Palestra de Eduardo Galeano sobre "Paz e Valores", proferida durante o

Fórum Social Mundial em Porto Alegre, dia 26/01/03

Um estudioso americano, David Grossmann, demonstrou que não é nada fácil ensinar as pessoas para matar outras pessoas. São necessários anos de intenso adestramento. Dentro dos quartéis, isso começa aos 18 anos. Dentro de casa, aos 18 meses. As guerras crucificam a verdade. Alguns anos mais tarde, George Bush (pai) em seu livro de memórias escreveu: "não se podia permitir que uma população hostil fizesse refém uma grande parte da produção mundial de petróleo." Talvez algum dia o presidente Bush (filho) escreva uma errata onde em vez de cruzada do bem contra o mal se leia petróleo, petróleo, petróleo... Várias erratas seriam necessárias. Por exemplo, em vez de guardiães da paz se deveria ler chefes da guerra e banqueiros internacionais. Quantos são os guardiães da paz? São cinco: os membros do Conselho de Segurança da ONU com direito a veto. Quantos são os chefes da democracia? Cinco países mandam no FMI. O Banco Mundial é um pouco mais democrático: são sete países. na OMC todos os países membros têm direito a voto, mas até hoje nunca se votou. Para não ser dogmático nem secttário (coisa feia, isso) é preciso reconhecer as virtudes dessas organizações mundiais. Na verdade, elas nos vendem salva-vidas de chumbo.

Em 1995 a Associação Americana de Psicanálise publicou um informe sobre as doenças patológicas mais da sociedade contemporânea. Qual é a característica principal comum a essas patologias? É a mentira. Será que não é essa a essência do poder? Por exemplo, em vez de direito ao trabalho se deveria ler 12 milhões de postos de trabalho jogados no lixo. As grandes organizações do trabalho (Mc Donalds e outras) proíbem expressamente que seus empregados filiem-se a sindicatos. A eleição de Lula vai muito além das fronteiras do Brasil, porque é a vitória de um operário sindicalista que encarna a dignidade do trabalho, por isso ajuda a difundir as vitórias que todos precisamos contra a peste da desesperança. Para que não se diga que em Porto Alegre nos reunimos os ressentidos os contras de sempre (90 mil participantes de 190 países), queremos dizer que em um ponto estamos de acordo com os altos dirigentes do mundo: também somos contra o terrorismo, contra todas as formas de terrorismo.

Poderíamos lançar uma plataforma comum com o Fórum de Davos. Poderíamos iniciar uma campanha divulgando cartazes com os dizeres: procura-se. Procura-se os mercadores de armas de todo o mundo. Procura-se os saqueadores de países que nunca devolvem o que saqueiam, embora exijam milhões na forma de dívida externa. Procura-se os delinqüentes internacionais que roubam milhões de empregos. Procura-se os violadores da terra, aos envenenadores da água e aos ladrões de florestas; também procura-se os fanáticos da religião do consumo, que deram origem a uma guerra química contra o ar e contra o clima deste mundo. O poder identifica valor e preço. Diga-me quanto pagam por ti e eu lhe direi quantos vales. No entanto, existem valores que estão além de qualquer cotação. Não há quem os compre, porque não estão à venda, estão fora do mercado. E por isso esses valores sobreviveram. Teimosamente vivos, esses valores são a energia que movimenta os músculos decrépitos da sociedade civil. Provém da memória mais antiga e do mais antigo sentido comum. Este mundo de agora, esta civilização do salve-se quem puder, do cada um vire-se por si, está doente, sofre de aminésia e perdeu o sentido comunitário, que é o pai do bom senso. Em épocas remotas no início dos tempos, quando éramos os bichos mais vulneráveis da superfície terrestre, quando não passávamos da categoria de almoço fácil na mesa de nossos vizinhos vorazes, fomos capazes de sobreviver, contra todas as evidências, porque soubemos nos defender juntos, porque soubemos compartilhar a comida. E hoje em dia mais do que nunca é preciso recordar essas velhas lições do bom senso. Por exemplo, precisamos defender-nos juntos para que não roubem a nossa água. A água, cada vez mais escassa, tem sido privatizada em muitos países e está em mãos de grupos multinacionais. E aliás daqui a pouco, se contiarmos assim, também nos vão privatizar o ar, e nos dirão que de tanto não pagá-lo não sabemos qual é seu valor e não merecemos respirá-lo. Para que a água continue sendo um direito e não um negócio, um povoado desprivatizou a água na região boliviana de Cochabamba. As comunidades camponesas marcharam desde os vales e bloquearam a cidade durante 4 dias.

Foram recebidas à bala mas, depois de muita luta, recuperaram a água e a irrigação de seus cultivos que o governo havia entregue a uma corporação britânica. Isso aconteceu há poucos anos. Outro exemplo mais recente: o petróleo move a sociedade de consumo. Isso nós sabemos, não vamos negar a evidência. Mas também se sabe que o petróleo tem maus costumes. Entre outras manias, o petróleo tem a mania de derrubar governos, fabricar guerras, intoxicar o ar e poluir a água. A maré negra pegajosa e mortal que se espalhou sobre o mar da Galícia e além com um navio petroleiro que se partiu ao meio, derrramou milhares e milhares de litros de óleo cru, com a irresponsabilidade e a impunidade que se tornaram um hábito nestes últimos tempos em que o mercado manda e o estado não controla nada. Então, diante de um estado cego, diante de um governo surdo, que não fez mais que dar de ombros, os músculos da sociedade civil liberaram a sua linda energia e uma multidão de voluntários enfrentou a invasão inimiga com mãos vazias, com determinação, armada apanas pedaços de paus e panelas, e o que encontrassem, não derramaram lágrimas de crocodilos nem fizeram discursos de teatro. Defender-nos juntos e compartilhar a comida são as duas mais antigas e mais importantes lições da história e do senso comum. Compartilhar a comida, compartilhar a comida... Uma tonelada de comida e de roupa chegou recentemente de trem aos recantos mais pobres da província argentina de Tucumán, onde há crianças que morrem de fome, e esse envio solidário provinha dos catadores de papel, os pobre mais pobres da província de Buenos Aires.

Qual é a palavra que mais se escuta no mundo, em quase todas as línguas do mundo? É a palavra eu. Eu, eu, eu... No entanto, um estudioso das línguas indígenas, Carlos Lentersdoff, revelou que a palavra mais usada pelas comunidades maias, que está no centro de seus dizeres e de seus viveres, é a palavra nós... E foi para isso que nasceu e cresceu esse fórum social mundial na cidade de Porto Alegre, que neste momento é a capital do mundo e modelo da democracia participativa. Para isto nasceu e para isso cresceu, para dizer nós.

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