Ivan Illich - A obsessão da
saúde perfeita
Illich, recém falecido c/76 anos em Bremen (onde era professor
universitário) em dezembro passado, foi um dos maiores mestres
contemporâneos da busca do novo e do alternativo, sendo um dos
grandes precursores dos novos paradigmas convivenciais. Penso que
muitos devem se lembrar dos seus livros "Nemesis da
medicina", ou "Sociedade sem escolas".
Coerente c/suas idéias, apesar de condenado pelos médicos
recusou-se a tratar um câncer da forma convencional (quimioterapia,
internações hospitalares), tendo uma sobrevida "normal"
de mais de 10 fecundos anos. Manteve-se lúcido e produtivo até a
noite em que morreu dormindo. Meus cunhados em Bremen (2 deles
médicos) puderam partilhar um pouco da intimidade deste sábio, o
qual tinha muito interesse pelo que ocorria no Brasil (falava
fluente e sem sotaques o portugues, além de mais de uma dúzia de
outras línguas).
O sistema médico cria
incessantemente novas necessidades terapêuticas. Mas quanto maior a
oferta de saúde, mais as pessoas crêem que têm problemas,
necessidades, doenças. Elas exigem que o progresso supere a
velhice, a dor e a morte. Isso equivale à própria negação da
condição humana. |

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Quando se considera a dimensão histórica da medicina -- ou seja, a
medicina na história do mundo ocidental -- é inevitável começar
pela cidade de Bolonha, na Itália. Foi lá que a ars medendi et
curandi se separou, enquanto disciplina, da teologia, da
filosofia e do direito. Foi lá que, a partir da seleção de uma
pequena parte dos textos do médico grego Galeno (131-201), o corpo
da medicina estabeleceu sua soberania sobre um território distinto
daquele de Aristóteles ou de Cícero. Foi na cidade de Bolonha que
a disciplina que tem por objetivo o estudo da dor, da angústia e da
morte foi reintegrada aos domínios da sabedoria; e que se deu a
fragmentação, jamais feita no mundo islâmico, onde o título de Ha-kim
significa, simultaneamente, o cientista, o filósofo e o curandeiro.
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| Foi
na cidade de Bolonha que a disciplina que tem por objetivo o estudo
da dor, da angústia e da morte foi reintegrada aos domínios da
sabedoria; e que se deu a fragmentação, jamais feita no mundo
islâmico, onde o título de Ha-kim significa,
simultaneamente, o cientista, o filósofo e o curandeiro. |
Concedendo autonomia universitária ao saber
médico e instituindo ainda a autocrítica da sua prática graças
à criação do protomedicato, Bolonha construiu os alicerces
de um empreendimento social eminentemente ambíguo, uma
instituição que, gradativamente, fez esquecer as situações nas
quais deve-se enfrentar o sofrimento, ao invés de eliminá-lo, e
aceitar a morte, ao invés de recusá-la.
É verdade que a tentação de Prometeu desde
cedo esteve presente na medicina. Antes mesmo da fundação da
Universidade de Bolonha, em 1119, médicos judeus da África do
Norte contestavam o distanciamento dos médicos árabes na hora
fatal. E foi preciso muito tempo para que essa regra desaparecesse.
Em 1911, data da grande reforma das escolas de medicina
norte-americanas, ainda se ensinava como reconhecer a "face
hipocrática", os sintomas que fazem um médico saber que ele
não tem mais um paciente diante de si, mas um moribundo.
Este realismo pertence ao passado. No entanto,
visto a quantidade de não-mortos graças a tratamento médico, bem
como sua angústia modernizada, já está passando da hora de
renunciarmos à tentativas de curar a velhice. Seria preciso tomar
uma iniciativa, preparar o retorno da medicina ao realismo que
subordina a técnica à arte de saber sofrer e de saber morrer.
Poderíamos fazer soar o alarme, para que se compreenda que a arte
de celebrar o presente ficou totalmente paralisada por aquilo que se
tornou a busca da saúde perfeita.
A aversão pela arte do
sofrimento
Para falar dessa "saúde" metáfora,
deve-se levar em conta dois aspectos. Assim como a noção de
saúde, também a metáfora é histórica. O primeiro aspecto
deveria ser evidente. Foi o ensaísta Northrop Frye que me fez
compreender o segundo. A metáfora tem uma conotação completamente
diferente para o grego, que a associa à deusa Higéia, para o
cristão primitivo, que a associa à deusa Hígia, e para o cristão
medieval, convidado por ela à salvação através de um único
Criador e Salvador crucificado. Mas ela é ainda diferente na medida
em que cria necessidades de medicação num mundo impregnado pelo
ideal instrumental da ciência. Na medida em que aceitamos tamanha
historicidade da metáfora, convém perguntar se, nesses últimos
anos do milênio, ainda é legítimo falar em metáfora social. |
| Poderíamos
fazer soar o alarme, para que se compreenda que a arte de celebrar o
presente ficou totalmente paralisada por aquilo que se tornou a
busca da saúde perfeita. |
Eis a minha tese: em meados do século XX, aquilo
que implica na noção de uma "busca da saúde" tinha um
sentido totalmente distinto daquele que tem hoje. Segundo a noção
que prevalece hoje, o ser humano que precisa de saúde é
considerado um subsistema da biosfera, um sistema imunológico que
é preciso controlar, regrar, otimizar: "uma vida". Não
se trata de esclarecer o que constitui a experiência de "estar
vivo". Por sua redução a "uma vida", o indivíduo
cai num vazio que o asfixia. Para se falar de saúde em 1999, é
necessário compreender a busca da saúde como o oposto da busca
pelo sadio, como uma liturgia social a serviço de um ídolo que
extingüe o sujeito.
Em 1974, escrevi o livro Nêmesis da medicina.
No entanto, eu não havia escolhido a medicina como tema, e sim como
exemplo. Com esse livro, eu queria prosseguir um discurso já
começado sobre as instituições modernas enquanto cerimônias
criadoras de mitos, de liturgias sociais que celebram certezas.
Examinei a escola (Nota dos editores: ler "Uma sociedade sem
escolas, de Ivan Ilich), os transportes e a habitação, para
compreender suas funções latentes e inevitáveis -- aquilo que
proclamam, bem mais do que aquilo que produzem: o mito do Homo
educandus, o mito do Homo transportandus, enfim, o homem
enclausurado.
Escolhi o exemplo da medicina para ilustrar
diferentes níveis da contra-produtividade característica de todas
as instituições do pós-guerra, de seu paradoxo técnico, social e
cultural. No plano técnico, a sinergia terapêutica que produz
novas doenças; no plano social, o desenraizamento produzido pelo
diagnóstico que assombra o doente, o idiota, o ancião e até o
moribundo. E principalmente, no plano cultural, a promessa do
progresso que leva à recusa da condição humana e à aversão pela
arte do sofrimento.
Do corpo físico ao corpo
fiscal |
| Segundo
a noção que prevalece hoje, o ser humano que precisa de saúde é
considerado um subsistema da biosfera, um sistema imunológico que
é preciso controlar, regrar, otimizar: "uma vida". Não
se trata de esclarecer o que constitui a experiência de "estar
vivo". |
O livro Nêmesis da medicina começava com
estas palavras: "A empresa médica é uma ameaça à
saúde." Naquela época, uma afirmação dessas podia por em
dúvida a seriedade de seu autor, mas tinha também o poder de
provocar o estupor e a raiva. Hoje, vinte e cinco anos depois, eu
não utilizaria mais aquela frase, por dois motivos. Os médicos
perderam completamente o controle do sistema de saúde. Se
porventura houver um clínico entre seus dirigentes, ele aí estará
para legitimar a reivindicação do sistema, de melhorar as
estatísticas da saúde. Além do mais, essa "saúde" nem
sequer é percebida. Trata-se de uma "saúde" paradoxal. A
"saúde" significa uma excelência cibernética. Ela é
concebida como um ponto de equilíbrio entre o macro-sistema
socio-ecológico e a população de seus subsistemas de tipo humano.
Submetendo-se à otimização, o sujeito nega a si próprio.
Hoje, eu começaria minha argumentação dizendo:
"A busca da saúde tornou-se o fator patogênico
predominante." E eis-me frente a frente com um tipo de
contra-produtividade com a qual eu nem poderia sonhar quando escrevi
o Nêmesis.
Este paradoxo torna-se evidente quando se
examinam os relatórios sobre os progressos no sistema de saúde.
Eles exigem uma leitura dupla, como se o leitor fosse um Janus, o
deus romano de duas caras. Com o olho direito, fica-se estarrecido
pelas estatísticas da mortalidade e da morbidade, cuja queda é
interpretade como resultado do atendimento médico; com o olho
esquerdo, não conseguimos evitar a leitura de estudos
antropológicos que sempre propõem respostas à pergunta: como vai?
Não é mais possível deixar de perceber o
contraste entre a saúde pretensamente objetiva e a saúde
subjetiva. O que se observa? Quanto maior a oferta de
"saúde", mais as pessoas respondem que têm problemas,
necessidades e doenças, exigindo garantias contra os riscos.
Enquanto isso, nas regiões ditas iletradas, os
"subdesenvolvidos" aceitam sem problema a sua condição.
A resposta que dão à pergunta "Como vai?" é: "Até
que para minha condição, minha e idade e meu carma, eu vou
bem..." E tem mais: quanto mais a oferta de toda a
parafernália clínica resultar num engajamento político da
população, mais intensamente é percebida a falta de saúde. Ou
seja: a angústia mede o nível de modernização, e mais ainda o de
politização. A aceitação social do diagnóstico
"objetivo" tornou-se patogênica do ponto de vista
subjetivo. |
| Não
é mais possível deixar de perceber perceber o contraste entre a
saúde pretensamente objetiva e a saúde subjetiva. O que se
observa? Quanto maior a oferta de "saúde", mais as
pessoas respondem que têm problemas, necessidades e doenças,
exigindo garantias contra os riscos. |
E são precisamente os economistas que defendem
uma economia social orientada pelos valores da solidariedade que
tomam como objetivo promordial o direito igualitário à saúde.
Logicamente, eles são forçados a aceitar patamares econômicos
para todos os tipos de cuidados individuais. E neles que se
encontrauma interpretação ética da redefinição do patológico
se produz no interior da medicina. A redefinição da doença
acarreta, segundo o professor Sajay Samuel, da Universidade de
Bucknell, "uma transição do corpo físico para um corpo
fiscal". E, de fato, os critérios selecionados que classificam
este ou aquele caso como passível de tratamento clínico-médico
são cada vez parâmetros financeiros.
Auscultar no lugar de ouvir
Do ponto de vista histórico, o diagnóstico
teve, durante séculos, uma função eminentemente terapêutica. O
fundamental do encontro entre o médico e o paciente era verbal.
Até o início do século XVIII, a consulta era basicamente uma
conversa. O paciente falava, contando com uma escuta privilegiada da
parte do médico. Ele ainda sabia falar do que sentia -- um
desequilíbrio em seus humores, uma alteração no fluxo
sangüíneo, uma desorientação nos sentidos ou o surgimento de
perigosos coágulos. Quando se lê o diário de um médico qualquer
da época barroca (séculos XVI e XVII), descobre-se em cada pequena
anotação uma autêntica tragédia grega. A arte médica era a da
escuta. O médico assumia o comportamento que, na sua Poética,
Aristóteles - divergindo de seu mestre, Platão - exigia do
público presente à apresentação da peça. Aristóteles era
trágico pelas inflexões que dava à sua voz, pela sua melodia e
por seus gestos, e não apenas por suas palavras. É dessa forma que
o médico responde mimeticamente ao seu paciente. Para o paciente,
esse diagnóstico mimético tem uma função terapêutica.
Mas essa ressonância não tardaria a
desaparecer: ouvir deu lugar a auscultar. A ordem dada dá lugar à
ordem construída -- e isso, é claro, não somente na medicina. A
ética dos valores substitui a do bem e do mal, a segurança do
saber desclassifica a verdade. Na música, a consonância escutada,
que poderia revelar a harmonia cósmica, desaparece sob o efeito da
acústica, uma ciência que ensina como fazer sentir as curvas
sinusoidais nos tons médios. |
| Até
o início do século XVIII, a consulta era basicamente uma conversa.
O paciente falava, contando com uma escuta privilegiada da parte do
médico. Ele ainda sabia falar do que sentia. |
A transformação do médico que escuta uma
queixa em médico que atribui uma patologia alcança seu ponto
culminante a partir de 1945. O paciente é levado a olhar para si
próprio em escala médica, é obrigado a se submeter a uma
autópsia (no sentido literal da palavra): olhar para si com seus
próprios olhos. Ao se autovisualizar, ele renuncia a se sentir. As
radiografias, as tomografias e mesmo a ecografia da década de 70
ajudam-no a identificar-se com os quadros anatômicos que, na sua
infância, via nas salas de aula. A consulta a um médico passa,
portanto, a servir para desencarnar o ego. Seria impossível passar
a analisar a saúde e a doença, enquanto metáforas sociais, às
vésperas do ano 2000, sem que compreendêssemos que essa
auto-abstração imaginária do ritual médico também pertence ao
passado. O diagnóstico já não se limita a fornecer uma imagem que
se pretende realista, mas um emaranhado de curvas de probabilidades
-- tudo organizado de perfil.
O trabalho frio do cálculo
Não basta ter olhos para ler um diagnóstico.
Agora, exige-se do paciente um frio cálculo. Em sua maioria, os
elementos que compõem o diagnóstico não medem mais este
indivíduo concreto. Cada informação situa o seu caso numa
"população" diferente e indica uma eventualidade sem
denominar o sujeito. A medicina colocou-se fora daquela área em que
se seleciona o que é bom para um paciente concreto. Para decidir o
tipo de serviço que lhe oferecerá, ela obriga o diagnosticado a
uma espécie de jogo de pôquer.
Vou tomar como exemplo a consulta genética
pré-natal, tema estudado a fundo por uma colega, a pesquisadora
Silja Samerski, da Universidade de Tübingen. Eu não teria
acreditado no que vi se não fosse pelo estudo de dúzias de
prontuários referentes a consultas feitas pelas mais variadas
categorias de mulheres na Alemanha. As consultas são feitas por um
médico com quatro anos de especialização em genética. Ele se
abstém rigorosamente de toda e qualquer opinião para não ter o
destino de um médico de Tübingen, condenado pela Corte Suprema em
1997 a subsidiar, por toda a sua vida, a criação de um menino
deficiente: antes do parto, ele havia dito à mãe da criança que a
probabilidade de que ela nascesse deficiente não era grande, quando
deveria ter se limitado a informar-lhe numericamente quais os
riscos. |
| A
transformação do médico que escuta uma queixa em médico que
atribui uma patologia alcança seu ponto culminante a partir de
1945. O paciente é levado a olhar para si próprio em escala
médica, é obrigado a se submeter a uma autópsia (no sentido
literal da palavra): olhar para si com seus próprios olhos. Ao se
autovisualizar, ele renuncia a se sentir. |
Nas entrevistas a que me referia antes, passa-se
da informação sobre a fecundação e de uma síntese das leis de
Mendel à construção de uma árvore genético-heráldica, para
chegar ao inventário dos perigos e a um passeio por um jardim de
"monstruosidades". E a cada vez que a mulher pergunta se
isso poderia acontecer com ela, o médico lhe responde: "Minha
senhora, nem isso pode ser excluído com absoluta certeza." Mas
é evidente que uma resposta dessas deixa inquietações. A
cerimônia tem um efeito simbólico inevitável: força a mulher
grávida a tomar uma "decisão", identificando-se ela
própria e o feto que carrega com uma configuração de
probabilidades. Não falo da decisão pró ou contra a continuação
da gravidez, mas da mulher ser forçada a identificar a si própria
e à criança que ainda não nasceu com uma
"probabilidade". Ou seja: identificar essa opção com um
bilhete de loteria. Reduzir a sua decisão a um oxímoro, a uma
escolha que se pretende humana mas que é enclausurada na
inumanidade dos números. E eis-nos frente a frente a uma situação
que já não é a da desencarnação do ego, mas a da negação da
unicidade do sujeito, do absurdo que consiste em assumirmos riscos
como se fôssemos um sistema estatístico, um modelo contábil.
A pessoa que busca a consulta torna-se o
psicopompo (o condutor das almas dos mortos) de uma liturgia de
iniciação ao grande saber estatístico. E tudo isso em nome da
"busca pela saúde".
No ponto a que chegamos torna-se impossível
tratar a saúde como metáfora. As metáforas são trajetos de uma a
outra margem da semântica. Por sua natureza, elas mancam. Mas, por
sua essência, lançam luz sobre o ponto de partida da travessia. E
isso deixa de ocorrer quando a saúde passa a ser concebida como a
otimização de um risco. O abismo que existe entre o somático e o
matemático não o permite. O ponto de partida não tolera a carne
nem o ego. A busca pela saúde dissolve ambos. Como dar corpo ao
medo quando se é privado da carne? Como evitar ficar à deriva de
decisões suicidas? O jeito é rezarmos: "Não nos deixeis
sucumbir ao diagnóstico, mas livrai-nos dos males da
saúde..."
Tradução de Jô
Amado.
Ivan Illich é ensaísta e escritor, autor, entre outros,
de "Libérer l'avenir", ed. Seuil, Paris, 1971. Ler "
Entretiens avec Ivan Illich", de David Cayley, ed. Bellarmin
Saint-Laurent, Québec, 1996. |
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