Indicadores  de  Sustentabilidade:  Experiência   na  comunidade  de  entorno  do  Refúgio  de  Vida  Silvestre  Banhado  dos  Pachecos.

Indicators  of  Sustainability:  Experience  at  the  Community  surrounding  the  Wild  Life Reserv  Pachecos  Swamp

Naia Oliveira

Resumo

     Nesse estudo apresentamos uma reflexão sobre a aplicação de indicadores de sustentabilidade com a proposição de organização de assentamentos humanos onde a preservação ambiental, assim como a melhoria das condições de vida da população, são o foco principal. Trata-se da experiência em andamento no Assentamento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra “Filhos de Sepé”, que se constitui na comunidade do entorno da unidade de conservação estadual “Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos”, Viamão – RS.

Abstract

     This study presents a reflection about the use of sustainability indicators with a purpose of human settlement organization, where the environmental preservation and the improvement of population life condition is the main focus. This deals with the ongoing experience at “Filhos de Sepé” Settlement from de “Landless Movement”, wich is the surrounding community of state reserv unit Wild Life Reserv “Pachecos Swamp”.

Introdução

     Nesse estudo apresentamos uma reflexão sobre a utilização de indicadores de sustentabilidade como um instrumento para a realização de um diagnóstico, de forma a subsidiar a realização do plano de desenvolvimento sustentável no Assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra “Filhos de Sepé”, que se constitui na comunidade do entorno da unidade de conservação estadual “Refúgio da Vida Silvestre Banhado dos Pachecos”, Viamão – RS.

     O diagnóstico, realizado em 2001, tratou da aplicação de indicadores através de métodos participativos com a proposição de organização de assentamentos humanos onde a preservação ambiental, assim como a melhoria das condições de vida da população, são o foco principal. Nosso desafio, portanto, é a definição de ações  que compatibilize a missão da unidade de conservação com as atividades do grupo social vizinho.

I- Desenvolvimento Sustentável

      No Relatório Bruntdland (1987) desenvolvimento sustentável é definido como “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades”. Não discorre sobre as reais necessidades do ser humano, nem sobre a desigualdade social que permeia o atendimento destas necessidades, além de não contemplar a definição de um nível equilibrado de consumo que realmente não comprometa o futuro.

     A idéia de desenvolvimento foi utilizada historicamente no sentido de crescimento econômico, trazendo em si a carga de uma visão mecanicista. O termo carrega em seu significado a própria causa da crise ambiental e social, isto é, a consolidação de sistemas competitivos de produção, consumo, territorialização e uso de poder (SILVA, 2000).

     A noção de sustentabilidade só se torna real quando construída sobre uma verdadeira mudança de paradigma. O pensamento holístico compreende cada fenômeno dentro do contexto de um todo integrado, cujas propriedades surgem das relações entre as suas partes (CAPRA, 1996), permitindo a percepção do mundo como um sistema vivo que se auto-organiza, se auto-regula e se perpetua a partir das relações entre seus diversos componentes, todos interdependentes e complementares. Relações estas que proporcionam as características ideais para a existência e a manutenção da vida (LOVELOCK, 1991) sendo, portanto, fundamental a participação de cada singular elemento nesta unidade formada por diversidades.

     Por ser um tema de natureza interdisciplinar, com expressão em diferentes áreas do conhecimento, a sustentabilidade exige o reconhecimento de sua complexidade e de seu enfoque pluridimensional, sendo necessário, além das interações entre as disciplinas, a conexão efetiva entre os diversos atores sociais envolvidos (SILVA, 2000). Vários estudiosos citam que o enfoque ambiental representa um desafio maior do que alcançar uma articulação interdisciplinar que supere uma visão reducionista e fragmentada, exigindo também a construção de uma abordagem que considere a complexidade, a pluralidade e o dinamismo de suas perspectivas.  Para ACSERALD (1999), a noção de sustentabilidade só pode se delinear a partir das práticas, de forma que sejam proporcionados efeitos concretos, considerados adequados nas suas diversas dimensões.

I.1- Ecovilas

     As perspectivas da sustentabilidade se traduzem em experiências práticas diversificadas, construídas no mundo inteiro, fundamentadas em uma visão holística, participativa e de aprendizado com a própria natureza: são as ecovilas, assentamentos humanos que existem de forma integrada ao ambiente, garantindo suas necessidades básicas de água limpa, alimento saudável, moradia e saneamento adequados, trabalho e interação social condizentes com as necessidades humanas, proporcionando um nível de independência e satisfação a todos os habitantes, sem comprometer a existência dos sistemas naturais que sustentam a vida.

     As Ecovilas incorporam a sustentabilidade principalmente nas dimensões cultural, social, econômica e ambiental. A sustentabilidade cultural prevê o respeito e a afirmação das identidades existentes, a satisfação das necessidades na perspectiva da compreensão das pessoas como seres criativos e expressivos, envolvendo diversidade de trabalho, artes criativas, desenvolvimento de habilidades e talentos e produção de eventos culturais que colaborem na formação de agentes de transformação social.

     A sustentabilidade social desenvolve aspectos relacionados à saúde e ao bem-estar, ao processo educativo e ao modelo de gestão e planejamento da vida social da comunidade. Prevê a formação de uma estrutura de decisão democrática com a preparação das pessoas e dos grupos para o envolvimento em um processo de tomada de decisão participativa e colaborativa.

     A sustentabilidade econômica comporta produção local de alimentos orgânicos, negócios em pequena escala e serviços que criam diversidade e iniciativas de produção coletiva através de cooperativas e associações, visando qualidade e utilidade, fora do esquema convencional de assalariamento. Quanto ao consumo, este é planejado para a aquisição a partir das reais necessidades existentes, com a observação de critérios ecológicos. A abordagem econômica se fundamenta na perspectiva solidária, a qual envolve cooperação, planejamento orientado, criação de “bancos alternativos” e moeda local, acordos comerciais e éticos, etc.

     A sustentabilidade ambiental trata de sistemas físicos e estruturas que deverão ser integradas no ambiente natural existente, entendendo que cada elemento deste sistema é interdependente e interconectado com o todo. Esta proposta de sustentabilidade atende às determinações da Agenda 21, Carta do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Neste sentido, a forma de ocupação da área é definida utilizando a permacultura, sistema de design que através da observação e do aprendizado com os princípios básicos que regem os sistemas naturais, reúne elementos de culturas ancestrais com conhecimentos interdisciplinares da ciência moderna, propondo a integração harmoniosa entre as pessoas e a paisagem, de forma a satisfazer as necessidades humanas sem impactos ambientais negativos. A abordagem busca a colaboração de elementos como sol, vento, água, vegetação, tipo de solo, estabelecendo um zoneamento que permita uma maior eficiência dos fluxos energéticos, de água e de nutrientes no sistema (MOLLISON & SLAY, 1998).

I.2- Indicadores de Sustentabilidade:

     Segundo SILVA (2000), as inquietações relativas à qualidade e às formas de apropriação dos elementos naturais, bem como aos padrões de produção e de consumo praticados pela sociedade atual, têm estimulado a elaboração de indicadores que proporcionem a formação de um banco de dados capaz de subsidiar o planejamento de políticas e ações para a melhoria das condições ambientais e da qualidade de vida das pessoas. A Agenda 21, capítulo 40, apresenta a formulação de indicadores ambientais como uma proposta operacional para o levantamento de dados que permitam a avaliação e o monitoramento dos impactos ambientais.

     Os indicadores de sustentabilidade são ferramentas que ajudam a comunidade a avaliar a sua situação no momento da primeira medição, estabelecendo onde ela quer chegar e acompanhando as mudanças necessárias. De acordo com ATKISSON (1993) os indicadores podem oferecer um meio eficaz para o desenvolvimento de relações comunitárias, consenso e compreensão da sustentabilidade. Neste sentido, a sua seleção deve equilibrar as exigências de sofisticação técnica e a capacidade do público de entender as informações. Para HART (1999) os indicadores devem apresentar as seguintes características para a eficiência da sua aplicação: relevância, facilidade de compreensão, confiabilidade e visão de longo alcance.

     ATKISSON (1993) coloca como meta a formulação e aplicação de indicadores que atinjam três critérios gerais: refletir as tendências fundamentais da saúde cultural, econômica e ambiental a longo prazo e ser estatisticamente mensuráveis.

     Concluímos que o trabalho com indicadores deve envolver dados que tenham um grande potencial de ressonância na comunidade, com o objetivo de sensibilizar e envolvê-la de uma forma ampla para um projeto de construção de assentamentos sustentáveis. É importante a opção por indicadores a serem construídos, compreendidos e monitorados pelo próprio grupo comunitário, devidamente motivado para este propósito. Também deve ser considerada a preocupação com a continuidade do trabalho, no tocante à retroalimentação de dados e à sistematização dos trabalhos de monitoramento, para assegurar que esse instrumental seja realmente inserido num processo contínuo de avaliação de um dado espaço sócio-ambiental. Os riscos na formulação de indicadores se apresentam tanto pelo lado da complexidade, inerente às medições ambientais, como pela simplificação que é necessária para que sejam compreensíveis para o grupo que vai utilizá-los. Essas reflexões apontam para a importância de um exame profundo das interações da comunidade em questão, como elementos da pesquisa e como agentes de formulação e utilização desse instrumento de representação da realidade. Essas considerações se traduzem em reflexos práticos importantes, pressupondo, por um lado, a definição social dos objetivos estabelecidos para um sistema de indicadores e, por outro, os procedimentos científicos necessários para a construção do instrumento estatístico.

I.3- Métodos Participativos

     Dada a importância da participação comunitária no diagnóstico, planejamento e execução de um sistema de desenvolvimento sustentável, os métodos participativos são instrumentos bastante eficazes em benefício deste processo. O enfoque participativo mobiliza a criatividade do grupo e os potenciais de cada indivíduo, abrindo espaço para a interação entre todos numa construção coletiva, favorecendo e valorizando o envolvimento ativo e a expressão dos conhecimentos, habilidades e idéias de todos os participantes. É fundamental o estímulo à formação de lideranças comunitárias e o trabalho para a consolidação de uma gradativa autonomia da comunidade.

II- Diagnóstico de sustentabilidade no assentamento “Filhos de Sepé- Setor C”

     O MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, contempla no seu programa de Reforma Agrária, a garantia de uma produção agropecuária voltada para segurança alimentar, eliminação da fome e desenvolvimento econômico e social dos trabalhadores, bem como o desenvolvimento de tecnologias adequadas à realidade, preservando e recuperando os recursos naturais, como um modelo de desenvolvimento agrícola auto-sustentável (MST, 1995).

     No entanto, o movimento tem enfrentado dificuldades na concretização destes objetivos, principalmente no que diz respeito à organização dos assentamentos, sendo que enfrentam problemas ambientais, como destino inadequado do lixo, falta de saneamento básico, contaminação das águas, queimadas, desmatamentos e caça predatória. Podemos apontar também problemas sociais e econômicos, como dificuldades de organização coletiva, de participação igualitária da mulher, de elevação da qualidade de vida e de desenvolvimento da produção agropecuária, e ainda, uma assistência técnica pouco efetiva.

 

II.1- Caracterização da área em estudo

     O assentamento “Filhos de Sepé”, o maior do Estado, com 9.506 ha, foi implantado em dezembro de 1998, na Área de Proteção Ambiental (APA) do Banhado Grande, com assistência técnica precária e sem programas de educação ambiental que pudessem orientar os assentados com relação à alternativas para um desenvolvimento fundamentado na sustentabilidade. Foram estabelecidas 376 famílias, distribuídas em quatro setores (A, B, C e D), variando em termos de tamanho e de número de habitantes.

     Parte da área, aproximadamente 2.543 ha, a partir de 25 de abril de 2002, por decreto estadual, passou a corresponder ao Refúgio de Vida Silvestre “Banhado dos Pachecos”, abrigando as principais nascentes do rio Gravataí. O Refúgio apresenta alta diversidade faunística, especialmente de aves e anfíbios e remanescentes de mata nativa. Há fortes indícios de que em sua área vive a última população do cervo-do-pantanal no Rio Grande do Sul.

     A implantação do Assentamento previa uma série de cuidados ao meio ambiente que ficaram explicitados em contrato assinado pelos Assentados e o INCRA, incluindo, entre outros, o da proibição do corte de vegetação em lugares definidos, da caça e pesca (com exceção a pesca de linha aos assentados), do uso de fogo ou queimadas, do uso não autorizado ou desperdício de água e do uso de agrotóxicos.

     Sem estes cuidados, os núcleos populacionais implantados podem colocar em risco toda esta riqueza natural, considerando-se a fragilidade do sistema do banhado e a possibilidade de contaminação do aqüífero, devido às condições de saneamento, manejo inadequado de resíduos sólidos e uso de técnicas convencionais para produção agrícola.

II.2- Sustentabilidade nas dimensões social, cultural, econômica e ambiental

      Os indicadores foram elaborados a partir de um quadro de questões consideradas significativas com relação às dimensões cultural, social, econômica e ambiental, presentes no paradigma das ecovilas. A partir destas questões foram definidos os indicadores, compreendendo-os como instrumento que deve refletir a saúde da comunidade, traduzindo uma mensuração simplificada para que possa ter ampla compreensão. Na construção destes indicadores específicos para o assentamento, entendemos a realidade como um contexto único, onde as dimensões trabalhadas se interconectam, não havendo uma diferenciação de valoração para nenhuma delas.  A pesquisa atingiu 30% das famílias residentes em cada setor.

 

     Uma planilha com as questões, seus respectivos indicadores e o roteiro das entrevistas foram discutidos em reunião com representantes de todos os setores. Os entrevistadores foram os próprios assentados, após reunião realizada em cada setor, para discussão do roteiro e treinamento.

     A análise apresentada neste trabalho contempla os dados referentes ao Setor C, pois dadas as características dos indicadores de sustentabilidade, os quais apresentam uma relação estreita com as características da região em que é aplicado, é indicado que seja analisado cada setor separadamente, visto que aglomerar as informações de todos os setores não nos daria uma análise fidedigna da situação da sustentabilidade do assentamento como um todo. Escolhemos o Setor C por ser o maior em termos de área e população.

II.3-Análise dos Indicadores

QUESTÕES

INDICADORES

ANÁLISE

CULTURAL

 

 

Diversidade cultural

- Diversidade de etnias, de  lugares e de atividades anteriores

     Com relação às etnias nossos dados apontaram a ocorrência de 11 variações, apresentando a maior concentração da etnia italiana, seguida pela cabocla, a portuguesa e a indígena. No levantamento dos lugares em que os assentados viveram mais tempo, o grupo pesquisado apontou 49 diferentes locais, com uma distribuição bastante regular de freqüência e uma espacialização contemplando principalmente a região noroeste. Esta região apresenta uma estrutura agrária baseada predominantemente na pequena e média propriedade, com um perfil de produção tipicamente lavoureiro (trigo, soja e milho), embora conte também com pecuária de pequenos animais (suínos e aves). Quanto à ocupação anterior houve uma predominância de 75% na atividade agrícola.

     Estes dados não mostram uma diversidade cultural relevante, capaz de oferecer uma contribuição significativa em termos de uma abrangência maior de conhecimentos e experiências, já que, embora os assentados sejam provenientes de diferentes lugares, estes se localizam em uma única região, com uma especialidade econômica restrita.

Eventos culturais – casamento, batizado, aniversário, culto religioso

- Percentual de famílias que participam dos eventos

- Número de eventos em um determinado período (3 meses)

O resultado correspondeu a 58%, sendo superior à metade dos investigados, atendendo à expectativa da sustentabilidade com respeito à participação neste tipo de evento.

Adesão à ideologia do movimento dos trabalhadores rurais sem terra

-Tempo médio de permanência  em acampamento

- Presença de símbolos do MST (bandeira, calendário, agenda, boné, camiseta)

Com relação ao primeiro fator, 71,43% das pessoas pesquisadas permaneceram de um a dois anos no acampamento. Este resultado mostra que a maior parte das pessoas não tiveram um tempo de formação consistente para incorporar estas noções de sustentabilidade que envolvem uma visão de mundo distinta da que prevalece, ainda mais se compararmos à formação do sistema educacional institucional, onde qualquer curso para preparar uma nova formação, leva no mínimo 4 anos.  Quanto à presença de símbolos, estes foram observados em 40% das casas das pessoas entrevistadas, o que indica também uma baixa adesão à ideologia do movimento.

Acesso à informação (jornais, revistas, TV, rádio)

- Percentual de pessoas que: lêem jornais e revistas e ouvem rádio e assistem TV

Observamos que 97,66% dos pesquisados tem acesso a algum meio de informação, sendo que o rádio recebe 65,12% da preferência, seguido pela televisão com 16,28%, o jornal com 11,63% e outros (revistas e jornais do MST) com 4,65%.

Satisfação com a informação

- Percentual de satisfação com as informações

Detectamos que 56% das pessoas investigadas estão pouco satisfeitas ou insatisfeitas. Com estes dados podemos dizer que existe crítica à informação.

SOCIAL

 

 

Processo de educação permanente

- Percentual de pessoas que participam dos eventos educativos.

- Número de eventos educativos - período (3 meses).

O resultado foi de 36%, o que demonstra a baixa participação das pessoas pesquisadas nas oportunidades de formação.

Participação no processo decisório

- Percentual das pessoas do setor que participam de núcleos de discussão.

Detectamos que 57% das pessoas participam de núcleos de discussão.ou seja mais da metade da população pesquisada participa do processo decisório.

Satisfação quanto a atuação do seu representante

- Percentual de pessoas satisfeitas com a atuação do seu representante de núcleo (grupo).

Constatamos que 75% encontram-se satisfeitos com a atuação do seu representante, o que indica uma boa integração entre o trabalho dos representantes e a percepção dos representados.

Disposição para:

- enfrentamento conflitos

- resolução de conflitos

- Percentual de pessoas que expõem sua opinião frente opiniões opostas.

- Percentual de pessoas que negociam frente opiniões opostas.

Os resultados obtidos correspondem à 53% das pessoas pesquisadas responderam afirmativamente a primeira questão e 52% a segunda questão, indicando que a metade das pessoas apresentam disposição para enfrentar e resolver conflitos.

Igualdade de direitos entre homens e mulheres

- Percentual de participação das mulheres nas reuniões dos núcleos.

- Percentual de mulheres que expressam suas opiniões.

O percentual de participação das mulheres nas reuniões gerais correspondeu a 39%, não atingindo ao percentual mínimo de 50% considerado satisfatório como indicação de sustentabilidade. Examinamos também que do grupo de mulheres que participam, 63% expressam suas opiniões, mostrando uma atuação efetiva.

Educação (alfabetização e escolaridade)

- Percentual de pessoas alfabetizadas.

- Percentual de pessoas escalonadas pelos anos de escolaridade.

Os dados apontam que 97,39% das pessoas que integram as famílias entrevistadas são alfabetizadas. Esta realidade traduz a existência de três adultos analfabetos No que diz respeito à escolaridade, foi determinado o percentual por faixa etária, onde encontramos a informação de que a partir de 20 anos existe um baixo índice de escolaridade, sendo interessante prever um sistema educativo dedicado aos adultos.

Saúde - prevenção, uso de métodos não convencionais, acesso aos serviços de saúde pública

- Percentual de pessoas que cuidam da saúde

- Percentual de pessoas que usam métodos não convencionais de cuidado com a saúde.

- Percentual de pessoas com acesso aos serviços de saúde pública.

74% das pessoas pesquisadas apresentam o hábito de cuidar da saúde e 93% destas usam métodos não convencionais, tais como remédios caseiros, ervas medicinais e alimentos saudáveis e 44% manifestaram acesso aos serviços de saúde pública. Numa realidade de acesso universal, este percentual é baixo.

Atividades coletivas

-Percentual de pessoas que participam de núcleos com produção coletiva, associações e cooperativas.

-- Percentual de pessoas com preferência por atividades coletivas.

Tivemos um resultado de 24% de pessoas participam de núcleos coletivos, onde na produção 12% exercem em grupo e, na recreação 33%. Estes dados salientam a predominância de atividades que são levadas individualmente, apontando para um retorno ao estilo de vida anterior à fase de engajamento ao MST, já que no acampamento todas ações são coletivas.

ECONÔMICA

 

 

Produção para subsistência

- Percentual de famílias que produzem para a subsistência.

- Percentual de famílias que produzem para a subsistência em grupo.

- Percentual de famílias que produzem para a subsistência  usando adubos químicos ou veneno.

Foi identificado que 57,14% das famílias pesquisadas produzem o básico. Destas, 24% realizam esta atividade em grupo e 76% usam adubos orgânicos. Este percentual de pessoas que produzem para a subsistência pode ser considerado baixo, tendo em vista que uma meta da política de reforma agrária é atender a subsistência, ainda mais, considerando que este assentamento está no seu terceiro ano de existência

Produção para a comercialização

- Percentual de famílias que produzem para a comercialização.

- Percentual de famílias que produzem para a comercialização em grupo.

- Percentual de famílias que produzem para a comercialização  usando adubos químicos ou veneno.

O tópico apontou um percentual de 13% de famílias produzindo para a comercialização, sendo que nenhuma família realiza esta atividade em grupo e também nenhuma usa adubo orgânico. A situação da produção para a comercialização ainda necessita de orientação tanto no que se refere à assistência técnica para o desenvolvimento da agroecologia, quanto ao mercado regional.

Mecanização agrícola

-Percentual de famílias que usam mecanização leve.

- Percentual de famílias que dispõe de máquinas agrícolas

A expectativa com relação à sustentabilidade é a de utilização de equipamentos menos impactantes. No setor investigado foi observado que 81% das famílias pesquisadas utilizam arado, enxada e foice, em contraposição à 19% que usam trator. O acesso ao equipamento através da propriedade coletiva mostra que somente 13%  das famílias o fazem, 13% alugam e 74% detêm a propriedade do equipamento utilizado

Sistemas de trocas

- Percentual de pessoas que utilizam sistema de trocas.

Identificamos que 66% das famílias pesquisadas utilizam algum sistema de trocas, focando principalmente na prestação de serviços.

AMBIENTAL

 

 

Solo

- Utilização de métodos de conservação e regeneração do solo

- Percentual de famílias que utilizam adubo orgânico.

Foi detectado que 62% das famílias pesquisadas utilizam métodos alternativos, como por exemplo fumo, urina de vaca, entre outros. Já o uso de adubos orgânicos, observamos que 75,61% das famílias entrevistadas o utilizam.

Água

-Disponibilidade, qualidade e distribuição igualitária.

Somente 32 % das famílias pesquisadas consideram fácil o acesso à água e do total das pessoas entrevistadas, 28% consideram a água de boa qualidade para o consumo. Com relação à distribuição igualitária, 38% das pessoas entrevistadas estão satisfeitas com a distribuição da água para o cultivo. Um dos maiores problemas deste setor do Assentamento é o atendimento às famílias com água de qualidade, praticamente todas  dependem de poços superficias e muitas vezes distantes.

Preservação flora e fauna

-Percentual de pessoas conhecedoras de espécies de fauna e flora nativas.

Entendemos que o maior conhecimento dos elementos naturais leva a sua maior valorização e cuidado. Sendo assim, chegamos a um percentual de 71,43% de famílias que identificam espécies de fauna e flora nativas.

Resíduos

- Percentual de famílias que separam o lixo.

- Percentual de famílias  que aproveitam o lixo orgânico.

- Percentual de famílias  que aproveitam o lixo seco.

- Percentual de famílias que encaminham o lixo seco para a coleta seletiva.

- Percentual de habitações com tratamento adequado de esgotos.

Constatamos que 41% das famílias pesquisadas realizam a separação do lixo. Destas, 88% aproveitam o lixo orgânico, 46% aproveitam algum material do lixo seco e somente 5% encaminham o lixo seco para a coleta seletiva. Esta questão é problemática, pois existe dificuldade de tornar efetiva a coleta seletiva por parte da Prefeitura Municipal de Viamão. Constatamos que somente 19% das casas das famílias pesquisadas apresentam fossa séptica. Destas 33% possuem poço negro e 67% fossa rasa. Não existe nenhum tratamento adequado dos dejetos, resultando no comprometimento do lençol freático.

Energia

- Percentual de habitações com instalação elétrica

- Percentual de habitações que utilizam outro tipo de energia.

Observamos que 11% das habitações apresentam energia elétrica e as demais 33% gás, 3% querosene, 3% bateria. Este item merece uma atenção especial, pois está relacionado com melhores condições de vida, além de ser necessário para a realização da produção.

Habitação

-Percentual de habitações com material ecológico.

Detectamos que 75% é madeira. Já o material da cobertura, somente 3% é telha de barro, sendo 97% de telha de cimento-amianto.

Transporte interno

Transporte da produção

- Percentual de famílias que usam bicicleta

- Percentual de famílias que usam transporte animal

-Percentual de famílias que usam veículos automotores

-Percentual de famílias que têm acesso ao transporte para a produção.

O transporte interno no assentamento é feito fundamentalmente (44%) através do uso de cavalo, carroça e carreta de boi. A bicicleta ficou em segundo lugar com 24%, e o uso de trator e automóvel corresponde à 8%. 24% não utilizam nenhum meio de transporte, o que dificulta a realização do trabalho comunitário, a participação em reuniões e eventos, bem como a comunicação, pois é necessário vencer grandes distâncias. Quanto ao transporte da produção, a maioria (75%) utiliza trator, carroça e o comprador vem pegar em casa.

Considerações finais

     O desafio enfrentado na utilização de indicadores sustentáveis reside na tentativa de medir os níveis de aplicação de uma noção que se encontra em discussão, não apresentando ainda uma definição ou conceito estruturado e aceito pelas exigências do aparato científico. Porém, a idéia de sustentabilidade ganha, cada vez mais, reconhecimento na sua aplicabilidade no mundo real. Sendo assim, são apontadas as questões que devem ganhar maior atenção na elaboração e execução do plano de desenvolvimento para aumentar o nível de sustentabilidade.

     A análise da dimensão cultural destaca os itens da capacitação, no sentido de contemplar a aprendizagem em outros cultivos, ou seja, a experiência da grande maioria dos assentados é em lavoura do trigo, soja e milho e as características da área são para o do arroz, hortigranjeiros, e  também, para criação de gado leiteiro.

     Na dimensão social foi observado a necessidade de continuidade do processo de formação do período de acampamento, para consolidar a noção de preservação ambiental, agroecologia e fundamentos da economia solidária. Observamos também que estão em situação desfavorável para atingir um índice de sustentabilidade satisfatório: a participação dos assentados nos eventos educativos, a inserção das mulheres nos processos decisórios e as atividades coletivas, tanto no que diz respeito à área da produção quanto à do lazer. Estes resultados mostram a importância da realização de trabalhos de engajamento das mulheres, de aplicação de estratégias de planejamento participativo, que fortaleçam a capacidade de tomada de decisão coletiva, bem como o estímulo à participação, à expressão e à realização de atividades em grupo. Na área da educação é necessário buscar solução para existência de analfabetos e implantar um processo educativo para os adultos, onde a escolaridade é muito baixa.  Quanto à saúde, as questões levantadas orientam para a necessidade da ampliação do acesso à saúde pública.

     Os indicadores de sustentabilidade econômica do assentamento demonstraram um nível baixo com relação à produção para a subsistência, sendo que apenas a metade da população produz o básico. A produção para comercialização, além de apresentar um percentual bastante reduzido, não mostra nenhuma forma de atividade coletiva. Com relação à mecanização, as informações obtidas chamam a atenção para o alto índice de propriedade privada destes equipamentos, não apresentando um esquema de uso coletivo, e quanto ao sistema de trocas, este se restringe à prestação de serviços, podendo ser estimuladas outras formas, contribuindo para a melhoria desta dimensão.

     A realidade ambiental chama a atenção, principalmente, para as questões de saneamento, lixo e insuficiência de água potável. Considerando-se o fato do assentamento se constituir na comunidade do entorno da unidade de conservação, tal situação exige ações educativas práticas de transformação das condições locais.

      Algumas limitações foram detectadas durante esta experiência, como por exemplo, a dificuldade de compreensão de algumas questões, por parte dos assentados e o baixo nível de participação no assentamento como um todo, havendo envolvimento maior por parte de alguns grupos. As atividades práticas, realizadas de forma paralela, para a resolução de questões mais urgentes como o lixo e o esgoto, ajudaram a mobilizar mais a participação, pois possibilitavam que os assentados visualizassem a resolução concreta de suas demandas.

     Finalmente, é preciso ressaltar que para uma atuação mais efetiva quando da utilização de indicadores de sustentabilidade, esta deve estar associada a um processo intensivo de observação participante e de educação ambiental.

Referências Bibliográficas:

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     GILMAN, Robert.  O que é uma ecovila?  In: Permacultura Brasil, n° 3. Ivoti: Amaterra, 1999.

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