Saudade da Escolinha Walita ou, quem me ensina a usar um DVD ?
Famosa nas décadas de 60 e 70, a Escolinha Walita levou conhecimento técnico a milhares de donas-de-casa. Foi nessa época que os eletrodomésticos começaram a ocupar seus lugares definitivos na vida das famílias brasileiras. Lar-doce-lar que se prezasse tinha que ser equipado com liqüidificador e batedeira de bolo.
Lembro da minha mãe, irmãs e vizinhas freqüentando os cursos oferecidos pela Walita nas lojas de varejo e depois de ouví-las conversar sobre como se preparava o melhor bolo, o doce mais gostoso, ou como se fazia a mistura na valente batedeira.
Novas turmas eram formadas quase todas as semanas. Chegava-se a montar dez grupos de cada vez, pois todo mundo queria aprender a lidar com os sofisticados e práticos aparelhos. E, nós garotos, adorávamos passar o dedo nas fôrmas de bolos para pegar a raspa, e de preparar vitaminas ou Toddy nos liqüidificadores.
Para a empresa, o conceito de marketing promocional era simples: aprendam a usar os nossos aparelhos e nós venderemos cada vez mais produtos para vocês.
É aí que bate a minha saudade - não só dos deliciosos bolos que minha mãe preparava -, mas do conceito da Escolinha.
Preciso com urgência de uma Escolinha Walita que me ensine e usar DVD e celular.
Hoje os aparelhos trazem tantos botões e funções que, sem uma orientação correta, muitos de nós - inábeis em lidar com a moderna tecnologia -, vamos morrer sem aprender a usá-los na sua totalidade.
A cada geração desses aparelhos - programados para ter vida-útil curta e apresentar diferenciais em todos os lançamentos -, o uso fica mais complicado.
Até parece que para se usar um DVD é preciso ter curso superior em informática ou engenharia de sistemas, tantas são as opções de clics e riscos de se apertar alguma coisa errada.
Outro dia, consegui ligar meu DVD na primeira. Levei um susto enorme pelo meu acerto e, com medo dele me desobedecer, coloquei o controle remoto bem devagar na mesa e fiquei quieto no sofá, quase sem respirar, para que nada desse errado.
Porque, se você tocar em alguma tecla que não pode ser tocada, pobre de você, vai viajar por mundos muito além da imaginação.
Até parece que as indústrias do setor entregam o trabalho da elaboração dos manuais técnicos aos mais sádicos dos seus quadros funcionais. Eles devem pensar que todo mundo já nasce sabendo decifrar o que escrevem, que suas linguagens são claras e compreensíveis e, que temos todo o tempo do mundo para ficar debruçados nos intricados caminhos da lógica da informática e da telecomunicação.
"Decifra-me ou te devoro", a velha máxima da esfinge, deveria vir escrita em todas as capas desses manuais. Aliás, a própria esfinge deveria ser o símbolo mundial dos manuais indecifráveis.
Como me sobra tempo, quando estou dentro de aviões, levo os manuais para lê-los com mais calma. O meu sistema de milhagem corre paralelo ao da auto-aprendizagem. Só que a milhagem está avançando mais rápido do que o aprendizado.
Até que seria uma boa idéia as empresas de DVDs e celulares colocarem instrutores nas salas de embarque ou a bordo. Já pensou uma escolinha voadora?
Fica aí a sugestão aos homens de marketing e de promoções de vendas desses dois setores: inspirem-se na velha Escolinha Walita. Fabricantes de DVD: criem cursos de uso dos seus aparelhos nas lojas que alugam fitas. Empresas de telefonia celular: ensinem a usar celulares, nas suas lojas, nos supermercados, nos terminais de ônibus ou onde mais puderem. Pois, quanto mais eu souber das possibilidades de um aparelho, mais vou usá-lo e recomendá-lo.
Assim, vou passar da minha fase de fóssil- vivo, que só sabe usar os aparelhos nas suas funções elementares - liga, desliga, aumenta e abaixa o volume, envia e recebe -, para uma fase mais moderninha.
Eloi Zanetti - eloizanetti@terra.com.br