O SEQÜESTRO DA AGRICULTURA ORGÂNICA

ou

O  MANIFESTO NUTRICIONAL

José Luiz Moreira Garcia

Dentre as diversas definições que existem sobre Agricultura uma das que mais me agrada é

também a mais antiga da qual tenho notícia. A Agricultura foi definida por Marcus Terentius Varro, um proprietário de terras romano do primeiro século A.C. como :

" Agri  cultura ...... est scientia, quae sint in quoque agro serenda ac facienda, quo terra maximos perpetuo reddat fructus " em Rerum Rusticarum (6 ) . Como é comum à maioria dos melhores textos romanos essa definição é clara, elegante e sucinta.

Varro tinha, na ocasião, 80 anos de idade e havia se casado recentemente e escreveu Rerum Rusticarum quase como um manual para sua esposa sobre como  conduzir uma propriedade agrícola. Nessa passagem ele define pela primeira vez o conceito de sustentabilidade quando diz que a " Agricultura é uma ciência que nos ensina quais culturas plantar em cada tipo de solo e quais operações devem ser efetuadas à fim de que a terra produza as colheitas máximas de forma perpétua ".

Bem melhor, na minha opinião,  do que a definição mais recente de A.V. Thaer que em 1810 escrevia : " A Agricultura é um ofício que tem a finalidade de gerar lucros através da produção ( ou também beneficiamento ) de substancias vegetais e animais " (9 ). Essa, diga-se de passagem, é a definição de Agricultura que vem sendo ensinada em todas as escolas agrícolas do mundo e é da forma como a maioria das pessoas enxerga a atividade agrícola.

A Agricultura é , por suposto, uma atividade bem mais complexa do que a definição acima. Em junho de 1924, Dr. Rudolf Steiner nos dizia que " Não existe praticamente nenhum campo da atividade humana que não esteja relacionado a Agricultura de alguma forma . Sob qualquer perspectiva que se queira olhar , a Agricultura toca ( se relaciona ) cada aspecto da vida humana" (12 ). Me fez lembrar um adesivo que ví, certa feita, em um pára-choque  de carro nos EUA que dizia : " If you eat you are related to Agriculture" ou seja

"Se você come você está relacionado a Agricultura ".  Sábias palavras.

O movimento de agricultura orgânica teve início precisamente em junho de 1924 em Koberwitz, Silesia, na época parte da Alemanha, quando o filósofo Rudolf Steiner iniciou

uma série de 8 palestras que lançaram as bases da Agricultura Biodinâmica para um número um pouco acima de 100 participantes ( na maioria agricultores ) que estavam preocupados com os rumos da agricultura da época ( 8 ). De fato, uma das primeiras colocações do Dr Steiner na primeira palestra foi de que : " Sob a influencia da filosofia materialista moderna , é a agricultura, acreditem ou não, que mais se desviou dos verdadeiros princípios racionais. De fato, pouca gente sabe que durante as últimas décadas os produtos agrícolas, dos quais a nossa via depende, degeneraram-se extremamente rápido" ( 12 ).

E perguntava  : " Quantas décadas mais serão necessárias para que os alimentos não mais sirvam para a alimentação humana ?" (12 ).

Ficava claro, então, que a principal razão que motivou o movimento orgânico foi a preocupação com a qualidade nutricional dos alimentos.

Essa foi talvez, umas das primeiras constatações de que os alimentos não mais estavam apropriados a alimentação humana.

Posteriormente, no Japão, em 1930 , Mokiti Okada, também conhecido por Meishu Sama, alertava que a agricultura seguia rumos não muito recomendáveis mas foi somente em 1949 que ele defendeu publicamente a Agricultura Pura que tinha como princípio básico preservar a fertilidade e a vitalidade natural do solo. Dentro de um contexto mais filosófico-religioso ele acreditava que " o solo natural e puro está permeado com a energia espiritual da terra, que é o verdadeiro fator de crescimento ou fertilidade  ( 11 ) .

Já em 1938, nos EUA, o Dr. William A. Albrecht, Ph.D., Chefe do Departamento de Solos da Universidade do Missouri, um dos maiores cientistas de solo de todos os tempos e um dos que mais contribuíram para o estabelecimento da agricultura orgânica com seus conceitos até hoje revolucionários, alertava para o fato de que a agricultura quimicalizada e centrada na política do N-P-K não fornecia alimentação adequada para homens e animais.

Publicou mais de 600 trabalhos científicos que demonstravam que animais alimentados com produtos cultivados em solos mais férteis tinham mais saúde e viviam mais (1,10, 5  )

Segundo Albrecht " as formulas de adubo contendo somente N, P e K como as utilizadas universalmente pela agricultura moderna significam mal nutrição, ataque por fungos e bactérias, maior incidência de ervas, perdas provocadas pela seca e perda geral da acuidade mental da população. levando a doenças degenerativas e morte prematura "

Na década de 40 em diante a Agricultura Orgânica evoluiu mais rapidamente influenciada pelas publicações nos EUA de J.I. Rodale que enfatizava a pratica da Compostagem como forma de revitalizar os solos e produzir alimentos de melhor qualidade ( 5  ).

Na Inglaterra, em 1942, Lady Eve Balfour, publicava " The Living Soil"  que tinha o sugestivo sub-título de " a evidência da importância para a saúde humana, da vitalidade do solo " ( 3 ).

Sir Albert Howard, Diretor do Institute of Plant Industry, em Indore, India publicava

" Farming and Gardening for Health and Disease", em 1945, mais um clássico da Agricultura Orgânica onde se podia ver que o verdadeiro objetivo dessa nova modalidade agrícola era o de produzir alimentos que realmente nutrisse homens e animais ( 7  ).

Esses foram, pois, os verdadeiros pais da Agricultura Orgânica. Cada qual no seu país ou região ajudou a lançar as bases sobre as quais o movimento orgânico pôde prosperar e se desenvolver até os dias de hoje. É interesse frisar que nenhuma dessas pessoas deram início a esse movimento por estarem descontentes com os preços alcançados por seus produtos agrícolas mas sim por estarem descontentes com o valor nutricional dos alimentos.

Digo isso porque nem a Agricultura Orgânica escapou do processo de monetarização que se constitui, hoje em dia, a produção de alimentos.

Esses foram os verdadeiros criadores do movimento orgânico e não as certificadoras e/ou os organismos estatais que hoje existem para ditar normas e dizer o que é e o que não é orgânico.

Atualmente produzir alimentos, quer sejam orgânicos ou convencionais, significa produzir commodities que serão trocados por moeda, sendo que a nutrição é simplesmente um sub-produto desse processo de monetarização da agricultura. Ou seja, o verdadeiro motivo que deu origem ao movimento foi inteiramente esquecido.

O primeiro seqüestro ao qual a Agricultura Orgânica foi submetida partiu do processo de certificação que apoderou-se indevidamente do movimento e passou a ditar regras dizendo o que era e o que não era mais orgânico e , em contrapartida exigia o pagamento de certa soma de dinheiro para permitir que o indivíduo ou empresa pudesse, então, usar o nome e/ou rótulo de " orgânico" constituindo-se assim verdadeiro seqüestro seguido de pedido de resgate para a "liberação" no nome "orgânico". Há aqueles que acreditam ser necessária a regulamentação como forma de disciplinar o setor e até certo ponto de garantir a atividade

e pode-se até conviver pacificamente com a certificação e tê-la como um mal necessário, não fosse o fato de terem excluído das suas normas o verdadeiro motivo que originou o movimento orgânico, ou seja, a baixa qualidade nutricional dos alimentos.

O segundo seqüestro partiu dos órgãos governamentais , Ministérios da Agricultura, que sempre ou ridicularizaram ou ignoraram sistematicamente o movimento orgânico até que o mesmo adquiriu peso econômico. Nesse ponto foram obrigados a seqüestrar novamente o movimento para que fossem instituídas normas que favoreceriam a entrada no setor de grupos econômicos, já então atraídos pela possibilidade de lucro no setor. Novamente nenhuma menção ao valor nutricional dos alimentos é feita . Além do mais as novas normas oficiais para a Agricultura Orgânica que regulamentam esse setor, e que estão acima das certificadoras, porque nenhuma certificadora está acima da lei, não fazem nenhuma menção

ao aspecto social da produção de alimentos que era enfatizado por algumas certificadoras como ponto de honra. Qualidade nutricional e justiça social foram sistematicamente expurgados das normas de produção orgânica pelos órgãos governamentais permitindo assim que grupos econômicos possam então se dedicar tranqüilamente a produção de alimentos orgânicos que irão garantir tão somente um produto isento de contaminantes químicos, e provavelmente de baixa qualidade nutricional ou seja, um alimento orgânico massificado e de "segunda".

Já existem (pasmem) "organocratas" ou sejam , indivíduos que ocupam cargos públicos e deliberam o que será o que não será mais orgânico. Nenhum deles, até agora, deliberou que os alimentos devam ter um maior valor nutricional para o azar de todos nós consumidores e saúde da população.

Em alguns casos, como no caso da Regulamentação 2076/2002 de 20/11/2002 da União Européia a sanha proibitória dos burocratas chega a beirar as raias do ridículo quando resolveram proibir ( pasmem ) Pó de Rochas, Carbonato de Cálcio, silicatos entre outros no mesmo decreto que proíbem agrotóxicos super venenosos.

Atualmente, estamos testemunhando uma terceira leva de seqüestros . É o seqüestro acadêmico-científico. Algumas Universidades e Centros de Pesquisa estão se apossando da Agricultura Orgânica. Em pouco tempo teremos " Ph.D.s Orgânicos" que, então, donos absolutos da verdade, irão ditar o que é e o que não é mais certo ou errado e nesse ponto,  o ciclo terá, então, se completado requerendo uma nova revolução e um novo movimento que espero desta vez seja destinado a produzir alimentos com elevado valor biológico e elevado teor nutricional.

Um movimento que seja centrado na árdua tarefa de reconstruir os solos como forma de promover saúde e bem estar entre as pessoas.

Um movimento que veja a produção de alimentos não como uma forma de fazer dinheiro mas sim como uma forma de promover a saúde das pessoas. Essa seria a verdadeira Medicina Preventiva e não exames de mamografia ou Papanicolau tão propalados pelo ex-Ministro da Saúde.

A verdadeira saúde emana da fertilidade dos solos e dos alimentos ali produzidos.

O Dr William A. Albrecht colocou bem a questão quando disse : " Nós sucumbimos a idéia de que a agricultura pode ser transformada em  um processo  industrial .Porém a verdade é que ela é um processo biológico "   ( 10 ). Por mais sofisticado que seja o parque industrial agrícola a agricultura ainda é um processo biológico e sob esse aspecto deve ser administrada.

No Brasil,  até uma associação de ( pasmem) "agronegócio orgânico" foi criada ignorando totalmente o fato da agricultura orgânica ser ainda uma atividade biológica e não industrial. Para variar, nenhuma menção a qualidade nutricional dos alimentos é feita nos objetivos de tal associação.

Vários espectros rondam a Agricultura Orgânica. São os espectros da burocracia, do excesso de regulamentos e da total desobediência aos ideais dos pioneiros que criaram esse movimento. É chegada a hora de iniciarmos um novo movimento dentro da própria Agricultura Orgânica. Um movimento que exija que parâmetros objetivos sejam estabelecidos para todos aqueles que se dediquem a Agricultura Orgânica Nutricional de forma mais séria.

Que esses objetivos sejam estabelecidos pela biologia como por exemplo teores nutricionais nos alimentos, e teores de vida no solo entre outros.

Hoje em dia já se pode medir a quantidade dos diversos componentes do solo que originaram o termo " solo vivo" tais como a quantidade de bactéria benéficas, fungos benéficos, protozoários benéficos , nematóides benéficos, micro-artrópodes, anelídeos,

teor de húmus do solo, etc.. Muito se fala, no âmbito da Agricultura Orgânica, em "solo vivo" mas poucos poderiam se gabar de ter um solo realmente vivo. A produção de hortaliças orgânicas em alguns casos segue uma orientação totalmente convencional

com a substituição dos insumos convencionais pelos orgânicos. Basta ler a única publicação de agricultura ecológica existente no Brasil para se constatar esse fato. Tomates "orgânicos" são produzidos com "injeção na veia" no melhor estilo convencional sob a égide das certificadoras e  com total ignorância aos preceitos orgânicos de " nutrir o solo e não a planta " que tanto o Dr Albrecht salientava. Foi-me confessado por uma testemunha ocular que esses cultivos em estufa, no fim do ciclo, apresentavam uma camada branca sobre o solo resultado do excesso de sais aplicados via ferti-irrigação nesses cultivos.

Preparam-se " bio-fertilizantes" simplesmente misturando altas doses de produtos químicos

a componentes orgânicos , como o esterco de vaca, e da noite para o dia Voilá !  os produtos químicos transformam-se milagrosamente em " orgânicos" pelo poder absoluto da certificação e do jeitinho brasileiro.

Seria esse tipo de agricultura que apregoavam Rudolf Steiner, Mokiti Okada, Dr William Albrecht, Lady Eve Balfour, Sir Albert Howard , J.I. Rodale e Massanobu Fukuoka e

aqui no nosso Brasil o saudoso colega José Lutzemberger  ou mesmo a Dra Primavesi ?

Duvido muito.

Foi rasgado o véu do pudor orgânico ao violarem sistematicamente as leis da natureza como no caso do " Tomate Frankstein " acima mencionado ignorando sistematicamente os preceitos orgânicos. Tudo está sendo feito em nome do dinheiro e mais uma vez em detrimento da biologia. A busca do lucro fácil provocou uma deturpação dos conceitos orgânicos e em vários casos cultivam-se produtos orgânicos utilizando-se tecnologias que em nada diferem do método convencional resultando na salinização dos solos, aniquilação da micro vida do solo e na produção de alimento de baixo valor nutricional. Dessa forma conclamamos a todos aqueles que se interessam por preservar esse planeta a começar pelo uso adequado do solo para a produção de alimentos de alto valor nutricional, a unir forças.

Agricultores  realmente  orgânicos de todos os países , Uni-vos !!

Referências

1.  Albrecht, William A. 1975. The Albrecht Papers – Soil Fertility and Animal Health,

Volume II, Kansas City, Missouri, 192 p.p.

2.   Andersen, Arden. 1989. The Anatomy of Life & Energy in Agriculture, Kansas

City, Missouri, Acres U.S.A., 115 pp.

3.   Balfour, Eve, Lady.1942. The Living Soil, 1st. Edition, Faber & Faber Limited,

London.

4.   Beddoe, A.F. 1992, Nourishement Home Grown, Orwille, WA, S& J Unlimited,

299 pp.

5.   Diver, Steve. 1996. NEW RENAISSANCE Magazine, Vol. 6, No. 2

6.    Hooper, W.D. & H.B. Ash. 1935, Marcus Porcius Cato on Agriculture.

Marcus Terentius Varro on Agriculture, Cambridge, Mass., Harvard University

Press, London.

7.    Howard, Albert , Sir. 1945. Farming and Gardening for Health and Disease,

Faber & Faber Limited, London.

8.   Keyserlingk, Adalbert Count. 1999. Developing Biodynamic Agriculture, Temple

Lodge, London, 108 p.p.

9.   Koef, H.H., B.D. Pettersson & W. Schaumann. 1984.  Agricultura Biodinâmica,

2a. Edição, Livraria Nobel S.A., São Paulo, 332 p.p.

10.  Murray, Maynard, M.D. 2003, Sea Energy Agriculture, Austin , TX, Acres U.S.A. 109 pp.

11.  Sama, Meishu. 1993. Agricultura Pura, Templo Luz do Oriente, São Paulo, 58 p.p.

12. Steiner, Rudolf. 1993. Spirituals Foundations for the Renewal of AGRICULTURE, Bio-Dynamic Farming and Gardening Association, Inc., Kimberton, Pennsylvania, 310 p.p.

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