O Sentido da Ação Cotidiana
Vivemos num tempo em que se tornou quase moda participar de algum movimento social que objetive diminuir a violência, a fome, a miséria, as doenças, desigualdades sociais ou degradação planetária. Os discursos com algumas poucas variações são sempre os mesmos, permeados de belas teorias formadas de palavras e intenções que dão a impressão de eficácia.
Infelizmente todos esses belos discursos não tem sido eficientes na resolução de nossos problemas mais básicos, vemos aí que o dito: ”Faça o que digo, mas não faça o que faço” continua em voga.
A dissociação entre teoria e prática deve-se, na maioria das vezes a cisão do todo, a impossibilidade da maioria de ter uma visão holística da Vida. Tornano-nos tão especializados em nossos afazeres particulares que perdemos a noção de interdependência, esquecendo das reações causadas por todas as nossas ações. Trata-se como já escreveu Fritjof Capra de uma crise de valores, observadas em todas as áreas - educação, saúde, economia, ecologia, etc. É nesse sentido que a incoerência entre o pensar e agir tira o sentido do próprio cotidiano, já que é aqui no nosso dia-a-dia que se constrói a história.
É no cotidiano que podemos recuperar o controle do nosso próprio destino econômico, social e ambiental, nos tornando agentes trans formadores da realidade.
Urge reduzir a distancia entre o que se diz e o que se faz, tornando - se um imperativo moral e ético não ter mais dois pesos e duas medidas. É pelo olhar em todos os sentidos de nossas ações cotidianas que teremos a real noção das conseqüências causadas por elas. Serão elas positivas ou negativas, contribuirão para a evolução da Vida ou gerarão mais caos social?
A percepção do sentido cotidiano se fundamenta no envolvimento, na vivencia do que se teoriza, isso gera o valor. Um exemplo da necessidade de envolvimento se observa nos tantos indivíduos que se acreditam ativistas sociais ao criticarem o monopólio comercial das grandes corporações transnacionais como a Souza Cruz. É comum ver indivíduos que criticam tais empresas ou que defendem a autonomia nacional, com um cigarro na mão.Em exemplos como esses se perde totalmente o sentido das críticas na dimensão da responsabilidade de ação que o conhecimento gera.
É indispensável o envolvimento com o processo para perceber a necessidade de ação.Transportemo-nos as regiões de produção de fumo aonde os pequenos agricultores se vêm escravos das empresas fumageiras que os obrigam a comprar sementes adubos sintéticos, agrotóxicos, envolvidos num trabalho insalubre, degradando a terra e a saúde do agricultor e de sua família-já que não são raros os casos de intoxicações, depressão, deficiências de aprendizagem em crianças e deformações fetais e neonatais pelo uso de agrotóxicos. Temos que lembrar ainda que o agricultor não tem nenhum direito sobre o preço de venda do tabaco, sendo que os únicos beneficiados são as grandes empresas, já que aos agricultores e aos consumidores finais só resta a exploração social, a dependência, o vício e a falta de saúde.
Esse é apenas um dos exemplos, tantos outros poderiam ser citados; o ideal será quando conseguirmos ir além de nossa visão reducionista e momentânea e conseguirmos ter a noção e consciência total de nossas atitudes. Onde elas se originam, o que elas envolvem e que conseqüências geração para o todo.
O envolvimento com todo o processo real amplia nossa visão de mundo e faz com que encontremos o sentido do discurso e o estímulo para a ação e aí deixa de ser possível sair por aí dizendo o que todos devem fazer sem que nós mesmos sejamos o exemplo. É ao se sentir a Vida, no prazer de estarmos vivos que seremos congruentes, a congruência gera o valor da interdependência e da integração entre todos os seres do Cosmos.
O sentido da Vida se constrói nos esforços para sair da prostração, da indiferença e da alienação, gerando o entusiasmo como potencial sinergético para irromper de forma positiva na vida de todo o Planeta.
É o caminho traçado e andado diariamente que dá o sentido, é a capacidade de nos direcionarmos para ações vitais, intencionadas, produtivas e sustentáveis.Surge o momento em que não precisamos mais apontar o caminho, mas acabamos sendo o próprio caminho, e se de algum modo não pudermos sê-lo devemos abandonar o jogo por que teremos nos tornados charlatões.
O conhecimento gera responsabilidades e é nesse sentido que a prática harmonizada com a teoria se torna um diferencial, já que é um processo dinâmico, que exige esforço, determinação, superação e coragem, qualidades fundamentadas no sentido que damos a nossa própria experiência cotidiana, na capacidade de criticar e transformar essa sociedade esquematizada, hierarquizada, impositiva e violenta na qual vivemos.
Vale lembrar que a coletividade se constrói de indivíduos.Enquanto continuarmos responsabilizando o governo e a sociedade pelas nossas mazelas, nada mudara efetivamente. É necessário que cada um de nós se responsabilize, busque o seu autoconhecimento, desenvolva suas potencialidades, porque só nos desenvolvendo plenamente como indivíduos que irradiaremos harmonia para o social. E quem sabe desta maneira o sonho de harmonia ,paz e felicidade plena possa se tornar realidade.