Manejo de Florestas Secundárias, Capoeiras, Campos e Serrados dos Índios Kayapó

Lições que não aprendemos... Por Darrel A. Posey*
Os índios Kayapó cultivam uma roça por dois ou três anos e depois ela continua fornecendo batata-doce, inhame, cará, mandioca, mamão, etc. por mais quatro a seis anos; e sabe-se que suas bananeiras dão frutos durante 25 anos. A roça dos Kayapó é planejada dentro de rigorosos conhecimentos ecológicos herdados da cultura de seus ancestrais. Integrada ao ecossistema, a roça fornece alimentos, ervas medicinais, tinturas, sapé, etc. e, a partir do momento em que é "abandonada" - para a terra descansar, tem início o seu reflorestamento. Sim, os Kayapó "reflorestam".
Por outro lado, a roça "abandonada" fornece muitos alimentos aos animais, transformando-se assim, em excelente campo de caça, bem próximo às aldeias. Os Kayapó sabem que as plantas dos terrenos baixos, assim como suas roças, atraem a caça. Mas também sabem que não podem atrair os bichos em grande quantidade, pois eles começariam a comer as outras roças. Então os Kayapó caçam. A caçada não apenas rende carne para a tribo, mas controla a população de animais. Porém os Kayapó procuram equilibrar o número e a quantidade da caça, sem exterminá-la, deixando vivos os machos e as fêmeas mais belos, para que continuem se reproduzindo e melhorando a espécie.
Os Kayapó plantam árvores frutíferas não só para eles mesmos, como para atrair mais caça. Elas são cultivadas à beira dos caminhos e trilhas que ligam suas várias lavouras. Algumas dessas árvores demoram até 25 anos para produzir frutos, com a castanha-do-pará. Eles plantam marmelo, pequi, jambo, açaí, jatobá, pariri, imbaúba e cacau. Para terem o sal, plantam tacumã; o urucu e o jenipapo servem para fabricar tintas. Assim, em plena selva, podemos encontar lima, laranja-da-terra, murici, limão, mangaba, abacate, goiaba, jurubeba, cupuaçu, etc. plantados por eles. Ou babaçu, de onde tiram óleo e também sal.
Os animais da floresta, atraídos pelas árvores frutíferas junto às roças e aldeias, comem os frutos e carregam suas sementes para mais longe, replantando-as em outros locais. Assim, as "trilhas" que levam de uma aldeia a outra - às vezes com mais de 500 Km de extensão - não raro se apresentam ladeadas de árvores que alimentam os Kayapó em suas freqüentes viagens, e onde se entremeiam mandioca, banana, inhame, cará...
Quando limpam uma faixa de terra para plantar, os Kayapó traçam um terreno circular. Derrubam então as árvores de modo tal que seus troncos tombem para dentro do círculo e as copas se amontoem na periferia, deixando corredores entre elas. Esse processo permite que as folhas apodreçam e forneçam adubação orgânica aos futuros plantios.
Os Kayapó também plantam 'ilhas florestais" dentro do cerrado, transportando adubo natural a longas distâncias e misturando-o à terra de cupinzeiros e pedaços de formigueiros esmagados. Com esse método singelo, a cada dez anos, esses índios conseguem "fabricar" 1 hectare de floresta dentro do cerrado. Certa vez, um antropólogo disse que os índios também são grandes destruidores da natureza, pois queimam as matas para plantar. Os intensos estudos sobre os Kayapó demonstram a leviandade dessa afirmação: os Kayapó, por exemplo, não queimam a mata para aumentar o espaço do plantio, "mas para proteger e estimular o crescimento de trechos da floresta". Além disso, os índios dizem que a queimada, à noite, é um belo espetáculo, ao qual assistem durante horas, apreciando a plasticidade das chamas, enquanto sabem que estão se livrando do excesso de cobras, escorpiões, etc. Por isso eles queimam sempre antes da "lua-de-agosto" e do desenvolvimento dos brotos de pequi. Eles sabem quais as plantas que "gostam" do fogo e quais as que são mais prejudicadas por ele. O marmelo, o pequi, o tucumã e o murici, por exemplo, "gostam" do fogo e produzem mais frutos se houver queimada.
Os kayapó fazem uso de "pesticidas" naturais que não envenenam a terra. Eles usam uma formiga - a azteca - para combater as saúvas cortadeiras; explicam eles que as saúvas não suportam o odor ácido - que sabemos tratar-se do ácido fórmico - que as "aztecas" exalam. Também criam pica-paus para comerem o cupim que corrói o madeiramento de suas casas.
Alguns grupos indígenas do alto Xingu empregam lagartos para exterminar grilos e gafanhotos que devoram as plantações. Certas tribos aprenderam a desviar as rotas da formigas-guerreiras para suas aldeias, previamente desocupadas, a fim de "dedetizarem" suas residências, pois elas comem as baratas, escorpiões, ratos, etc. Depois disso os índios voltam para suas casas "desinfetadas".
Os Kayapó usam as madíbulas de grandes formigas para suturarem os ferimentos. Eles são também grandes apicultores, capazes de seguir uma abelha na mata, para localizar sua colméia e colher mel e própolis. Algumas tribos amazônicas chegam a controlar o volume de seus rios; para isso utilizam o peixe-boi, que, encurralado em determinado espaço, come as algas e pantas subaquáticas, impedindo assim o encalhe de troncos e galhos descendo o rio, o que provocaria inundações.
E como reagem esses índios "bárbaros" ao assistirem a devastação brutal que os "civilizados" provocam em seu habitat? Uma visão superficial, fruto de uma concepção etnocêntrica da cultura, pode argumentar que tais métodos não são adequados para o homem "civilizado". está implícito nesse argumento que o homem "civilizado" não pode aprender e apreender certos conhecimentos dos "selvagens".
Essa pequena informação incompleta, sobre alguns procedimentos dos índios, serve para demonstrar que, ao destruirmos as florestas, não estamos apenas arrebentando o meio ambiente, com todas as conseqüências conhecidas. Estamos, também, cometendo um crime maior e mais grave: estabelecendo as condições para o extermínio de várias nações que ali habitam há séculos, ecologicamente integradas à floresta.
Ao crime ecológico se sucede o genocídio. A preconceituosa concepção de progresso não permite que se enxergue a gravidade do caso. Para a sociedade moderna, industrial e capitalista, tudo o que impede a acumulação de riquezas tem de ser destruído. Os que protetam, mesmo amparados no conhecimento científico que demonstra a política suicida empregada para expandir lucros, são rotulados de "românticos".
Por isso, não aprendemos muitas lições.

Darrel A. Posey* - É antropólogo norte americano, que tem estudado a cultura dos índigenas brasileiros há várias décadas. O artigo acima foi extraído da revista "Etnobiologia".

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