21 de NOVEMBRO de 2003

Protesto contra a Guerra
Multidão derruba "estátua" de Bush em Londres

A "queda de Bush" protagonizada por pacifistas ingleses

Manifestantes derrubaram ontem (20/11) uma estátua improvisada do presidente americano, George W. Bush, em Trafalgar Square, uma das mais famosas praças de Londres.

O protesto, organizado pela coalizão "Stop the War" (Pare a Guerra), ocorreu durante toda a tarde. Manifestantes de todas as idades fizeram muito barulho durante a marcha de cerca de seis quilômetros, que passou pelo Parlamento e acabou em Downing Street, onde uma multidão parou em frente ao gabinete do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, para ridicularizá-lo.

Quando chegaram em Trafalgar Square, os manifestantes conduziram até a praça um modelo de tanque cor de rosa que derrubou a estátua de Bush, feita de papel-machê e com seis metros de altura, produzida para esse fim -- a cena se inspirou na derrubada da estátua de Saddam Hussein por tropas dos EUA, em abril, em Bagdá. Depois de derrubada, a estátua em cor de bronze, com seis metros de altura, foi pisoteada.

- Bush e Blair disseram que estavam lutando em uma guerra contra o terrorismo para fazer do mundo um local mais seguro para as pessoas - disse Paul Burrows, de 38 anos, professor universitário. - Eles não fizeram isso. Sair bombardeando as pessoas apenas lhes dá mais razão para odiar o Ocidente.

Duzentos mil manifestantes

A Scotland Yard, serviço britânico de segurança, bem que tentou desmobilizar os manifestantes "alertando" sobre a possibilidade de haver um ataque terrorista ou ações violentas durante a marcha. Mas não funcionou. De acordo com os organizadores do protesto, mais de 200 mil pessoas participam da passeata no centro de Londres. Segundo a polícia, os números ficaram acima dos cem mil.

Ainda de acordo com a polícia londrina, foram realizadas 53 prisões durante os dois dias de protesto (quarta-feira e quinta-feira).

Policiais afirmam que, embora a passeata desta quinta-feira tenha reunido muito mais pessoas dos que as manifestações de quarta, o segundo dia foi mais calmo.

"Os protestos foram pacíficos em toda a cidade", informou no final do dia um porta-voz da Polícia Metropolitana.

Pelo menos 5 mil policiais foram destacados para fazer a segurança nas ruas da cidade. Além disso, uma estrutura especial de segurança foi montada pelos Estados Unidos para fazer a proteção direta do presidente americano.

Antiguerra

Os protestos desta quinta-feira uniram pessoas de diferentes áreas do país e mesmo muitos estrangeiros, inclusive brasileiros.

Segundo manifestantes entrevistados pela BBC Brasil, a passeata foi, principalmente, um protesto contra a política externa americana e contra o apoio britânico a essa política.

"A guerra começou sem a aprovação de ninguém, e a gente continua não aprovando", afirmou a estudante brasileira Ingrid Gerolimich, que veio da cidade de Oxford para a passeata. "Essa guerra é, na verdade, econômica, e a gente veio protestar contra isso."

Para Ingrid, a manifestação deve mudar a política britânica, já que mostra a perda de apoio popular ao primeiro-ministro Tony Blair.

O aposentado britânico Harold Hoof concorda com a brasileira. "O que eles (Bush e Blair) estão fazendo não é solução para o problema (do terrorismo). E Blair já perdeu o apoio dos britânicos", disse.

Para ele, as explosões que atingiram alvos britânicos na Turquia e mataram pelo menos 26 pessoas são um exemplo de que a política americana e britânica estão equivocadas.

O caso foi usado pelo presidente americano e pelo primeiro-ministro britânico justamente como exemplo de que ele devem continuar "com o combate ao terrorismo".

Os dois líderes fizeram uma declaração conjunta antes das manifestações começarem na cidade e reafirmaram seu compromisso de manter uma ação conjunta e de reforçar as atuais linhas políticas de seus governos.

As declarações só serviram de combustível para os protestos da tarde.

- Os ataques terroristas são exatamente o tipo da coisa que prevíamos que aconteceria se fossem para o Iraque. Isso prova que estávamos certos - disse Martin Smith, de 64 anos, documentarista de Bristol, oeste da Inglaterra.

"As políticas dos EUA criam mais terrorismo", afirmou Jamal Kamamgar, um iraquiano de 28 anos que vive em Londres. "Antes da invasão, o Iraque era um país laico. Agora a religião está crescendo por causa da humilhação imposta pelos EUA."

Depois que escureceu, os manifestantes sentaram-se à volta de pelo menos três fogueiras, feitas com os cartazes que carregavam e, numa delas, por uma pequena efígie de Bush.

Óculos para Laura

Nesta sexta-feira, antes de voltar aos EUA, Bush deve visitar o distrito eleitoral de Blair, no norte da Inglaterra. A primeira-dama Laura Bush disse que a viagem está correndo bem e que os protestos contra seu marido estão aquém do esperado.

"Vimos muitas bandeiras norte-americanas. Vimos muita gente acenando para nós -- muito mais gente de fato do que manifestantes. [Elas] estavam nos dando as boas-vindas aqui, e eu aprecio isso."

Talvez ela esteja precisando de óculos novos.

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