RETRANS:

Os novos disfarces do FMI

Oficina da organização 50 Years is Enough! revela um programa ainda desconhecido do Fundo, que dá um verniz democrático à instituição

<EM><FONT size=1>photo: 50 Years is Enough!</FONT></EM>

photo: 50 Years is Enough!
A verdadeira imagem do Fundo Monetário Internacional (FMI) ficou bem mais evidente depois da ruína da Argentina. O país, apontado durante a década de 90 como o modelo do que deviam fazer os países empobrecidos, caiu por terra. E justamente por ter seguido ao pé da letra todas as recomendações do Fundo. O caso Argentina, além de evidenciar a falta de sustentação, a longo prazo, das políticas do FMI, trouxe à luz a cara autoritária da organização.

Falta democracia interna. Nas votações, cada país vale o peso de sua contribuição financeira para o Fundo. Assim, EUA têm 17% dos votos, enquanto China, apenas pouco menos de 3%. A posição da Argentina vale apenas 0,99%. Nada coerente, para um organismo idealizado no início do século XX para ser o administrador internacional de recursos, doados pelos países ricos, para reduzir a pobreza mundial.

Mas se falta eqüidade interna, também há autoritarismo com os destinatários da ''ajuda internacional''. O empréstimo é sempre condicionado ao que, nos anos 90, o Fundo batizou de ''reformas estruturais''. Basicamente, privatização, dolarização, fim da proteção à indústria nacional,... Esse aspecto do FMI ficou evidente com as constantes exigências para a arrasada Argentina, em troca de um financiamento.

Com a credibilidade arrasada, e tendo de fazer reuniões secretar para fugir da pressão dos manifestantes, o Fundo está agora tramando outra estratégia. A denúncia foi feita pela organização 50 Years is Enough!, em uma oficina no III Fórum Social Mundial.

O novo programa, que surgiu em 1999, chama-se ''Documento Estratégico sobre Redução da Pobreza'' (PRSP, pela sigla de Poverty Reduction Strategy Paper). ''É o novo nome para ajustes estruturais'', revela Soren Ambrose, um pesquisador estadunidense do 50 Years. ''O PRSP já foi implantado, ao todo, em 11 países. Mas sempre em nações muito pobres, ainda como uma forma de teste. Foi o caso de Bolívia, Honduras, Guiana, e vários da África, como Tanzânia, Quênia, Uganda, Camarões''.

A idéia é simples. E mais fácil ainda é entender porque é chamada de ''estratégica'', logo no nome. ''Basicamente, o FMI propõe-se a reunir representantes do governo e de algumas organizações não-governamentais (ONG) para discutir os ajustes fiscais que devem ser feitos para conseguir o empréstimo'', explica Soren.

Apesar do verniz democrático, o PRSP não passa de uma pequena encenação. ''O FMI fala para as ONGs: cortando tudo que queremos que o seu governo corte do orçamento, para seguir pagando a dívida, sobra tanto para educação. E o que querem fazer com isso? As ONGs nunca poderão reclamar que sobrou pouco dinheiro para educação ou saúde'', afirma Stasy McDougall, outra pesquisadora estadunidense do 50 Years!.

A experiência com os países mais empobrecidos, até o momento, não foi muito feliz para o Fundo. Segundo Stasy, o PRSP fracassou em seu objetivo. A população dos países não deixou de perceber que o verdadeiro caráter autoritário dos diretores do FMI -- e principalmente, do governo do EUA, o país com maior poder de decisão dentro do organismo.

As experiências relatadas por Soren e por Stasy, de resistência, animam os que, em Porto Alegre, buscam formas de derrotar o Fundo. ''Na Bolívia, as ONGs se deram conta da encenação e exigiram discutir outros pontos, como o tamanho do superávit que era exigido'', conta Soren, ''e em Honduras, o representante das ONGs retirou-se da mesa de negociações e divulgou um relatório, em separado, denunciando os números do ajuste imposto pelo FMI''.

28/01/2003 . 11:10

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