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Impactos
ambientais da guerra se multiplicam
Campinas
- A
fumaça preta da queima de poços de petróleo e trincheiras em volta de
Bagdá e dos incêndios decorrentes de bombardeios é apenas a face mais
visível dos impactos ambientais da guerra no Iraque. Uma extensa gama de
conseqüências, bem menos aparentes, já se espalha pelo solo, água e
atmosfera, afetando tanto as pessoas, civis ou militares, quanto animais,
plantas e o funcionamento dos ecossistemas. Mesmo que o conflito armado dure
pouco tempo, vença quem vencer, alguns destes impactos persistirão durante
muitos anos e o meio ambiente sairá perdedor.
Na baixa atmosfera, a poluição gerada pela queima do
petróleo – nos poços ou trincheiras – é altamente tóxica. Contém
hidrocarbonetos, furanos, mercúrio, dioxinas e dióxido de enxofre, este
mais conhecido como o principal gás da chuva ácida. Os incêndios também
emitem os chamados gases do efeito estufa, sobretudo monóxido e dióxido de
carbono e óxidos de nitrogênio, que causam danos na alta atmosfera,
aumentando a contribuição da região para as mudanças climáticas.
Antes da invasão anglo-americana, o Iraque já era o
país mais intensivo do Oriente Médio, em emissões de carbono por PIB, de
acordo com estimativas publicadas pelo World Resources Institute (WRI). Em
1999, emitia 2.820 toneladas de CO2 por milhão de dólares do PIB, enquanto
o Irã e a Arábia Saudita – emissores mais importantes, em termos
absolutos - respondiam por 780 e 1.030 ton CO2/US$ milhão, no mesmo ano.
Agora, soma-se também o carbono resultante da queima improdutiva do
petróleo.
Por enquanto, os incêndios estão restritos a algo entre
sete e treze poços já incendiados (o número varia conforme a fonte de
informação). Mas o impacto potencial de novas sabotagens é imenso, sejam
quais forem os autores. O Iraque tem 2 mil poços de petróleo em operação
e a segunda maior reserva de petróleo do mundo, estimada em 15 bilhões de
toneladas ou 112 bilhões de barris, o equivalente a 11% das reservas totais
mundiais (há quem diga que podem ser 300 bilhões de barris).
É um poder destrutivo bem maior do que os 750 poços
sabotados por Saddam Hussein, em 1991, quando ele retirou suas tropas do
Kuwait. Os poços kuwaitianos queimaram cerca de 3 milhões de barris de
petróleo por dia – equivalentes a 10% do consumo mundial de petróleo na
época - e a maioria ardeu durante 250 dias. Alguns poços continuaram
queimando por mais de um ano! O combate aos incêndios mobilizou 10 mil
homens de 37 países, obrigados a construir 450 km de aquedutos e 361 lagoas
(de cerca de 4 milhões de litros cada) para acabar com o fogo. E isso, numa
região onde a água é escassa e disputada pela população.
As estimativas totais de emissões relacionadas ao
incêndios dos poços kuwaitianos chegaram a meio bilhão de toneladas de
carbono, correspondente ao total emitido, em 1991, pelo conjunto de todos os
países do mundo, exceto os 8 maiores emissores, ainda de acordo com o WRI.
Direto na estratosfera
Mesmo que tantos incêndios não se concretizem, outras
emissões importantes já estão afetando a atmosfera da região. Os aviões
de combate, por exemplo, são responsáveis por contribuições importantes
para o efeito estufa, não tanto pela quantidade de gases emitidos
individualmente, mas dada a grande concentração de vôos de altitude.
Tratam-se de aviões muito econômicos, que teriam emissões individuais
menores do que a de aviões comerciais, se fizessem vôos de cruzeiro.
Porém, decolam em grupos, usando a estratégia alto-baixo-alto para escapar
dos radares, ou seja, quase sempre próximo da aceleração máxima. Cada um
dos 5 porta aviões norte americanos tem 80 aviões e, a cada bombardeio,
decolam todos.
Além disso, as aeronaves são todas supersônicas
(algumas trissônicas), o que significa que voam rápido e atingem 13 mil
metros, emitindo os gases do efeito estufa diretamente na estratosfera. De
acordo com o relatório especial sobre aviação, do Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), isso potencializa as
emissões, já que o carbono é liberado na camada onde se processam as
reações fotoquímicas do efeito estufa, além de interagir com aerossóis.
O carbono liberado em solo vai oxidando até chegar na estratosfera e,
portanto, relativamente, causa menos danos.
É preciso contabilizar, ainda, as emissões dos
mísseis, que utilizam, como combustível, uma mistura de oxigênio e
amônia com hidrazina, esta fortemente reagente. Entre os gases resultantes
da queima de tal combustível estão, novamente, os óxidos de nitrogênio,
relacionados ao efeito estufa. Em geral, cada avião leva 6 mísseis, sendo
2 de curto e 2 de médio alcance e 2 de ataque ao solo, sem contar os
mísseis disparados de terra. E devem-se somar, também, as emissões dos
tanques, caminhões e demais veículos envolvidos, de ambas as partes em
conflito.
Além disso, a guerra sustenta o alto padrão de consumo
de combustíveis fósseis dos Estados Unidos. “O governo Bush adotou uma
política, que pressupõe o franco crescimento do consumo de petróleo”,
explicou à Agência Estado, Michael Renner, do Worldwatch Institute. “Um
sistema econômico assim - que depende de petróleo (relativamente) barato,
desautoriza a eficiência energética e não limita o consumo - vai
continuar a contar com o petróleo do Oriente Médio. E o Iraque, neste
contexto, é o prêmio máximo”. Para Renner, a alternativa real para
afastar o perigo de eternas guerras por petróleo seria “o investimento em
eficiência energética e em fontes de energia renováveis, como solar e
eólica”.
Solo e água
Nas áreas sujeitas a bombardeios, a contaminação do
solo e da água de abastecimento é outro impacto ambiental importante. O
derramamento de petróleo no solo – seja por rompimento de dutos ou
problemas de manutenção dos poços – atinge áreas agrícolas e
prejudica a produção de alimentos, já afetada pelas explosões e pelos
riscos dos agricultores saírem dos abrigos para cultivar a terra.
E aqui os problemas do Kuwait, de 1991, novamente dão
uma idéia da dimensão que este impacto pode ter, conforme lembra Jonathan
Lash, do World Resources Institute (WRI), entrevistado pela Agência Estado:
“o petróleo derramado no Kuwait formou pequenos lagos, nas terras baixas,
contaminando terras férteis. Um único desses lagos, no sul do país,
chegou a ter uns 800 metros de comprimento com até 8 metros de
profundidade, contendo 9 vezes mais petróleo do que o derramamento do Exxon
Valdez, no Alasca”.
Também a fuligem dos incêndios, enxofre, chuva ácida e
derivados do petróleo queimado são transportados pelo vento e se espalham,
contribuindo para o envenenamento da água, da vegetação natural e das
pastagens e representando um sério problema de saúde a mais para a
população, seus rebanhos e fauna nativa. Sem contar eventuais vazamentos
de fábricas e instalações bombardeadas, entre as quais as indústrias de
papel e celulose, fertilizantes e produtos farmacêuticos oferecem maiores
riscos.
Mais um dos impactos potencialmente arrasadores está na
poluição biológica das águas. Mesmo se não forem usadas armas
biológicas, a destruição da precária infraestrutura de saneamento e a
sobrecarga de lixo e esgotos, decorrente da presença das tropas
anglo-americanas, são suficientes para multiplicar os casos de doenças de
veiculação hídrica.
Um dos sintomas de tal sobrecarga já se manifesta no
estuário de Shatt Al-Arab, onde especialistas do Programa das Nações
Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma) detectaram a proliferação anormal de
plâncton. A superatividade dos microorganismos aquáticos decorre do
excesso de nutrientes dissolvidos na água dos canais, que cortam Basra, no
sul do Iraque, e numerosos cursos d’água associados ao Shatt Al-Arab. Os
nutrientes vem do esgoto e lixo da cidade e dos barcos e navios ali
ancorados. Vale lembrar, que a rápida proliferação de plâncton leva ao
consumo de oxigênio da água e conseqüente mortandade de peixes.
Ameaças de extinção
Nos ecossistemas naturais, a guerra ameaça a
sobrevivência de diversas espécies, sobretudo quando o controle do fluxo
das águas se transforma em estratégia contra o inimigo. Na Guerra do
Golfo, conforme acrescenta Lash, parte das áreas inundáveis entre os rios
Tigre e Eufrates – as de mais alta biodiversidade em todo o Oriente Médio
- foram parcialmente drenadas por Saddam Hussein. Oficialmente, o objetivo
seria criar novas áreas agrícolas, jamais utilizadas. Extra oficialmente,
seria uma retaliação a opositores.
Na prática, a mudança de regime hídrico teve efeito
devastador sobre flora e fauna, exterminando, por exemplo, uma planta
chamada arfaj (Rhanterium epapossum), muito usada pelos beduínos como lenha
e forragem. E causando, entre os animais, a extinção local de pelo menos
sete espécies ou sub-espécies. Três delas são endêmicas e, portanto,
provavelmente desapareceram em definitivo: uma lontra (Lutra perspeicillata
maxwelli), um ratão do banhado (Erthyronesokia bunnii) e um peixe (Barbus
sharpeyi). Outras quatro têm distribuição restrita e a população teria
sido extinta no Iraque e Kuwait, sobrevivendo apenas em outros países do
Oriente Médio: um tipo de biguatinga (Anhinga rusa chantrel), a ibis
sagrada (Threskiornis aethiopicus), o cormorão pigmeu (Phalacrocorax
pygmaeus) e a garça golias (Ardea goliath).
A contaminação química e alteração do regime de
águas nos banhados ainda produziram impacto sobre 66 espécies de aves
migratórias, que têm ali seu ponto de parada, no longo trajeto entre o
Ártico e o Sul da África, na rota de migração Sibéria Ocidental-Mar
Cáspio-Nilo. Entre elas, as mais afetadas são o tordo do Iraque (Turdoides
altirostris), o tordo vermelho de Basra (Acrocephalus griseldis) e o
pelicano crespo (Pelicanus crispus).
Conforme estudos realizados pelo Pnuma, 90% destas áreas
inundáveis mesopotâmicas foram destruídas até 2000. Outros 325 km2
secaram nos últimos 2 anos, restando apenas 7% do total original, agora
novamente sob pressão de guerra. E os banhados conhecidos como
Hawr-Al-Hawizeh, no Iraque, e Hawr Al-Azim, no Irã, ameaçam desaparecer em
5 anos.
Um plano de gestão integrada dos recursos hídricos e
recuperação da vegetação natural é considerado urgente e deveria
coordenar ações dos quatro países, que compartilham a área (Iraque,
Irã, Síria e Turquia), conforme foi discutido em meados de março, no 3o
Fórum Mundial da Água, em Kyoto, no Japão. Mas nenhum programa é
possível enquanto durar o conflito.
Ajuda emergencial
“Ações rápidas para reparar os danos ambientais
sustentam de forma vital a ajuda humanitária”, declarou Klaus Toepfer,
diretor do Pnuma, em nota à imprensa. “Para o bem-estar de longo prazo do
povo iraquiano, é essencial incorporar preocupações ambientais em
qualquer programa de recuperação do país”.
As Nações Unidas já se comprometeram com um fundo de
emergência, no valor de US$2,2 bilhões, para mitigação dos impactos
ambientais e assistência ao Iraque, para os próximos seis meses. O governo
suíço ofereceu fundos complementares, ainda sem definição de quantias. A
prioridade, por enquanto, é a identificação de “hotspots” de
poluição, onde as ameaças à vida humana e ao meio ambiente são maiores. Liana John (colaborou Roberto Godoy) |