Ratos Dizem Não

Nós, os ratos de São Gabriel, vimos por meio deste nos manifestar sobre o panfleto apócrifo recentemente divulgado em nossa cidade.
Há anos temos agüentado a opressão dos cidadãos de São Gabriel, que nos obrigam a viver nos esgotos, nos enxotando de suas casas, matando nossos irmãos e irmãs. Agora -- suprema injúria! -- eles vêm a público comparar aos trabalhadores sem terra a nós, e sugerir que eles devem, como nós, ser eliminados.
Encaremos os fatos: como diz o próprio panfleto, São Gabriel tem sido uma ilha de limpeza e riqueza num oceano de miséria. Nós, ratos daqui, não podemos deixar de notar que fomos mal aquinhoados pela sorte: essa cidade não nos oferece condições de vida.
Da mesma forma, se os tais sem terra estão vindo para cá, é porque não tinham condições lá onde estavam. Nossa tarefa histórica agora é ter um sentido estratégico: os sem terra são nossos aliados táticos. Em primeiro lugar, porque compartilham conosco os mesmos problemas; em segundo, porque, sejamos sinceros, esse sistema de latifúndio não nos favorece em nada. No campo, porque são léguas e léguas de terra com um que outro boi pastando, gordo -- ou seja, nenhum alimento. Na cidade, porque a riqueza que o latifúndio permite é a grande culpada por casas limpas, sem restos de comida, sem as mínimas condições de garantir nossos direitos básicos.
É chegada a hora de lutar contra isso. Nós, ratos, temos de fazer como os sem terra, e tomar nas nossas mãos o nosso destinos. O remédio será amargo, mas há de extirpar a doença que nos assola. Companheiro rato, se você tem acesso à caixa d'água de um latifundiário, urine nela; se você tem acesso à despensa cheia de uma casa rica, não se faça de rogado. Se, eventualmente, no meio da noite, você puder ir lá roer a camisola -- ou mesmo os calcanhares -- de madame, avante! Nossas armas são mais modestas que as deles, mas somos muitos, e unidos somos fortes.
Ratos de São Gabriel, uni-vos! A reforma agrária é uma
luta de todos!

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