O Pentágono alerta sobre mudança
climática
Por Stephen Leahy
Toronto, 17/2/2004 - O Pentágono - o poderoso Departamento
de Defesa dos Estados Unidos - mostra grande preocupação com a mudança climática,
fenômeno que o governo de George W. Bush tenta minimizar. Washington deve
preparar-se para rechaçar ondas de refugiados ambientais famintos procedentes
do México, da América do Sul e do Caribe, segundo um relatório encomendado
pelo secretário Donald Rumsfeld. Tempestades, inundações e cheias do mar mais
intensas, bem como prolongadas secas na África e na Ásia, originarão guerras
pelo fornecimento de alimentos, água e energia, segundo o estudo, publicado
pela revista norte-americana Fortune, especializada em economia.
O Pentágono entregou à revista o estudo elaborado por
analistas independentes Peter Schwartz e Doug Randall, da Rede Mundial de Empresários,
para que o setor privado comece a levar a sério a ameaça da mudança climática,
segundo observadores. Schwartz e Randall não responderam aos pedidos de
entrevista feitos pela IPS. A mudança climática esteve por muito tempo
vinculada a ciclos graduais e lentos de 50 a cem anos, mas cada vez mais evidência
atribui as características aceleradas do fenômeno à liberação na atmosfera
dos chamados gases causadores do efeito estufa.
A maioria desses gases é produzida pela queima de combustíveis
fósseis - como petróleo, gás e carvão - em processos industriais e de
transporte, e ao impedir a saída dos raios de sol pela atmosfera elevam a
temperatura do planeta. Porém, o governo Bush questionou os cálculos da
maioria dos cientistas do mundo, quando em 2001 retirou a assinatura dos Estados
Unidos do Protocolo de Kyoto da Convenção Internacional sobre Mudança Climática.
Esse tratado, firmado pelo antecessor de Bush, Bill Clinton,estabelece metas e
compromissos dos países do Norte industrial para a redução das emissões de
gases que causam o efeito estufa. A retirada da assinatura dos Estados Unidos
coloca em risco todo o processo.
A pesquisa de gelos no Ártico e em outras regiões revela
mudanças abruptas em alguns poucos anos, informou Raymond Schmitt, cientista do
Instituto Oceanográfico Woods Hole, do estado de Massachusetts (EUA). Modificações
do clima semelhantes ocorreram há 1.300 anos, em uma espécie de era glacial.
Outra mudança radical foi o registrada no período conhecido como "pequena
era glacial", marcado por invernos duros, tempestades violentas e secas,
concluído no século XIX. A causa destes grandes fenômenos de mudança climática
está nas modificações das correntes no oceano Atlântico, cujo fluxo desde o
círculo Ártico, onde esfria, regressa ao sul pelo fundo do mar.
Chamada de "esteira transportadora do Atlântico",
esta corrente oferece permanentemente águas quentes e, assim,maiores
temperaturas ao leste norte-americano e à Europa setentrional. Isso explica
porque a temperatura da Grã-Bretanha é relativamente temperada apesar de estar
na mesma latitude que a fria Labrador, no leste do Canadá. Se essa esteira
transportadora atlântica diminuir haverá menos água quente para as regiões
setentrionais, o que reduziria a temperatura, tal como ocorreu durante e
"pequena era glacial". O aquecimento do planeta está dissolvendo os
gelos árticos, o que, além de aumentar a massa de água fria que se dirige ao
oceano Atlântico setentrional, pode reduzir a esteira transportadora, disse
Schmitt em uma entrevista. "Paradoxalmente, um aumento da temperatura
mundial colocaria o norte da Europa no congelador",acrescentou.
Para compreender o fenômeno, o Pentágono perguntou aos
cientistas - não identificados no artigo publicado pela fortune - o que
aconteceria se a esteira transportadora começasse a falhar em 2010. Nesse período,
responderam, a temperatura média cairia 3,5 graus na Europa e 2,8 graus na América
do Norte. Secas maciças afetariam regiões agrícolas-chave. A média de chuvas
na Europa setentrional diminuirá em quase 30% e o clima dessa região se
assemelhará ao da Sibéria. Por outro lado, tempestades violentas, grandes
inundações e secas obrigariam 400 milhões de pessoas a abandonarem regiões
que se tornariam inabitáveis, acrescenta o relatório. A redução da
produtividade agrícola européia terá um enorme impacto na segurança
alimentar mundial, disse Lester Brown, da ONG Earth Policy Institute.
"O clima quente e os bons solos da França permitem a
esse país produzir mais cereais do que todo o Canadá", mas, com os
modelos desenvolvidos pelos cientistas contratados pelo Pentágono, isso mudaria
drasticamente. a produção mundial de grãos já está em queda, e uma grande
mudança climática seria desastrosa, disse Brown à IPS. "Isso
desestabilizaria os países e a economia mundial", afirmou. assim, não foi
surpresa, o fato de o relatório do Pentágono apresentar um futuro cheio de
conflitos em torno de recursos minguantes.Além disso, adverte que o clima nos
Estados Unidos também mudará, afetando a economia.
O principal desafio de Washington será conter os refugiados
ambientais que procurarão, desesperados, melhores condições de vida no país
norte-americano, para o que o relatório recomenda ao governo fortificar as
fronteiras. As migrações também afetarão a Europa, pois os habitantes do
norte do continente se dirigirão ao sul, igual às ondas de pessoas originárias
da África setentrional. A seca e a desertificação já estão gerando
refugiados ambientais, disse Brown. Barcos carregados de africanos tentam
desembarcar na Itália, Grécia,França e Espanha, e desesperados haitianos
procuram chegara os Estados Unidos. "Temos grandes desafios no futuro,
mesmo sem uma mudança climática abrupta", concluiu Brown.