Armazenamento
de gases contra mudança climática
Alicia Rivera
MADRI -- A concentração de dióxido de carbono na atmosfera aumentou 31%
de 1750 até hoje, provocando o aquecimento global. O desafio é
estabilizar as emissões, e não há uma fórmula única para isso. O
armazenamento desse gás em depósitos geológicos e oceânicos é uma
possibilidade que os especialistas estão explorando.
Se as emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera estão
provocando o problema da mudança climática devido a seu efeito estufa,
por que não tentar retirá-lo, ou pelo menos impedir que chegue à
atmosfera, e armazená-lo em algum lugar onde não seja prejudicial, como
depósitos geológicos ou as profundezas oceânicas? A idéia é viável e
já existem programas em andamento no mundo que exploram essa opção
tecnológica de depósito do CO2.
O setor dos combustíveis fósseis é o mais entusiasta, sobretudo nos
Estados Unidos, mas também se trabalha nesse sentido na Europa,
Austrália, China e Japão. Para alguns, o depósito do CO2 representa uma
oportunidade de seguir adiante com o petróleo e o carvão como
combustíveis principais no mundo; para outros, é como varrer a sujeira
para baixo do tapete, em vez de melhorar a eficácia e a poupança
energéticas, e avançar para fontes reutilizáveis e novas alternativas.
A reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência,
realizada no mês passado em Denver (Estados Unidos), dedicou dois
simpósios à discussão dos desafios tecnológicos do depósito de CO2 e
sua viabilidade econômica.
Se a idéia de fazer enormes aspiradores que retirem o dióxido de carbono
da atmosfera ainda parece longe de se transformar em realidade, as
instalações ligadas à fonte de emissão (sobretudo usinas energéticas
e de extração de combustíveis fósseis) já contam com protótipos e
algumas instalações funcionando. Para o depósito de carbono -não
confundir com os chamados sumidouros, que contam com a capacidade de
absorção da vegetação para absorver esse gás de efeito estufa-
conta-se com as profundezas oceânicas ou com várias formas de
armazenamento geológico. Para o segundo "há três possibilidades:
aqüíferos salinos profundos, jazidas de gás e petróleo esgotadas e
veios carboníferos não exploráveis", propôs em Denver Neeraj
Gupta, dos Laboratórios Battele Columbus (Estados Unidos). Klaus S.
Lackner, da Universidade Columbia, acrescentou as rochas de silicatos de
magnésio, que podem reagir com o dióxido de carbono para formar
carbonatos de magnésio, que representam um "armazenamento seguro e
permanente".
Por enquanto os especialistas apostam nas instalações de captação e
depósito de CO2 junto à própria fonte que gera esse gás, já que o
transporte por canos não apenas encarece consideravelmente o sistema como
sofre a oposição da população a essas instalações, como salientou
Gupta.
Embora a idéia do depósito de CO2 seja antiga e já existam muitos
modelos e estudos teóricos, as tecnologias ainda não estão prontas na
escala necessária para retirar do meio ambiente grandes quantidades desse
gás poluente. "Depositar alguns milhões de toneladas de CO2 é
fácil", indicaram os especialistas, lembrando que no mar do Norte
nas plataformas norueguesas Sleipner de extração de gás natural já se
está separando CO2 e injetando-o em uma formação geológica a mil
metros de profundidade. Desse programa, denominado Sacs, participam
várias empresas petroleiras, e ele conta com o apoio da Comissão
Européia. "Ali está se injetando 1 milhão de toneladas de CO2
liquefeito por ano", explicou recentemente a El PAÍS Ola M.
Johannessen, do centro Nersc (Bergen, Noruega).
"A tecnologia para o depósito de CO2 existe, mas é antiga, é
preciso fazer novos desenvolvimentos tecnológicos e muitos cálculos
econômicos", afirmou Johannessen. "O mais caro é limpar o
dióxido de carbono, mais que liquefazê-lo e injetá-lo sob
pressão."
Nos Estados Unidos o Departamento de Energia (DOE) implementou, com um
financiamento de 1 bilhão de euros, um projeto de uma usina protótipo
com combustível fóssil que combinará a produção de eletricidade e de
hidrogênio, com sistema de captação e depósito de CO2 em formações
geológicas profundas. Em uma primeira fase o objetivo é absorver 90%
desse gás, mas os especialistas consideram possível chegar a 100%. Um
terço das emissões de dióxido de carbono americanas procede das usinas
geradoras de eletricidade.
Para o armazenamento geológico é preciso fazer estudos integrais da
capacidade dos depósitos, estruturas geológicas da região e a
estimativa do risco sísmico, além de avaliar possíveis riscos para a
população e o meio ambiente e efetuar análises de vazamentos, resumiu
Gupta.
Segundo o Departamento de Energia, as jazidas esgotadas de petróleo cru e
gás nos Estados Unidos poderiam reter até 1,8 bilhão de toneladas de
carbono, os aqüíferos salinos até 10 bilhões e em profundezas
oceânicas se poderiam depositar até 100 bilhões de toneladas.
Nessa linha de tentar submergir dióxido de carbono no oceano, Johannessen
lembrou que foram iniciados projetos no Havaí e na Noruega, mas que em
ambos os casos foram suspensos por motivos ambientais. E atualmente só
continua um pequeno programa na baía de Monterrey (Califórnia), com
testes de injeção de CO2 líquido a mais de 3 mil metros de
profundidade.
Também foi considerada a dispersão de CO2 no oceano, mas essa opção,
segundo o DOE, é mais polêmica porque pode produzir danos aos
ecossistemas. "Estamos sendo muito cautelosos", disse Jim Bishop,
químico marinho do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley e co-diretor
do Centro de Pesquisa de Depósito Oceânico de Carbono. "Antes de
bombear CO2 no mar, precisamos compreender melhor como funciona."
Aspiradores para limpar o ar
"Qualquer equipamento que mova o ar pode ser utilizado para absorver
dióxido de carbono", diz Klaus S. Lackner. Os projetos mais
futuristas apresentados no simpósio em Denver sobre depósito de CO2 eram
gigantescos aspiradores para captar o dióxido de carbono da atmosfera e
depois armazená-lo.
Mas essas instalações não estão tecnologicamente resolvidas e são
consideradas um passo posterior ao depósito na própria fonte de
emissão. "Fazer o ar passar por um absorvente que extraia o CO2 é
simples", comentou Lackner. "Qualquer pessoa que tenha estudado
química em nível médio sabe que o ar, ao passar pela água salobra,
desprende seu dióxido de carbono", ele disse. "Curiosamente, o
mais caro não seria limpar o ar, mas reciclar o material
absorvente", acrescentou Lackner. O uso da água salobra produziria
pedra calcária, mas há outros absorventes possíveis.
Esses aspiradores atmosféricos poderiam assim captar o CO2 gerado por
automóveis e aviões, "o que não exigiria qualquer mudança nas
infra-estruturas existentes nem nos estilos de vida", apontou o
especialista.
Para Lackner, a opção do depósito de CO2 seria uma tecnologia de
transição da atual economia baseada nos combustíveis fósseis (85% da
energia comercial mundial) para novas fontes alternativas ao carbono.
Por enquanto o governo Bush, depois de renunciar ao Protocolo de Kyoto,
defende sua Iniciativa de Mudança Climática Global, que não contempla
as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa e aposta em
três opções tecnológicas, segundo especifica o Departamento de
Energia: "Fazer que o sistema energético seja mais eficiente;
aumentar a contribuição das energias renováveis, as nucleares e o gás
natural e captar e depositar CO2, metano e outros gases de efeito estufa
que normalmente seriam emitidos na atmosfera".
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves