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PERIGO ASIÁTICO Ulisses Capozzoli (*) As duas primeiras vítimas políticas da Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars, em inglês) foram registradas pela imprensa internacional no domingo (20/4): o ministro da Saúde chinês Zhang Wenkang e o prefeito de Pequim, Meng Xuenong, foram demitidos de seus cargos sem explicações formais. O governo chinês ameaça com punições severas quem ocultar casos envolvendo a contaminação, depois de ter sido o principal responsável pela sonegação de dados envolvendo a propagação da doença que num único dia (sábado, 19/4) matou 12 pessoas e contaminou outras 31 em Hong Kong, no sudeste do país. Os dados só começaram a aparecer, com relutância, por pressão da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em Pequim, até aquele sábado, os números falavam em 44 casos confirmados. No domingo, houve um salto para pelo menos 346, com outros 402 suspeitos. É uma situação na qual estatísticas são definidas por interesses políticos e econômicos, no segundo caso envolvendo especialmente o turismo. É também um exemplo claro de que interesses políticos são precedidos de qualquer outro, mesmo a preservação da vida, pouco importa a cor ideológica dos governos. Racionalidade científica Fatos como a propagação da pneumonia atípica, a caracterização jornalística da Sars, e o bombardeio recente de Bagdá, produzindo um exército de miseráveis desamparados, amputados e psicologicamente traumatizados, com mínima repercussão na mídia, deveriam fazer com que a população letrada e com acesso a livros passasse os olhos sobre o que os anarquistas escreveram sobre tudo isso. O anarquismo, no Brasil graças ao pensamento raso por parte da imprensa e de outros formadores de opinião como empresários e políticos, é sinônimo de inconseqüência e caos, como se a única organização social possível, centralizada no Estado, não fosse a que mais degrada a dignidade humana. Piotr Kropotkin (1842-1921), príncipe, soldado e geógrafo russo, abriu mão e sua posição social e carreira científica, entre outros benefícios, para se tornar um proscrito em nome da justiça social. Como um dos teóricos do "comunismo anarquista", esteve na linha de frente (para usar uma expressão atualizada) do movimento que manteve a efervescência do pensamento socialmente comprometido na Europa entre fins do século 19 e início do 20. Em O Anarquismo, escrito para a 11ª edição da Enciclopédia Britânica, Kroptkin refere-se a outros anarquistas históricos, entre eles Tolstoi, que, em O reino de Deus está entre nós, faz uma violenta crítica à igreja, ao Estado e ao direito. Para o autor de Guerra e Paz, o estado "é a dominação dos perversos apoiados pela força bruta". Quem se interessar por detalhes ou por uma visão mais ampla do anarquismo tem em Os grandes escritos anarquistas, de George Woodcock, editado no Brasil pela LPM, uma fonte criteriosa de informação. Certamente que o anarquismo não tem as soluções para o mundo. O mundo, enquanto mundo dos homens, é algo sem solução. O homem desconhece de onde veio e para onde vai. Suas atitudes, de alguma maneira, são todas conseqüências dessa ausência de identidade. Em A História como Sistema, Ortega y Gasset escreveu que "a razão físico-matemática, na sua forma crassa de naturalismo, ou na sua forma beatífica de espiritualismo", mal pode enfrentar os problemas humanos. E a razão disso é justamente porque… "…o homem não tem natureza. O homem não é seu corpo, que é uma coisa; nem é sua alma, psique, consciência ou espírito, que também são uma coisa. O homem não é coisa alguma, mas um drama – sua vida é um puro e universal acontecimento, que acontece a cada um, e, onde para cada um, não é mais que acontecimento". É preciso recuperar alguma ordem, encontrar um sistema novo, onde o homem faça sentido. No passado, o trabalho proporcionou este sentido ao homem. As guildas, associação de mutualidade na Idade Média, reunindo corporações de operários, artesãos, artistas e mesmo negociantes, transmitiam essa noção de ordem pelo trabalho. Mais especificamente pela qualidade do trabalho e o prazer que flui dessa criação. Com a especialização atribuída, mas também exigida pelas máquinas, a produção subiu rapidamente, mas o trabalho perdeu o poder de dar sentido para o mundo pela criação: uma sela artística, um quadro, um livro copiado, uma peça de seda comprada no Oriente. Justamente por isso, as raízes históricas do anarquismo estão na dissolução das guildas. Com a Revolução Francesa, o anarquismo desenvolveu certa racionalidade científica, mas a essência de seus propósitos sempre esteve numa busca de sentido para o homem numa interação incessante entre indivíduo e coletividade. Essa talvez seja a melhor explicação para o fato de o homem ser um "animal político". Fonte de recursos A pneumonia atípica está nas manchetes dos jornais de todo o planeta por se tratar de um pandemia. Uma pandemia é uma epidemia que se alastra pelo mundo e não se restringe a áreas específicas. Há uma razão mais seletiva por trás disso, que talvez não se possa enxergar à primeira vista. Não que deva haver relaxamento sanitário de fronteiras. Mas porque as dificuldades de saúde pública que ameaçam o planeta não estão só aí. A Aids, justamente na China, é outro dos problemas. E quase não aparece nos jornais. A diferença é que a Aids pode, de alguma forma, ser confinada. Exige certa intimidade entre pessoas para se propagar. A Sars manifesta-se de outra maneira e os pesquisadores científicos ainda estão tentando compreender claramente como isso acontece. Condições deprimentes, no interior da China, fazem com que transfusões de sangues ocorram diretamente entre doador/receptor com afinidades bioquímicas. Além disso, o mercado de sangue humano é uma fonte de recursos. Alguém pode retirar uma porção de seu sangue e, se não puder negociar todo o volume, reintroduzir o que sobrou. Assim terá como fazer nova oferta, em um período de tempo mais curto. Bancos clandestinos de sangue têm sido destruídos pelo governo chinês. Há índices elevados de contaminação por outras infecções, além do HIV. Mas nada indica que isso vá pôr fim às práticas. Na China há também, uma ameaça crescente por parte das drogas injetáveis. Povos (então) isolados Na África, onde está metade dos soropositivos do planeta, muitas localidades perderam suas lideranças, abatidas pela doença. Escolas ficaram sem professores e comunidades órfãs de líderes. O que não impediu a indústria farmacêutica multinacional de ameaçar com processo legal a África do Sul, quando esse país decidiu, há três anos, quebrar as patentes para produzir medicamentos mais baratos, ao alcance de maior número de pessoas. A pressão da opinião pública internacional fez com que a indústria recuasse. Mas foi um recuo tático. Não que se tenha desistido dos propósitos. O Brasil tem méritos nessa área e eles devem ser reconhecidos para estimular a continuidade, ampliação e os aperfeiçoamentos necessários. A política de saúde para a Aids, embora não seja perfeita, é reconhecida como das mais eficientes em todo o mundo. E as vacinações em massa, de uma população dispersa, num território imenso, eliminaram ameaças como a poliomielite e varíola. As pestes sempre perseguiram o homem. Dizimaram seu gado, levaram seus entes queridos, destruíram plantações e arruinaram cidades inteiras, antes que tivessem suas causas conhecidas. No caso da Sars, trata-se de um vírus (coronavírus), como são chamados os agentes infecciosos, com tamanho muito reduzido (de 20 a 250 nanômetros, contra pelo menos 400 nanômetros das menores bactérias, que podem ser combatidas por antibióticos). Os vírus têm também uma composição muito simples, com capacidade para reproduzir-se no interior de células animais, vegetais e interior de bactérias. Vírus são formados por um único ou duplo cordão de ácido nucléico coberto por uma cápsula de proteína. Alguns estão no interior de envelopes formados por lipídeos e proteínas. O ácido nucléico leva o genoma do vírus. Em infecções humanas, os vírus podem ser transportados de muitas formas. Pela corrente sangüínea, como na Aids, ou pelo ar que se respira, no caso da gripe. O agente da Sars parece ser aéreo, como o da gripe. A ruptura crescente das fronteiras nacionais e o crescimento do turismo representam uma ameaça nova a uma ordem sanitária global. Aviões capazes de dar uma volta rápida ao mundo podem transportar ameaças que ainda não foram devidamente discutidas do ponto de vista de saúde pública – e a Sars é a mais recente delas. Com os portugueses, no século 16, o mundo deixou de ser um conjunto de povos mais ou menos isolados. Neste início de século 21 somos o que McLuhan chamou de uma "aldeia global". E numa aldeia, os moradores precisam entender-se minimamente entre si. Especialmente em questões de saúde. (*) Jornalista, mestre em Ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil |