Saúde por meio das plantas

Por Maria das Graças Rodrigues Ferreira, pesquisadora da Embrapa Rondônia

Introdução

Há uma grande distorção no conceito de saúde devido a uma educação tendenciosa que tem prejudicado o homem moderno. Pesquisas na área dos medicamentos alopáticos e os interesses das grandes indústrias farmacêuticas que visam sempre grandes lucros, conduzem ao esquecimento das condições terapêuticas das plantas medicinais (Vieira, 1992). O uso dessas plantas deve ser feito com os cuidados e os conhecimentos adequados, pois existem plantas, tidas como medicinais, que são altamente tóxicas e outras com consequências colaterais imprevisíveis, como as abortivas ou como o chá das folhas de graviola (Anona muricata L.) que disfunciona o pâncreas, podendo provocar a diabetes (Albuquerque, 1989).

Saúde por meio das plantas

A utilização de plantas medicinais é uma prática generalizada na medicina popular; é o resultado do acúmulo secular de conhecimentos empíricos sobre a ação dos vegetais, por diversos grupos étnicos. No Brasil, além da assimilação dos conhecimentos indígenas, as contribuições trazidas pelos escravos e integrantes representaram papel importante para o surgimento de uma medicina popular rica e original, na qual a utilização de plantas medicinais ocupa lugar de destaque. Calcula-se que o Brasil disponha de algo entre 60 e 250 mil espécies vegetais, onde 40% delas devem conter propriedades terapêuticas (Oliveira, 1992). Nos últimos anos, alguns fatores têm contribuído para o aumento da utilização de tal recurso, mesmo em camadas sociais que até então não o empregavam: a crise econômica, o alto custo dos medicamentos industrializados, o difícil acesso da população à assistência médica e farmacêutica, bem como uma tendência generalizada dos consumidores em utilizar, preferencialmente, produtos de origem natural (Simões et al., 1995). A síntese de inúmeros medicamentos já em fase de produção tem levado os pesquisadores a sintetizar em escala industrial grande número de medicamentos existentes no arsenal médico moderno. O uso regular dos quimioterápicos sintéticos tem contribuído para evidenciar os efeitos colaterais indesejáveis de inúmeros destes medicamentos e, por outro lado, o aparecimento de novas doenças, ou a volta de outras consideradas erradicadas, tem induzido os pesquisadores a empregar substâncias de espécies vegetais e animais existentes no planeta. O uso pouco cuidadoso de plantas medicinais, fora de seu contexto original e sem respaldo acadêmico, tem originado intoxicações, atribuíveis aos efeitos já conhecidos da planta ou ainda ao uso errôneo da mesma, por confusão na identificação das espécies. A pesquisa acadêmica trouxe novos conhecimentos sobre as plantas e suas propriedades terapêuticas; essa constitui-se numa atividade sistemática de investigação com registro detalhado dos dados, de maneira a permitir sua verificação, comparação ou reprodução (Simões et al., 1995). As plantas medicinais e suas formas derivadas (extratos, xaropes, etc) constituíram durante séculos a base da terapêutica. A medicina científica desenvolveu-se e impôs-se no início deste século com as contribuições decisivas da fisiologia, farmacologia, química orgânica e da bioquímica. As sulfas e os antibióticos tiveram um grande impacto no tratamento de infecções e a cortisona no tratamento de doenças inflamatórias e alérgicas. Graças a esse sucesso no tratamento de doenças e sintomas para os quais as plantas medicinais e seus extratos exibiam pouca eficácia, a sua utilização passou a ser freqüentemente menosprezada por profissionais da área da saúde. Tal postura começou a mudar nas últimas décadas e, entre os motivos dessa mudança estão: - Grandes expectativas criadas em torno dos produtos da grande indústria, levando a crer que para cada moléstia existiria um medicamento. - Efeitos indesejáveis e prejuízos causados pelo uso correto ou pelo uso abusivo dos medicamentos produzidos sob o manto científico (talidomida, hexaclorofeno, practolol, etc). - Pesquisas de plantas medicinais utilizadas na medicina popular necessárias para o desenvolvimento de novos medicamentos (antiprotozoários, anticancerígenos, etc). - Grande parte da população não tem acesso aos medicamentos (Simões et al., 1995).

Princípio ativo - a chave da cura

Nem sempre os farmacologistas conhecem o princípio ativo presente nas ervas que o uso popular consagrou como medicinais. Sabe-se, contudo, que a maioria contém substâncias que fazem parte de seis classes (as principais) com características químicas semelhantes entre si: os alcalóides, glicosídeos cardiotônicos, os óleos essenciais, os bioflavonóides, os taninos e as mucilagens. As plantas que produzem princípios ativos desses grupos são as mais procuradas pelos laboratórios para a fabricação dos três tipos de remédios: fitoterápicos naturais (quando se utiliza a planta diretamente em forma de chá ou extrato vegetal); os homeopáticos (quando a planta é diluída, especialmente manipulada e aproveitada em quantidades mínimas); e os alopáticos (quando o princípio ativo é retirado e sofre um acréscimo de substâncias ou uma transformação química que viabiliza a produção industrial em forma de cápsulas, drágeas, colírios, pomadas ou injeções (Guia rural, 1991). Os constituintes químicos, encontrados no reino vegetal, são sintetizados e degradados por inúmeras reações anabólicas e catabólicas, que compõem o metabolismo das plantas. A síntese de compostos essenciais para a sobrevivência das espécies vegetais, como: açúcares, aminoácidos, ácidos graxos, nucleotídeos e seus polímeros derivados, faz parte do metabolismo primário das plantas. Por outro lado, os compostos sintetizados por outras vias e que aparentam pouca utilidade na sobrevivência das espécies, fazem parte do metabolismo secundário, e são denominados compostos secundários (Di Stasi, 1995). Há três pontos de origem e produção de compostos secundários, diferenciados mediante seus precursores: a) Ácido shiquímico, como precursor de inúmeros compostos aromáticos. b) Aminoácidos, fonte de alcalóides e peptídeos. c) Acetato, que através de duas rotas biossintéticas origina compostos, como poliacetilenos, terpenos, esteróides e outros. Essa cadeia de reações compõe o metabolismo das espécies vegetais, que é coordenado por uma série de enzimas e co-enzimas responsáveis pelos processos de síntese e de degradação desses compostos, os quais estarão diferentemente distribuídos nas espécies vegetais (Mann, 1987). Os compostos secundários podem estar presentes na planta o tempo inteiro ou só são produzidos mediante estímulos específicos. Então, a regulação do metabolismo secundário depende da capacidade genética da planta em responder a estímulos internos ou externos e da existência desses estímulos no momento apropriado (Martins et al., 1994).

Outras classes de substâncias

Inúmeros outros metabólitos de interesse farmacológico estão distribuídos em grupos específicos de substâncias, como esteróides, holosídeos, heterosídeos cianogenéticos, heterosídeos antracênicos, saponosídeos, xantinas, xantonas, lactonas, benzenóides, quinóides, etc (Di Stasi, 1995).

Plantas ricas em vitaminas

Apesar do avanço das ciências naturais e tecnológicas ter impulsionado a humanidade, a ciência da nutrição, comparativamente, ficou parada. Existem relativamente poucas pesquisas sobre a natureza e importância das enzimas dos alimentos ou do papel da digestão na prevenção de doenças. Grande número de pesquisas devem ser feitas para demonstrar que existem diferenças significativas entre a utilização de vitaminas sintéticas e vitaminas naturais por parte do organismo (Blauer, 1996). Muitas plantas, especialmente as alimentícias, são ricas em diversas vitaminas; contudo, algumas contém quantidades superiores de algumas vitaminas, carecendo de pesquisas relativas a seu conhecimento e emprego no combate às hipovitaminoses. No nordeste, a deficiência vitamínica mais comum, principalmente nos municípios do interior, parece ser a hipovitaminose A, cujos sintomas característicos são: a) crescimento retardado das crianças e jovens; b) facilidade para contrair doenças respiratórias; c) dificuldade para acostumar a visão ao escuro depois de estar na claridade (cegueira noturna); d) degeneração da conjuntiva (parte externa do globo ocular) e aparecimento de úlceras na córnea que podem levar à cegueira. Tais sintomas desaparecem em poucos dias quando a alimentação é enriquecida com alimentos que contém vitamina A, especialmente peixes e alimentos vegetais ricos em beta caroteno, substância amarelo avermelhada existente em alguns alimentos e que é transformada em vitamina A no interior do organismo, após ingerida (Tabela 1) (Matos, 1989). Frutas e verduras são geralmente suficientes para atender nossas exigências diárias de vitamina C. A Tabela 2 apresenta as principais plantas ricas em vitamina C. O uso prolongado ou errôneo de suplementos de vitaminas e sais minerais é maléfico; ingerindo quantidade exagerada de determinado suplemento, iniciamos uma reação em cadeia negativa que destrói o equilíbrio em todos os demais níveis químicos do nosso corpo. Assim, se uma pessoa comer bastante alimentos frescos, ricos em ferro, tais como verduras, ameixas, framboesas, cerejas, o organismo irá absorver todo ferro de que precisa, eliminando o excesso, porque ele sabe e pode dizer "não" ao ferro em forma orgânica natural; mas nem sempre consegue deter uma entrada contínua de suplementos sintéticos (Blauer, 1996).

Tabela 1. Fontes vegetais de beta-caroteno (provitamina A)

Planta Parte usada Teor em 100 g da parte usada Quantidades diárias necessárias Pequi (Caryocar coreaceum Wittm.) Polpa do fruto 200.000 2-5 g ou 1 fruto Dendê (Elaeis guineensis L.) Polpa do fruto ou óleo 100.000 4-8 g ou uma colherinha. Jerimum de leite (Curcubita pepo L.) Polpa do fruto 20.000 20-30 g ou uma fatia. Pupunha (Guilielma speciosa Mart., G. gasipaes (HBK) Bailey) Polpa do fruto 15.000 30-40 g ou 6-8 frutos. Buriti (Mauritia flexuosa L., M. vinifera Mart.) Polpa do frutoDoce 12.0008.000 35-45g. 2-3 frutas50-60 ou 1/2 fatia Cenoura (Daucus carota L.) Tubérculo 11.000 40-50 g ou 1-2 cenouras. Batata doce (Ipomoea batatas Poir.) Tubérculo 8.800 45-55 g ou 3-4 fatias. Jerimum-caboclo (Cucurbita pepo L. Polpa do fruto 8.000 50-60 g ou 3-4 fatias. Espinafre (Spinacia oleraceae L.) Folhas 8.100 50-60 g ou 1 porção. Melão (Cucumis melo L.) Polpa do fruto 3.400 110-130 g ou 3-4 fatias. Caqui (Diospyrus kaki) Polpa do fruto 2.400 160-180 g ou 10-12 frutos. Mamão (Caryca papaya L.) Polpa do fruto 1.700 240-250 g ou 2-3 fatias.

Planta Parte usada Teor (em mg) por 100 g Dose diária necessária Acerola (Malpighia glabra L.) Polpa do fruto 2.000-5.000 4 g (2 frutos) Caju (Anacardium occidentale L.) Polpa do fruto 240 30 g (1 fruto) Goiaba (Psidium guajava L.) Polpa do fruto 300 35 g (1-2 frutos) Gurguri (Mourio guianensis Aubi.) Polpa do fruto 100 75 g (20-30 frutos) Manga (Mangifera indica L.) Polpa do fruto 70 100 g(1 fruto) Limão (Citrus limonum) Suco 50 150 g (1 copo) Laranja (Citrus sinensis Osbeck.) Suco 45 160 g (1 copo)

Qual a quantidade certa de vitaminas e sais minerais? Há divergências de opiniões entre médicos e nutricionistas sobre a validade de guias que conhecemos como Quantidade Diária Recomendada (QDR). Para resolver esse problema, profissionais da saúde recomendam que se adote uma Quantidade Diária Ótima (QDO) como base não para conseguir o mínimo mas o máximo de nutrição (Blauer, 1996). Repletos de vitaminas e de acidez natural purificadora, os sucos de frutas frescas foram chamados de "purificadores do organismo". As frutas frescas contêm carboidratos e açúcares simples, que nas frutas estão misturados com vitaminas, sais minerais e fibras. Tais açúcares diferem do açúcar branco, refinado, que é usado em alta concentração associado com muitos alimentos ruins, repletos de "calorias vazias". A energia desbalanceada de açúcares nesses alimentos ruins causa obesidade, prejudica os dentes, acidifica demais o sangue, devido à fermentação do açúcar no estômago, e leva à desnutrição. É impossível haver açúcar em excesso em frutas ou em sucos de frutas; mesmo as frutas mais doces são nutricionalmente mais balanceadas do que os alimentos ruins. Em síntese, uma pessoa jamais ficará obesa se consumir apenas os açúcares contidos em alimentos naturais em uma dieta com muitos sucos de frutas frescas. As frutas frescas são portadoras de grandes estoques de energia solar; a presença dessa energia nas frutas frescas (bem como em todos os alimentos crus) é que determina a diferença entre uma laranja e um comprimido de vitamina C. Isto porque as frutas amadurecem mais lentamente do que outros vegetais, banhando-se o tempo todo e armazenando energia do sol. Os sucos de frutas são chamados de depurativos por várias razões. Enquanto os sucos feitos de brotos e hortaliças são depurativos suaves, os de frutas frescas são depurativos fortes. As frutas, por serem ricas em vitamina C, líquidos puros e ácidos que lhes dão certa distinção ao sabor, têm a capacidade de ajudar na eliminação de resíduos e bactérias dos tecidos do nosso organismo. Os três ácidos mais comuns encontrados em frutas são o ácido cítrico, o ácido tartárico e o ácido málico. O ácido cítrico é encontrado em grande quantidade no suco de limão, seguido pelo de lima, toranja, laranja, oxicoco, morango, framboesa, abacaxi, pêssego e tomate. O ácido tartárico é encontrado em maior quantidade na uva, abacaxi e, em menor quantidade em muitas das frutas comumente consumidas; tal ácido impede a proliferação de certos fungos e bactérias temíveis. Já o ácido málico é um excelente antisséptico, pois limpa os intestinos, rins, fígado e estômago; auxilia na cura de infecções e fraquezas intestinais e estimula o apetite. Este ácido é encontrado na maçã, abricó, banana, cereja, uva, limão, pêssego, ameixa, ameixa-preta e outras frutas em menor quantidade. Além da ação anti-bacteriana dos ácidos contidos nas frutas frescas há várias enzimas. As do abacaxi e do mamão vêm sendo usadas há décadas como suplementos enzimáticos, devido ao seu poder de digerir proteínas e gorduras. Se consumidas regularmente, as enzimas dos sucos de frutas frescas podem também entrar na circulação sanguínea e ajudar limpando tecidos, órgãos e músculos desses mesmos excessos. Há sucos de frutas com teor relativamente alto de calorias, como os sucos de morango, amora, framboesa, uva, manga, laranja, mamão, caqui e abacaxi, que contém mais enzimas do que os sucos de maçã, pera e melancia.

Literatura consultada

Albuquerque, J. M. D. Plantas medicinais de uso popular. Brasília: ABEAS, 1989. 96p. (Programa Agricultura nos Trópicos, 6).

Blauer, S. O livro dos sucos. Rio de Janeiro: Record, 1996. 220p.

Castro, L. O.; Chemale, V. M. Plantas medicinais, comdimentares e aromáticas: descrição e cultivo. Guaíba: Agropecuária, 1995. 196p. - p.9.

Di Stasi, L. C. Plantas medicinais: arte e ciência. Um guia de estudo interdisciplinar. São Paulo: Editora da UNESP, 1996. p.110-111, 126.

ERVAS E TEMPEROS. Guia Rural. São Paulo: Editora Abril, 1991. p.8-9.

Goodman, L.S.; Gilman, A. As bases farmacológicas da terapêutica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. p.1395.

Mann, J. Secondary metabolism. Oxford: Oxford Science Pubs., 1987. 374p.

Martins, E. R. et al. Plantas medicinais. Viçosa: Impr. Univ., 1994. p.37-38.

Matos, F. J. A . Plantas medicinais: guia de seleção e emprego de plantas medicinais do nordeste do Brasil. Fortaleza: IOCE, 1989. V. II, 144p.

Oliveira, F.; Akissue, G. Fundamentos de farmacobotânica. São Paulo: Ateneu, 1989. 216 p.

Simões, C.M.O et al. Plantas da medicina popular do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. da Universidade do Rio Grande do Sul, 1995. 173p.

Vieira, L.S. Fitoterapia da Amazônia: manual de plantas medicinais (a farmácia de Deus). São Paulo: Agronômica Ceres, 1992. 347p.

Maria das Graças Rodrigues Ferreira - pesquisadora da Embrapa Rondônia

E-mail: mgraca@cpafro.embrapa.br

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