INDÚSTRIA FUMAGEIRA

Tabagismo e manipulação da mídia Guilherme da Rosa (*)

Quem é do Sul deve ter acompanhado a inauguração da fábrica da Souza Cruz em Cachoeirinha, cidade do interior do RS. Um tremendo alarde foi feito em torno do evento, pois se tratava de dois fatos: a inauguração de um moderno complexo industrial quase 100% automatizado e igualmente os 100 anos da Souza Cruz no Brasil. Pois é, tudo muito bonito. Mais 600 empregos para os trabalhadores gaúchos, investimentos altos, guerras fiscais e muita, mas muita propaganda nas páginas do "jornal mais expressivo do estado", Zero Hora. Na verdade quase toda edição de quinta-feira, 24/4, foi comprada pelo grupo Souza Cruz, numa campanha publicitária de encher os olhos. Buscando elementos do passado da pequena fabriqueta de cigarretes do Rio de Janeiro, a bela propaganda e as mais de 16 páginas de informe publicitário no miolo da ZH trataram de refazer a trajetória do crescimento do grupo, que há muito tempo está no Rio Grande do Sul, na cidade de Santa Cruz, uma escalada de sucessos e o domínio de, certamente, 100% do mercado de casos de câncer e outras coisas da nicotina.

Dizer que a Souza Cruz criou mais 600 empregos para o estado parece até piada de mau gosto. Ou seja, ela representa há muitos anos um mal talvez muito maior que o desemprego, que pode ser resolvido com políticas sérias: o fato de que os brasileiros estão cada vez mais doentes e debilitados por causa dos "puros e inocentes produtos" deste quase monopólio do cigarro no país. E a dose de hipocrisia não termina aí: muitas páginas do informe foram dedicadas ao combate à pirataria de cigarros, com estatísticas como "em cada três cigarros vendidos nos país um é cigarro pirata". O que interessa se os cigarros vêm do Paraguai ou não? Nem parece estarmos falando de vidas, não de CDs, brinquedos ou outras bugigangas pirateadas.
Duas extravagâncias Gostaria de ter os dados e fazer as contas (quem me conhece sabe que não sou bom nisso) de quanto o governo federal e as secretarias de saúde, o Sistema Único de Saúde e demais entidades já gastaram com pessoas doentes ou mortas pelo cigarro. Ou até mesmo aquelas belas campanhas de prevenção que agências não fazem de graça ? e os que aplaudem a criação de mais uma fábrica Souza Cruz não concedem espaço gratuito a campanhas antitabagistas. Certamente, com o resultado do cálculo daria para instalar uma destas fábricas de 600 empregos em cada cidade do estado (exagerando pouco).

Claro que o vasto espaço comprado pelo grupo multinacional serviu de estopim para uma avalanche de matérias tendenciosas exaltando a vida dos 600 sortudos entre milhares de desempregados gaúchos ? sortudos que estarão empregados sabe-se lá por quanto tempo. E, conseqüentemente, uma carga de brilhantes comentários dos não-menos brilhantes comentaristas do grupo RBS. E toda aquela discussão de que é necessário abrir as portas do estado às empresas multinacionais e conceder, além dos benefícios fiscais, incentivos, às custas dos milhares de viventes, foi suscitada novamente depois de quatro anos de expressivo "abafo" ao governo Olívio. Até quando vamos ficar trocando milhões de vidas por mais 600 empregos? Será que isso não serve como bom exemplo daquele velho instrumento de manipulação chamado "surpresa dos números", quando a quantidade de empregos gerados representa apenas uma gota num oceano? Gerar mais empregos significa aumentar a condição de existência dos pequenos e médios investimentos e ter uma política não de repulsa, mas de honestidade com relação aos grandes. O caso da Souza Cruz ilustra duas extravagâncias dos meios massivos. Uma é aplaudir de pé um investimento que tem por trás uma indústria do vício às custas dos pulmões das pessoas; a outra é mais uma vez desprezar de forma expropriatória qualquer sentido de meios de comunicação como serviço e concessão públicos, dando feedback a anúncios gordos em página de jornal e na televisão.

(*) Estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas

Voltar ao Índice