Uma ciência para a vida sustentável
por Fritjof Capra*
O conceito “conexões ocultas” foi tirado de um discurso feito
pelo dramaturgo e estadista tcheco Václav Havel, no qual ele disse: “A
educação, hoje, é a capacidade de perceber as conexões ocultas entre
os fenômenos.” Na ciência, essa capacidade recebe o nome de pensamento
sistêmico ou “pensamento de sistemas”: um pensamento que se
desenvolve em função de relações, padrões e contextos. Uso o
pensamento sistêmico e alguns dos conceitos fundamentais da teoria da
complexidade para desenvolver uma estrutura conceitual que integra as
três dimensões da vida: a biológica, a cognitiva e a social. Estendo a
abordagem sistêmica ao domínio social e cultural e aplico-a a algumas
das questões mais prementes de nossos tempos.
As redes vivas
Uma das intuições mais importantes da compreensão sistêmica da vida é
o reconhecimento de que as redes são o padrão básico de organização
de todos os sistemas vivos. Os ecossistemas são compreendidos como teias
alimentares (ou seja, redes de organismos); os organismos são redes de
células, órgãos e sistemas de órgãos; e as células são redes de
moléculas. A rede é um padrão comum a todas as formas e níveis de
vida. Onde quer que haja vida, há redes.
Um exame mais atento dessas redes vivas nos mostra que a sua principal
característica é o fato de elas gerarem a si mesmas. Numa célula,
por exemplo, todas as estruturas biológicas são continuamente
produzidas, restauradas e regeneradas pela rede celular.
Do mesmo modo, no nível de um organismo multicelular, as células
corpóreas são continuamente regeneradas e recicladas pela rede
metabólica do organismo. Transformando ou substituindo seus componentes,
as redes vivas continuamente criam ou recriam a si mesmas.
A vida no domínio social também pode ser compreendida em função do
conceito de rede, mas neste caso já não estamos tratando de reações
químicas; estamos tratando de comunicações. Nas comunidades humanas, as
redes vivas são redes de comunicações. À semelhança das redes
biológicas, elas são autogeradoras, mas os frutos desse processo de
geração, em sua maioria, não são materiais. Cada comunicação cria
pensamentos e significados que dão origem a outras comunicações, e
assim a rede inteira vai gerando a si mesma.
À medida que as comunicações continuam processando-se numa rede social,
elas acabam por produzir um sistema comum de crenças, doutrinas e valores
- um contexto comum de significado chamado de cultura, que é
continuamente sustentado por novas comunicações. Através da cultura, os
indivíduos adquirem sua identidade de membros da rede social.
A análise das diferenças e semelhanças entre as redes biológicas e
sociais é essencial para a minha síntese da nova compreensão
científica da vida. Meu objetivo não é só o de oferecer uma visão
unificada da vida, da mente e da sociedade, mas também o de desenvolver
um modo coerente de compreender, segundo o pensamento sistêmico, algumas
das questões mais críticas da nossa época.
No decorrer deste novo século, dois fenômenos específicos terão um
efeito decisivo sobre o bem-estar e o modo de vida da humanidade. Ambos
desenvolvem-se em rede e ambos estão ligados a uma tecnologia
radicalmente nova.
As redes do capitalismo global
O primeiro é a ascensão do capitalismo global; o outro é a criação de
comunidades sustentáveis baseadas na prática do projeto ecológico. Ao
passo que o capitalismo global é composto de redes eletrônicas de fluxos
de finanças e de informação, o projeto ecológico mexe com redes
ecológicas de fluxos de energia e matéria.
A meta da economia global, em sua forma atual, é a de elevar ao
máximo a riqueza e o poder de suas elites; a do projeto ecológico, a de
elevar ao máximo a sustentabilidade da teia da vida. Vou falar agora
de modo mais detalhado sobre esses dois fenômenos.
Nos últimos trinta anos, a revolução da informática deu origem a um
novo tipo de capitalismo, um capitalismo profundamente diferente do que se
formou durante a Revolução Industrial ou do que se constituiu depois da
Segunda Guerra Mundial.
Esse novo capitalismo tem três características fundamentais: suas
principais atividades econômicas são globais; seus principais fatores de
produtividade e competitividade são a inovação, a geração de
conhecimentos e o processamento de informações; e ele se estrutura, em
grande medida, em torno de redes de fluxos financeiros. Esse novo
capitalismo global também é chamado de “nova economia” ou
simplesmente de “globalização”.
Na nova economia, o capital acompanha passo a passo os acontecimentos e se
desloca rapidamente de uma opção para outra numa busca global
incansável pelas melhores oportunidades de investimento. Os movimentos
desse cassino global, operado por máquinas eletrônicas, não seguem
nenhuma lógica de mercado. Pelo contrário, os próprios mercados são
continuamente manipulados e transformados por estratégias de investimento
levadas a cabo eletronicamente, pelas percepções subjetivas de analistas
influentes, pelos acontecimentos políticos ocorridos em quaisquer partes
do mundo e - principalmente - pelas turbulências imprevistas causadas
pelas interações complexas entre os fluxos de capital nesse sistema
altamente não-linear. Essas turbulências, que em sua maior parte não
podem ser controladas, resultaram numa série de crises financeiras graves
nos anos recentes.
Até agora, o efeito da nova economia sobre o bem-estar da humanidade tem
sido mais negativo do que positivo. Ela enriqueceu uma elite global de
especuladores financeiros, empresários e tecnocratas, mas, no todo, suas
conseqüências sociais e ambientais têm sido catastróficas.
Nestes últimos anos, os efeitos sociais e ecológicos da globalização
têm sido largamente debatidos pelos acadêmicos e líderes comunitários.
As análises feitas por eles nos mostram que a nova economia está gerando
um sem-número de conseqüências danosas, todas elas ligadas entre si: o
aumento da desigualdade e da exclusão social, o colapso da democracia,
uma deterioração mais rápida e mais extensa do ambiente natural, e uma
pobreza e numa alienação cada vez maiores.
O novo capitalismo global pôs em risco e realmente destruiu comunidades
locais no mundo inteiro; e, com a prática de uma biotecnologia
erroneamente concebida, violou a santidade da vida, na medida em que
tentou reduzir a diversidade à monocultura, transformar a ecologia numa
simples engenharia e fazer da própria vida uma mercadoria.
Cada vez menos se pode duvidar de que o capitalismo global, em sua forma
atual, é insustentável e precisa ser reformulado desde os alicerces.
A sociedade civil global
Com efeito, no mundo inteiro, membros da comunidade acadêmica, líderes
comunitários e ativistas sociais têm levantado a voz para nos dizer que
temos de “virar o jogo”, e também para sugerir maneiras concretas de
fazê-lo.
Toda e qualquer proposta realista de “virada” tem de partir do
princípio de que a forma atual de globalização econômica foi concebida
conscientemente e, por isso, pode ser reformulada. O chamado “Mercado
Global” não passa, na realidade, de uma rede de máquinas programadas
segundo o princípio fundamental de que o ganhar dinheiro deve ter
precedência sobre os direitos humanos, a democracia, a proteção
ambiental e todos os demais valores. Entretanto, as mesmas redes
eletrônicas de fluxos de finanças e de informação podem ser
programadas segundo outros valores. O problema não é tecnológico, mas
político.
Na virada deste século, uma notável coalizão global de ONGs
constituiu-se em torno dos valores da dignidade humana e da
sustentabilidade ecológica. Em 1999, centenas de organizações do
terceiro setor interligaram-se eletronicamente por vários meses para
preparar ações conjuntas de protesto durante a reunião da OMC em
Seattle.
A “Coalizão de Seattle”, que depois recebeu esse nome, atingiu
plenamente o objetivo de tornar conhecidas no mundo inteiro as suas
propostas e invalidar a reunião da OMC. Suas ações coordenadas,
baseadas em estratégias de rede, mudaram permanentemente a atmosfera
política que cerca a questão da globalização econômica. De lá para
cá, a Coalizão de Seattle não só organizou outros protestos como
também promoveu três encontros do Fórum Social Mundial em Porto Alegre.
No segundo encontro, as ONGs apresentaram todo um conjunto de políticas
comerciais alternativas, entre as quais se inclui a proposta concreta e
radical de reestruturação das instituições financeiras globais, o que
modificaria profundamente a natureza da globalização.
A Coalizão de Seattle é o exemplo de uma nova espécie de movimento
político, típica da Era da Informática. Em virtude do uso hábil que
fazem da interatividade, da velocidade e do alcance global da Internet, as
ONGs da coalizão são capazes de interligar-se em rede, partilhar
informações e mobilizar seus membros com uma rapidez sem precedentes. Em
conseqüência disso, as novas ONGs globais tornaram-se personagens
políticos importantes, e independentes das instituições nacionais e
internacionais tradicionais. Constituem, assim, uma nova espécie de
sociedade civil global.
Sustentabilidade ecológica
Há três grupos de questões que parecem concentrar a atenção das
maiores e mais ativas dentre as coalizões do terceiro setor. O primeiro
é o desafio de reformular as leis e instituições que regem a
globalização; o segundo é a oposição aos alimentos geneticamente
modificados e a promoção da agricultura sustentável; e o terceiro é o
projeto ecológico - um esforço coordenado de remodelação de nossas
cidades, tecnologias, indústrias e estruturas físicas a fim de
torná-las ecologicamente sustentáveis.
Em geral, a comunidade sustentável é definida como aquela que é
capaz de atender às suas necessidades e satisfazer suas aspirações sem
diminuir as oportunidades das gerações futuras. Temos aí uma importante
exortação moral que nos chama à responsabilidade de legar, aos nossos
filhos e aos nossos netos, um mundo tão cheio de oportunidades quanto o
que nos foi legado. Entretanto, essa definição nada tem a nos dizer
acerca de como construir uma comunidade sustentável. O que nos falta é
uma definição operativa de sustentabilidade ecológica.
A chave de uma tal definição operativa é a percepção de que não
precisamos inventar as comunidades humanas sustentáveis a partir do nada,
mas podemos modelá-las segundo os ecossistemas naturais, que são
comunidades sustentáveis de animais, vegetais e microorganismos.
Educação ecológica e projeto ecológico
Uma vez que a característica mais marcante da biosfera é a sua
capacidade intrínseca de sustentar a vida, uma comunidade humana
sustentável tem de ser projetada de tal modo que seus modos de vida, suas
atividades, sua economia, suas estruturas físicas e suas tecnologias não
prejudiquem de modo algum essa capacidade intrínseca da natureza.
Essa definição implica em que o primeiro passo da caminhada rumo à
construção de comunidades sustentáveis é a aquisição de uma “educação
ecológica” (ecoliteracy), ou seja, a compreensão dos princípios de
organização que os ecossistemas desenvolveram para sustentar a teia da
vida.
Nas décadas vindouras, a sobrevivência da humanidade vai depender dessa
educação ecológica - da nossa capacidade de compreender os princípios
básicos da ecologia e viver de acordo com eles. Isso significa que a
educação ecológica tem de tornar-se uma qualificação essencial dos
políticos, líderes empresariais e profissionais de todas as esferas, e
tem de ser, em todos os níveis, a parte mais importante da educação -
desde as escolas primárias e secundárias até as faculdades, as
universidades e os institutos de educação continuada e de formação
profissional.
Precisamos ensinar aos nossos filhos os fatos fundamentais da vida -
que os resíduos deixados por uma espécie viva servem de alimento para
outra espécie; que a matéria circula continuamente pela teia da vida;
que a energia motriz dos ciclos ecológicos vem do sol; que a diversidade
é a garantia da capacidade de resistir aos imprevistos; que a vida, desde
o momento em que surgiu, há mais de três bilhões de anos, não tomou
conta do Planeta pelo combate, mas pela organização em redes.
A educação ecológica é o primeiro passo em direção à
sustentabilidade. O segundo passo é a passagem da educação ecológica
para o projeto ecológico (Ecodesign). Precisamos aplicar nossos
conhecimentos ecológicos à redefinição fundamental das nossas
tecnologias e instituições sociais, de modo a transpor o abismo que
atualmente separa os projetos humanos dos sistemas ecologicamente
sustentáveis da natureza.
O projeto, em seu sentido mais amplo, é a moldagem dos fluxos de energia
e matéria em vista das finalidades humanas. O projeto ecológico é um
processo pelo qual as finalidades humanas são cuidadosamente inseridas no
contexto maior dos padrões e fluxos do mundo natural. Os princípios do
projeto ecológico refletem os princípios de organização que a natureza
desenvolveu para sustentar a teia da vida.
A prática do desenho industrial num contexto como esse exige uma mudança
fundamental da nossa atitude em relação à natureza: deixar de pensar no
que podemos extrair da natureza e começar a pensar no que podemos
aprender com ela.
Nestes últimos anos, o número de práticas e projetos de base ecológica
aumentou muito, e todos estão muito bem documentados. Entre eles,
podemos mencionar a ressurreição da agricultura e da pecuária
orgânicas em escala mundial; a coordenação de diversas indústrias
em agrupamentos ou conglomerados ecológicos, nos quais os resíduos de
uma empresa servem de matéria-prima para outra; a passagem de uma
economia de produção para uma economia de “serviços e fluxos”, na
qual as matérias-primas e componentes técnicos industriais circulam
continuamente entre os fabricantes e os usuários.
Podemos incluir também a criação de edifícios que, sem os esquemas
convencionais de aquecimento e refrigeração, têm um conforto ambiental
perfeito e podem até gerar mais eletricidade do que utilizam; o
desenvolvimento de automóveis elétricos híbridos que chegam a percorrer
mais de 35 quilômetros com um litro de combustível e são mais seguros e
confortáveis que os automóveis convencionais; e a elaboração de
eficientes células de combustível movidas a hidrogênio que nos acenam
com a possibilidade de uma nova era na produção energética - uma “economia
do hidrogênio”. A célula de combustível é um aparelho eletroquímico
que combina hidrogênio e oxigênio para produzir eletricidade e água - e
mais nada! Com isso, o hidrogênio se torna o “combustível limpo” por
excelência.
À medida que formos entrando nessa nova economia do hidrogênio, sua
eficiência energética será tão superior à dos combustíveis fósseis
que até mesmo o petróleo mais barato perderá a sua competitividade e
não valerá mais o custo de sua extração.
Como gostam de salientar os projetistas ecológicos, a Idade da Pedra não
terminou porque as pedras se esgotaram da face da Terra. Do mesmo modo, a
Era do Petróleo não vai terminar por causa do esgotamento do petróleo,
mas porque teremos desenvolvido tecnologias superiores.
Para concluir, quero lembrar a vocês dos dois fenômenos que terão um
efeito decisivo sobre nosso bem-estar e nossos futuros modos de vida: a
ascensão do capitalismo global e a criação de comunidades sustentáveis
baseadas na prática do projeto ecológico. Essas duas possibilidades -
ambas as quais envolvem redes complexas e tecnologias avançadas e
especiais - encontram-se atualmente em rota de colisão.
Redefinição da globalização
Ao passo que cada um dos elementos de uma rede viva contribui para a
sustentabilidade do todo e faz parte desse todo, o capitalismo global
baseia-se no princípio de que o ganhar dinheiro deve ter precedência
sobre todos os outros valores. Com isso, se criam grandes exércitos de
excluídos e se gera um ambiente econômico, social e cultural que não
apóia a vida, mas a degrada.
Entretanto, os valores humanos podem mudar; não são leis naturais.
Não se trata de um problema de tecnologia, mas de política e liderança.
O grande desafio do Século 21 será o de mudar o sistema de valores que
está por trás da economia global de modo a torná-lo compatível com as
exigências da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. E, com
efeito, esse processo de redefinição da globalização já começou.
Fritjof Capra* é físico austríaco e ecologista,
autor do célebre livro O Tao da Física e um dos mais renomados
representantes do pensamento ecológico e sistêmico da atualidade.
Além do livro o Tao da Física (1975), Fritjof Capra também é autor de
o Ponto de Mutação (1982) e a Teia da Vida (1996), todas obras que se
tornaram sucesso de vendas no mundo inteiro e referência indispensável
no debate das principais questões da vida contemporânea. As Conexões
Ocultas - Ciência para uma Vida Sustentável, o seu mais recente livro,
publicado em 2002, foi lançado no Brasil pela Editora Cultrix. (CTA-JMA).
Para assinaturas da Revista ECO21: http://www.eco21.com.br/assinaturas/assinaturas.asp
"Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas
conscientes e engajadas possa mudar o mundo; de fato, sempre foi somente
assim que o mundo mudou".
"Never doubt that a small group of thoughtful, committed citizens can
change the world; indeed, it's the only thing that ever has".
Margaret Mead
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