O
novo Brasil de sempre
EVELYN BERG
IOSCHPE O que o país de Lula
tem de novo é o esforço para emplacar uma cultura da confiança, e
isso não é pouco
A conquista de
legitimidade levou ao aprofundamento das relações horizontais: é preciso
gerar comitês, conselhos, forças-tarefas, debates com o público e o que mais
se puder imaginar para criar o que Tarso Genro está chamando de consertação
social e que, num primeiro momento, respondia pelo título um tanto altissonante
de "pacto social". Evelyn
Berg Ioschpe, 54, socióloga e jornalista, é presidente da Fundação
Ioschpe e do Instituto Arte na Escola.
Teu milho está mais maduro
hoje. O meu estará amanhã. É vantajoso para nós dois que eu te ajude a colhê-lo
hoje e que tu me ajudes amanhã. Não tenho amizade por ti e sei que também não
tens por mim. Portanto não farei nenhum esforço em teu favor. Sei que, se eu
te ajudar, esperando alguma retribuição, certamente me decepcionarei, pois não
poderei contar com tua gratidão. Então, deixo de ajudar-te e tu me pagas na
mesma moeda. As estações mudam. E nós perdemos parte de nossas colheitas por
falta de confiança mútua.
David Hume
O que, exatamente é novo no país de Lula? Novos personagens, com novos códigos,
nova linguagem -tudo isso é novo e mobiliza a curiosidade do cidadão. A
desenvoltura do líder da equipe, que surpreende na alegria com o poder que nem
a liturgia do cargo obscurece, fez com que a novidade acabasse em muito pouco
tempo.
Num país de forte verticalização na cultura política, em que o
"coronel" foi substituído pelo "painho" e este pelo
"patrão", temos agora o antipatrão dirigindo os destinos do país. A
equipe que preparou essa transição tinha consciência da empreitada: a
sociedade não deposita confiança automaticamente em seus líderes, sobretudo
se estes provêm de um extrato social que ao longo da história não gerou
governantes.
O que é novo no jeito Lula de ser Brasil é justamente isso: como a confiança
não está dada, ela precisa ser construída. Passo a passo. Falando com todos
os interlocutores, e não só com os interlocutores institucionalizados no
Brasil do século passado. Na verdade, o Brasil do milênio passado -em nosso
imaginário, uma longa transição ocorreu num curtíssimo espaço de tempo.
Novo é o pressuposto desta elite dirigente (sim, trata-se da elite dirigente)
de que é possível, sim, estabelecer com os cidadãos um nível de confiança
que dê lastro à governabilidade. O Brasil vivencia historicamente um baixo nível
de confiança entre pessoas e instituições que se expressa na desfaçatez com
que o clientelismo é praticado. Os políticos, ao trocarem convicções por
cargos, estão dizendo que, entre eles, não há confiança numa confiança no
projeto de nação. Cada qual defende o seu quinhão de acesso ao poder.
A baixa confiança que vem acompanhando nossa história explica a passividade e
o conformismo que nos acostumamos a identificar como traços constitutivos de
nossa nacionalidade. O indivíduo que não tem confiança nas instituições
internalizou a idéia de que a crítica é inútil, pois não será ouvida e,
portanto, não tem eficácia; de que as instituições são dominadas por grupos
auto-referenciais que funcionam tendo como razão de ser não o bem comum, mas a
perpetuação de seus privilégios.
O que o país de Lula tem de novo é o esforço para emplacar uma cultura da
confiança, e isso não é pouco. Se políticos, empresários, trabalhadores,
acadêmicos, intelectuais, artistas e estudantes chegarem a acreditar que podem
depositar confiança uns nos outros, o que equivale a dizer que todos podem
depositar confiança no desejo de todos -construir um país melhor para todos-,
estará criado o que o sociólogo americano James Coleman chama de capital
social, o único que não se gasta com o uso.
O conceito diz respeito à capacidade de as pessoas trabalharem juntas, visando
objetivos comuns a partir de uma confiança fundamental no compartilhamento
desses objetivos. Como explica Antonio Carlos Gomes da Costa, o teórico do
terceiro setor, para florescer e dar frutos, o capital social precisa de uma
cultura de confiança que se traduza na prática cotidiana da cooperação. O
inverso também é verdadeiro: fisiologismo, clientelismo, burocracia,
formalismo e passividade precisam ser entendidos como entraves para chegar lá.
A mudança de padrão cultural é, possivelmente, a mais lenta de todos as mudanças.
O ser humano é complexo e movido por impulsos egoístas que visam a sua
autopreservação. Esse comportamento só será substituído por um impulso
altruísta se o indivíduo aprender que, por meio da colaboração, poderá
chegar a melhores resultados.
O Brasil de Lula oferece uma oportunidade rara. Ao deslocar antigas oligarquias
e certezas, apresenta um olhar novo sobre o de sempre. É uma janela de
oportunidade: as pessoas são as mesmas, o mesmo milho cresce no campo, os
mesmos buracos na estrada. Só que tudo isso foi colocado em perspectiva e a
platéia subiu ao palco. Num átimo, a janela se fechará novamente. Basta que
os cargos voltem a ser loteados, que os poderosos de ocasião utilizem a
instituição com o objetivo primeiro de engordar o seu patrimônio pessoal para
que cada um se volte sobre seu quintal para garantir única e exclusivamente sua
própria plantação. E que esse capital social incipiente gerado pela
solidariedade dos novos tempos se esvaia nas dobras do Brasil de sempre.