O Estado de São Paulo, Domingo, 10 de agosto de 2003 - GERAL
http://www.estado.com.br/editorias/2003/08/10/ger016.html

Relatório acusa Bush de manipular a ciência

Documento do Comitê de Reforma Governamental da Câmara dos Deputados afirma que atual administração distorce informações para proteger interesses políticos

CHRISTOPHER MARQUIS, The New York Times

WASHINGTON - A administração Bush manipula evidências científicas para proteger sua ideologia e interesses políticos. É o que diz um relatório preparado pelo Comitê de Reforma Governamental da Câmara dos Deputados, controlado pela oposição democrata.

O relatório de 40 páginas, feito pelo deputado Henry A. Waxman, da Califórnia, acusou o governo de comprometer a integridade científica de instituições federais que monitoram alimentos e medicamentos, desenvolvem pesquisas na área de saúde, controlam doenças e protegem o ambiente. De temas como aquecimento global a educação sexual, a administração Bush "tem manipulado o processo científico e distorcido ou omitido descobertas", diz o relatório.

"O documento mostra o esforço de manipular, distorcer e cercear a ciência", disse Waxman. Ele afirmou que nenhuma outra administração, republicana ou democrata, foi tão longe. O relatório, disponível na internet no endereço www.politicsandscience.org, acusa o governo de divulgar no site do Instituto Nacional do Câncer uma página contendo informação que relacionava de forma incorreta aborto com câncer de mama. A página foi removida depois de protestos.

"A interferência política do governo sobre a ciência provoca declarações confusas do presidente, respostas imprecisas ao Congresso, alterações em sites da internet, relatórios omitidos, comunicações internacionais errôneas e mordaça a cientistas", afirma o autor do documento.

O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, rebate as acusações do relatório. Segundo ele, Waxman, conhecido por sua atitude agressiva contra a indústria tabagista, está apenas querendo se projetar politicamente.

"Esta administração vê os fatos e revisa a melhor ciência que existe, com base no que é correto para o povo americano", afirma McClellan. "O único que está jogando de forma política com a ciência é Waxman. O relatório é cheio de distorções, imprecisões e omissões."

Alguns exemplos citados pelo relatório em 21 áreas do conhecimento já foram amplamente divulgados pela mídia. Eles incluem a decisão tomada no ano passado pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) de alterar a seção sobre aquecimento global em seu relatório sobre ambiente.

Segundo o relatório de Waxman, as agências federais distorcem a ciência de várias maneiras, o que inclui a admissão de oficiais desqualificados e representantes da indústria em comitês de aconselhamento científico, a suspensão da publicação de descobertas que poderiam comprometer interesses corporativos e a defesa de decisões controversas com informações confusas.

Com relação à educação sexual, o relatório diz que a administração Bush é defensora da abstinência como única forma de evitar doenças sexualmente transmissíveis. Tanto que aboliu iniciativa proposta pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) que relacionava métodos cientificamente comprovados para a prática do sexo seguro, como o uso de preservativos.

Waxman não está sozinho quando critica a atitude do governo Bush sobre a sexualidade. O Instituto Alan Guttmacher, uma organização sem fins lucrativos que trabalha com saúde reprodutiva, divulgou anteontem relatório que acusa o governo de distorcer informações sobre o uso de preservativos com a intenção de pregar a idéia da abstinência sexual.

Na área de poluição agrícola, o Departamento de Agricultura adotou controles severos sobre cientistas ligados ao governo prestes a publicar informações que pudessem ter impacto negativo sobre a indústria. O relatório cita o caso do microbiologista James Zahn, que não foi autorizado a divulgar sua descobertas sobre os riscos do desenvolvimento de bactérias resistentes a antibióticos numa região de fazendas de porcos.

Sobre o Refúgio Nacional Ártico de Vida Selvagem, no Alasca, o relatório assegura que a secretária do Interior, Gale Norton, ferrenha defensora da prospecção de petróleo na região, apresentou ao Congresso informações científicas modificadas sobre o impacto da exploração na população de caribus. Enquanto os cientistas atestam que a maior parte da procriação desses animais ocorre dentro do refúgio, Gale diz que os caribus se reproduzem fora da região.

Vários jornais científicos acusam a administração Bush de ignorar as pesquisas governamentais. De acordo com os editores da revista Scientific American, o governo "foi contra o consenso científico" na questão armamentista. O editor da revista Science responsabiliza a administração Bush por "invadir áreas antes imunes a tal tipo de manipulação". (Com Reuters)

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