praticamente de largar a física, porque os
departamentos universitários não financiavam esse tipo de
pesquisa, sequer consideravam o tema. De 1970 a 1975, fui meio
período físico, meio período escritor. E tinha de ganhar
dinheiro com outros trabalhos, pois não conseguia nenhuma bolsa
de pesquisa na área.
Você
ainda se considera um físico?
Desde O Tao da Física minhas idéias evoluíram
consideravelmente. Dez anos depois, em meados dos anos 1980, já
não era mais um físico propriamente. Me interessei pelas
mudanças de conceitos em várias áreas, não apenas na
física, mas em biologia, medicina, psicologia, economia.
Percebi que em todas essas áreas nós estamos lidando com
sistemas vivos, seja a economia, a saúde, a psicologia ou a
ecologia. Tudo lida com a vida. E a física tem pouco a dizer
sobre os sistemas vivos.
Em
seu último livro, Conexões Ocultas, você sugere que esse
estudo de sistemas vivos pode nos ajudar a mudar até mesmo o
modelo econômico atual. Como isso seria possível?
Conexões Ocultas é uma espécie de O Ponto de Mutação do
século 21. Nesse livro, expus as três dimensões da vida: a
biológica, a cognitiva e a social. E o conceito central no qual
me baseei é o conceito de redes, que nos permite comparar
sistemas biológicos com sistemas ecológicos e sistemas
econômicos. A interdependência é a base de organização de
todos os sistemas vivos. A mesma comparação pode ser aplicada
às redes sociais.
Apesar
de concordarem com a necessidade de uma visão integrada da
ciência, alguns cientistas dizem que essa visão holística
não se traduz em pesquisas de laboratório. Como você responde
essas críticas?
Concordaria com isso há cerca de 20 anos, quando escrevi O
Ponto de Mutação. Hoje não. Já existem modelos com os quais
trabalhar, sabemos que perguntas fazer. Várias pessoas estão
trabalhando em modelos integrados, como a biomatemática, que
usa modelos matemáticos para descrever, por exemplo, o
crescimento de uma planta.
Então,
por que os cientistas ainda resistem tanto em levar a sério
esses novos campos de estudo?
Se você trabalhou durante 20 ou 30 anos em uma teoria, é
natural que tenha resistência à mudança. A próxima geração
de cientistas é que vai, provavelmente, aceitar melhor essas
mudanças.
Você
acredita que é realmente possível construir um novo sistema
econômico baseado nesses modelos?
Primeiro é preciso reconhecer que o atual modelo econômico
não funciona. Ou melhor, funciona apenas para especuladores
financeiros, profissionais de alta tecnologia e uma elite cada
vez mais rica. A diferença entre ricos e pobres cresce cada vez
mais, tanto dentro dos países quanto entre os países do sul e
do norte. O estudo dos modelos celulares, sistemas
interdependentes, pode nos indicar como desenvolver modelos
econômicos em que todos saiam ganhando, não apenas alguns.
Trinta
anos atrás, os críticos do sistema capitalista eram
representados pelos marxistas. Você acredita que os partidos
verdes já estão preparados para ocupar esse espaço?
Não tenho dúvidas de que isso deve acontecer. O capitalismo
que surgiu depois da Revolução Industrial seguia um modelo
mecanicista. Muitas das críticas de Marx feitas para esse
modelo ainda são válidas hoje, mas toda a sua estrutura
teórica não. Depois, os partidos verdes entraram em cena, nos
anos 80, numa fusão ou numa síntese da esquerda, congregando
seguidores do movimento ecológico, do movimento pacifista, do
movimento feminista. Esses movimentos são cada vez mais globais
e podem, juntos, gerar cada vez mais alternativas concretas para
um novo modelo.
No
livro O Ponto de Mutação, você antevia uma nova era de
consciência ecológica e social no planeta. Como se sente 20
anos depois nos Estados Unidos do governo de George W. Bush?
Em 1980, não podia prever a revolução da tecnologia de
informação e o capitalismo global que emergiu com a chamada
nova economia. Até o fim dos anos 80 havia uma consciência
ecológica muito forte e crescente. Mas ficamos fascinados com o
mundo dos computadores, da internet, e essa tomada de
consciência foi interrompida. A administração de Bush
representa um retrocesso ainda maior, já que ele é o símbolo
de um capitalismo mais antigo, da era Reagan no começo dos anos
80. Acho que Marx e Hegel estão certos nesse ponto: a
dialética existe. Bush foi selecionado para ser presidente, mas
ele nem de fato é um presidente eleito, uma vez que o resultado
das últimas eleições foi escandaloso, com uma contagem de
votos suspeita. Mesmo assim, acho que a situação vai virar.
Você
está otimista?
Estou otimista que haverá, de fato, uma mudança. Mas estou
pessimista na forma que ela vai acontecer. O que provavelmente
vai tirar George Bush da Casa Branca será a quebra da economia
americana, exatamente como aconteceu com a saída do pai dele do
governo. Se ele optar pela guerra contra o Iraque, estima-se que
serão necessários nada menos que 200 bilhões de dólares
somente no primeiro ano de confronto, num momento em que os
indicadores econômicos estão fragilizados. Já no Brasil,
acredito que há uma oportunidade única da criação de um novo
modelo de governo que leve em consideração a dignidade humana
e a sustentabilidade econômica. Todos querem ajudar Lula a ter
sucesso e é por isso que, assim como eu, essas pessoas vieram
para Porto Alegre.
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