Transgênicos:
A Mutação do Consumidor
O
governo brasileiro deve decidir sobre a liberação da soja transgênica
cultivada no Rio Grande do Sul ilegalmente, através de contrabando das
sementes da Monsanto. Ou proíbe punindo alguns poucos agricultores, ou
libera colocando toda a população brasileira sob o risco dos transgênicos.
Por
Ventura
Barbeiro
venturasbarbeiro@ig.com.br
O
autor é engenheiro agrônomo, formado pela ESALQ-USP em 1990, já publicou
vários artigos sobre o tema Transgênicos e esteve no Monsanto Life Science
Center, em S. Lois (EUA), em 1991, onde conheceu a soja Roundup Ready em
laboratório, 3 anos antes de ser liberada no meio ambiente, primeiro em
Porto Rico, depois dos Estados Unidos.
Mas
afinal o que são os transgênicos e quais são estes riscos tão
comentados, mas pouco divulgados. Muito estranhamente, corre a falsa informação
que não existe nada comprovado cientificamente. Muito pelo contrário, países
altamente favoráveis aos transgênicos como Inglaterra, França e Alemanha,
diante das comprovações científicas, colocaram sérias restrições ao
cultivo experimental e comercialização destes organismos.
As pesquisas com transgenia iniciaram na década de 70 com estudos sobre a
forma como uma bactéria causava tumor em plantas. A bactéria injeta uma
parte de seu código genético que liga-se ao DNA da planta criando células
mutantes. Estas células formam um tumor. As células mutantes da planta
passam a roubar nutrientes e enviar para a bactéria.
O gene é responsável por uma função particular de um organismo, como cor
do olho, tamanho, resistência ao frio; cada característica de um organismo
é codificada por um gene, portanto podemos tratar o código genético como
a receita de um ser vivo.
Este mecanismo foi copiado, o trecho de DNA de bactéria chamado Ti (tumor
inducing) é usado em biotecnologia para levar os genes de interesse
comercial para o organismo alvo.
O termo transgênico foi utilizado pela primeira vez em 1982, por Gordon e
Ruddle, designando um animal ou planta cujo código genético sofreu mutação
pela adição de um ou mais genes, não importando a proveniência destes.
O novo ser criado em laboratório tem a composição química alterada, pois
novas proteínas são produzidas devido a modificação genética. Apesar do
organismo modificado ser substancialmente equivalente e ter a mesma aparência
externa, muitas novas substâncias são geradas em seu interior.
A produção de uma proteína no interior da célula é uma sequência de
reações químicas, envolvendo a decodificação do código genético, a
agregação dos componentes das proteínas e finalmente a criação da molécula
protéica. Nestes passos intermediários é possível surgir novos produtos
químicos, pelas reações entre os componentes secundários do complexo
processo de criação de uma molécula protéica.
Isto explica graves acidentes ocorridos com organismos transgênicos.
Em 1980 a indústria japonesa Showa Denko K.K. usou bactéria transgênica
para produzir triptofano, um amino-ácido usado como suplemento alimentar.
Uma toxina mortal foi produzida devido a alteração no metabolismo interno
do microorganismo. A aceleração do processo de criação da molécula de
triptofano gerou reações entre substâncias intermediárias criando a
toxina mortal. Isto levou a morte nos EUA, onde o produto foi vendido, de 35
pessoas e mais de 1500 ficaram com problemas físicos permanentes.
Outro grave acidente ocorreu quando a empresa Aventis introduziu, em 1998,
um milho modificado para produzir a toxina de uma bactéria. Usou uma
tecnologia conhecida pela sigla "Bt". O milho, chamado StarLink,
foi comercializado mesmo com restrições. Devido a polinização cruzada e
mistura nos armazéns, contaminou em torno de 40% da produção de milho
norte-americano. Causou graves reações alérgicas em seres humanos devido
a presença de uma proteína designada Cry9C. Esta proteína não esta
presente em outros milhos com a tecnologia Bt.
Este milho foi liberado com a restrição de ser usado apenas na alimentação
animal, mas devido a polinização (cruzamento sexual através do ar)
contaminou outras lavouras de milho e na comercialização era misturado ao
milho comum. O milho comum misturado com o transgênico perdeu o seu valor
de mercado, levando os produtores a grandes prejuízos e vários
consumidores a ter reações alérgicas graves. A rede norte-americana Taco
Bell e uma associação de produtores de milho processou judicialmente a
Aventis por este episódio.
O milho pode fazer o cruzamento sexual através do ar (polinização) com
outra planta de milho a uma distância de até 10 quilômetros, dependendo
do vento. Ou seja, uma lavoura transgênica contamina todas as plantas
naturais em um amplo raio ao seu redor.
"Não existe alternativa científica para um teste toxicológico
rigoroso que garanta segurança alimentar para alimentos geneticamente
modificados", afirmam os cientistas do Institute of Science in Society.
Um dos grandes impedimentos das mutações induzidas é o silenciamento genético.
Os genes inseridos são impedidos de manifestarem-se através de um
mecanismo de proteção chamado barreira entre espécies. Este mecanismo
existe para impedir que o código genético do alimento ou de
microorganismos possa alterar a composição genética de um ser vivo.
Imaginem algumas de nossas células cruzando com o DNA da alface de nosso
lanche ou com o fungo de uma micose. Este cruzamento não ocorre devido a
esta barreira criada ao longo de milhões de anos.
Para romper a barreira entre espécies um conjunto de genes é inserido na
planta transgênica junto com o gene de interesse comercial. Especialmente
do código genético de um organismo que ataca as nossas células injetando
o código genético dele, o vírus. Os alimentos transgênicos não possuem
"um gene inserido", o correto é dizer "vários genes de
diferentes organismos inserido".
Um dos trechos amplamente usado é o CaMV35S, de um vírus que tem semelhança
genética com o vírus do HIV, Leucemia Humana e Hepatite B. Atua como
promotor de expressão genética, obrigando o gene de interesse comercial a
trabalhar intensamente. Este trecho, por estar presente em praticamente
todos os transgênicos, é usado como marcador em analise de transgenia em
alimentos.
Em 1997, a equipe do cientista alemão Doerfler demonstrou que este trecho
de DNA de vírus, o CaMV35S, passa pela barreira intestinal, entra na
corrente sanguínea e liga-se ao código genético de algumas células do
consumidor.
Este comportamento foi observado apenas em alimentos transgênicos devido a
presença de trechos especiais de DNA geneticamente instável, não
encontrado em alimentos naturais. Alguns cientistas têm apontado que o gene
promotor derivado do vírus CaMV pode constituir-se em perigo para a saúde,
possivelmente perigo de câncer.
Cientistas ligados os PSRAST (Médicos e Cientistas para o uso Responsável
da Ciência e Tecnologia) - www.psrast.org
- afirmam: "como este DNA viral pode terminar em nossas células, não
podemos considerar sensato aprovar tal comida sem descobrir se é seguro
ingerir uma quantidade tão grande deste gene de vírus, como ocorre quando
comemos alimentos transgênicos."
O Institute of Science in Society - www.i-sis.org.uk
- criou um manifesto em repudio à liberação dos transgênicos e pela
defesa da agricultura orgânica sustentável que conta com a assinatura de
567 cientistas de 69 diferentes países.
Podemos entender agora, com estas informações, a razão pelo repudio tão
grande aos alimentos modificados geneticamente e a sua proibição ou fortes
restrições aplicados em inúmeros países como China, Rússia, Japão e
União Européia.
Podemos entender também a razão da rotulagem, exigido na Europa, da carne
do animal que comeu transgênico. O código genético do alimento transgênico
é encontrado nos músculos e órgãos internos do animal alimentado com ração
geneticamente modificada.
Afinal, com tanta oposição qual a razão de investir tanto na tentativa de
liberação destes alimentos, mesmo sem testes de segurança alimentar?
A planta transgênica é considerada um organismo artificial. Por ser criada
por um empresa pode ser patenteada. Para plantar um organismo patenteado o
agricultor deve pagar o preço da semente e mais uma taxa pelo uso da
tecnologia. Devido a contaminação das espécies naturais com os genes dos
transgênicos, através da polinização, as plantas naturais contaminadas
tornam-se organismos cobertos por uma patente e o agricultor sujeito a ser
processado pelo uso da tecnologia.
Mentira enorme essa de aumento de produção, mais nutritivos ou redução
do uso de venenos. O objetivo é dominar todos os agricultores do mundo
através da patente das plantas cultivadas como o arroz, feijão, trigo,
batata. Iniciaram pelas quatro plantas mais cultivadas em todo o mundo:
milho, soja, batata e algodão.
A introdução dos transgênicos no Brasil significaria um lucro estimado em
bilhões para estas empresas multinacionais. Enquanto esta liberação não
acontece, a produção de soja e milho não transgênico coloca o Brasil em
grande vantagem no mercado internacional, conseguindo até mesmo incentivos
e preços maiores para o nosso produto. O lucro, por enquanto, está ficando
com os agricultores brasileiros.
Contatos
com o autor: venturasbarbeiro@ig.com.br
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