À Ordem dos Advogados do Brasil no Rio Grande do Sul e Comissão Organizadora da Semana do Advogado, meus agradecimentos. Ao Sr. conferencista e debatedores meus respeitos. Pretendo desenvolver o tema nestes dez itens: PREMISSA, TECNOLOGIA, MARKETING, PREMEDITAÇÃO, BIOPIRATARIA, OMISSÃO, CONDIÇÃO, SUBMISSÃO, IDENTIDADE, CARÁTER.
1. PREMISSA - É estranho que, no Paraná e Santa Catarina, reprimam transgênicos, enquanto no RS ele continue política oficial de governo?
2. TECNOLOGIA - Em engenharia genética, a inserção de gene, impõe sua expressão funcional e torna o produto diferente do original. Esta é a razão da propriedade intelectual sobre ser vivo, que está acima da propriedade industrial sobre ser inanimado. É a nova matriz tecnológica planetária, cujo valor crematístico é exponencialmente maior que o atual pela alta seletividade e exclusividade, que impõe fusões. Qual seu valor econômico, além do crematístico?
3. MARKETING - É fundamento, em marketing, o uso da identidade em todo e qualquer novo lançamento, por suas vantagens qualitativa e quantitativa, intrínseca e extrínseca. Em transgênicos, contudo, é impossível tal, pois transgênico e não-transgênico são duas coisas diferentes, senão não haveria razão para propriedade intelectual e seria suficiente proteção pelas leis de sementes e cultivares, mas isto não satisfaz a Nova Ordem de DESREGULAMENTAÇÃO da OMC, nem as empresas de biotecnologias de venda de bens e serviços na agricultura, a partir de agora denominados agronegócios.
4. PREMEDITAÇÃO - A outra contradição é que essa tecnologia necessita identificar-se como tal e utilizar de suas qualidades intrínsecas, para apresentação e conquista de mercado, o que é válido para os agricultores, mas escondido dos consumidoQual a razão do medo? Um veneno agrícola para ser descoberto seus malefícios na regulação hormonal necessita de estudos durante mais de trinta anos. Um estudo similar com transgênicos de quanto tempo necessitaria? Por isso não deve haver regulamentação. Por exemplo, o produto Antracol foi retirado do mercado em 1980, pela própria Bayer por causar câncer. Com a OMC ele está no comércio.
Quem vive em sociedades pós-industriais sabe que um produto é marca, patente, qualidade, exclusividade e que tudo isto está embutido no preço. Mas isto não é compreensível para quem vive em sociedades industriais e, menos ainda, em sociedades extrativistas-pastoris. Daí as estruturas privadas de cooperativas estimuladas pela Monsanto/Cargill, para oferta de crédito, venda de sementes, fertilizantes, herbicidas, contratos de transporte, exportação e industrialização de soja.
Após a queda do muro de Berlim, na “Rodada Uruguai do GATT”, as ETNs, prepararam o alicerce para a nova tecnologia transgênica, encubada desde Asilomar. Delegaram a solução dos problemas éticos, morais e legais de substituição do Estado Nacional, acima, a uma força tarefa, com 19 economistas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE – um órgão das Nações Unidas, onde mandam os sete países pós-industrializados e os demais convalidando.
Aqueles economistas adaptaram o termo EQUIVALÊNCIA SUBSTANCIAL para os transgênicos sem participação bioquímica, bromatológica, nutricionista, sanitária, biológica, religiosa ou jurídica. Esta definição tornou-se o “alforria” para o livre comércio mundial, de acordo com o AMI. No Brasil, a CTNBio, que já tentara desregulamentar a soja RR pretendeu dar valor jurídico a Equivalência Substancial.
Nossas autoridades de Relações Exteriores e Justiça podem apresentar os diplomas legais nacionais que definem EQUIVALÊNCIA SUBSTANCIAL ou que aceitam a OCDE e Codex Alimentarius definindo e impondo termos jurídicos ou apresentem a internalização do mesmo, nos outros órgãos da gestão pública.
Ao não ser a equivalência substancial uma definição científica, nem jurídica, a propriedade intelectual requerida pelos transgênicos se transforma em impropriedade, fantasia?
5. BIOPIRATARIA Os sojicultores norte-americanos são pós-industriais, não compram “semente” de soja transgênica, apenas “adquirem” os serviços de sua tecnologia. Assinam contrato virtual, reconhecendo a ilegalidade de replantio das mesmas, autorizando inspeção e coleta de amostras sem sua presença. O não cumprimento leva a ações judiciais, multas e outras penalidades.
É uma situação nova, realidade muito além da sociedade industrial, onde se compram sementes reais. Nem sequer compreensível nas sociedades extrativista-pastoris, onde se reproduzem sementes caseiras e familiares.
Na Argentina pré-industrial, a Monsanto não adotou a assinatura deste contrato, nem protegeu sua tecnologia embutida. Fez o contrário, tendo o segundo maior produtor de soja do mundo nas suas fronteiras. Por quê?
Nossos governos e instituições não se debruçaram sobre a questão. A OMC e o AMI deveriam ter um protocolo de conduta para as empresas, visto que elas não são obrigadas a respeitar e cumprir leis nacionais.
A leitura do subtexto e entrelinhas da “Revista Preços Agrícolas”, Ano XII, Nº143, de setembro de 1998, da USP/ESALQ e revista o “Engenheiro Agrônomo”, da Federação dos Engenheiros Agrônomos do Brasil, da mesma época, esclarecem as omissões e obriga presunções sobre a conduta da empresa.
A contratação da Agência de Detetives Pinkerton para investigar o uso de sua tecnologia nas sementes argentinas, contrabandeadas, seria parte do marketing de fascinação e delírio? Conhecemos a história dos contrabandos de pneus na Segunda Guerra Mundial para os nazistas, via Argentina. Da mesma forma que o arroz papel e trigo papel na mesma fronteira.
Esperar outra situação? Nos anos de 97 e 98, nos governos Britto/FHC, a Monsanto/Cargill estimulou dias de campo, shows, inserções nos programas radiofônicos das cooperativas e Emater e festas municipais, apresentando a sua criação transgênica, fora-da-lei. Funcionários públicos fizeram plantios clandestinos em áreas públicas. Quem lhes ofertou as sementes transgênicas? No Agrishow de Ribeirão Preto, o Ministro Roberto Rodrigues conseguiu autorização para plantio, pela CTNBio.
Senhores e Senhoras, a soja RR entre nós nasceu à margem da lei & ordem nos governos nacional e local, embora acorde com os ditames da OMC e AMI e foi um sucesso de marketing. Assim ela foi lançada no Hotel Everest para todas as elites e gostos, quando já estava verdejante em todos os quadrantes do estado.
Amigos da Terra/Cooplantio, “fomentadores” da Monsanto/Cargill, costumam dizer que o herbicida Roundup é um produto ecológico, usam a artimanha de fascinar, oferecendo manejo ecológico de pastagens com ele ou “casando” o herbicida ecológico à soja resistente.
Diante de ambas estupefações, caberia ao agricultor somente a pergunta ambiciosa: - Quanto custa esta semente? Reafirmo que ele não está comprando um serviço de tecnologia. Está comprando semente para multiplicá-la.
A resposta: - 200 dólares aguça a cobiça e prepara o golpe. Um saco de semente custava 20 dólares.
O raciocínio, planto um saco colho 40. Quarenta vezes 200 dólares.
Tentador. E mais, uma garantia de que ninguém venderia sua colheita como grão comercial (US 11,00/saco), pois teria um grande prejuízo. A obrigação de guardar como semente para a safra seguinte a garantia de expansão, sem qualquer risco. Escândalo. Quando a polícia aplicava o herbicida Roundup para verificar se a soja era ilegal, logo em seguida um grupo de técnicos aplicava na área Gramoxone, e toda a soja transgênica morria. Enganando a polícia, em ação mafiosa.
O problema aqui era disseminado, diferente de Chicago da Lei Seca, onde havia poucas destilarias e cervejarias.
A declaração oficial de “Zona Livre”, enfrentando a globalização, enunciava uma cruzada cívica. Não foi isso que aconteceu. Entidades abandonarem posturas públicas e partirem para a confrontação política.
A discussão imposta por militantes, ações propagandísticas, importação de “kits” de identificação sem homologação facilitou, ainda mais, a difusão das sementes, estratégia de marketing e disseminação. A soja transgênica passou a ser a soja anti-PT. Acirravam os ânimos.
6. OMISSÃO - Esta disseminação indiscriminada de sementes é antagônica aos preceitos da propriedade intelectual. Solicitamos registros nas polícias Civil e Federal, no RS e PR, sobre o pedido de proteção à soja RR, feitos pela Empresa, ainda não encontramos.
É sintomático, mas, talvez, fosse a forma mais viável e barata dentro de uma sociedade pré-industrial e extrativo-pastoril. Cheguei a lucubrar: Foi executado por técnicos locais, mas pensado nos laboratórios de Psicologia e Extensão Rural da Ivy League.
Voltando ao marketing, um produto novo, uma nova tecnologia, mostra sua superioridade na propaganda, no rótulo e no preço. Por que não tivemos propaganda, um rótulo especial, um preço maior para a soja transgênica? Seria o esperado em uma sociedade industrial e pós-industrial para um produto superior. É assim com os produtos orgânicos.
A disseminação contou com autoridades cooperativistas, federações de produtores, prefeitos, professores, ministros, o que é compreensível, pois os dividendos dos bens e serviços gerados pela soja industrial é uma ínfima parte dos ganhos com os bens e serviços com a soja transgênica em função da escala e centralização da teia produtiva dos agronegócios.
O resultado podemos ver, por exemplo, em Santa Rosa, houve até cantoria de hino nacional por agricultores embriagados; em Ernestina, no aniversário do município, o senhor prefeito, a presidente da câmara de vereadores desejavam um “combate” para legalizar sua cumplicidade com a empresa, ignorando o poder judiciário.
Na Assembléia Legislativa, era apresentada e aprovada uma lei com o estado abdicando de sua função constitucional plasmada no Artigo 251, parágrafo primeiro, itens I a VII e revogando lei Nº 9453/91 sobre fiscalização de OGMs. O mais vergonhoso fora em Santa Maria quando o Chefe de Biossegurança do MAPA Paccelli Zahler denunciou que havia 860 áreas experimentais para fiscalizar mas não havia recursos humanos, dinheiro, nem podiam localizar as mesmas. Foi denunciado por empresários, e exonerado da CTNBio. Seguramente o Deputado Francisco Turra, poderá tecer comentários como debatedor.
A disputa tornou-se deplorável de lado a lado. Áreas de Experimentação foram destruídas por vândalos. O estranho é que a comunicação obrigatória e imediata, à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, só foi feita, pela Monsanto um ano depois do ocorrido. Por quê?
Campanhas gastaram quase ¼ de milhão de dólares de dinheiro para fazer festas de conscientização de militantes, não de cidadãos.
As eleições mudaram de lado os antagonistas e a cidadania descobriu que a “Zona Livre”, que para muitos, nada mais era que, arrogância, prepotência e soberba, tinha outro significado.
Em política global, não há espaço para ingênuos, pois uma posição contrária a um interesse planetário esbarra nos famosos “conselhos”, “avisos”, “telefonemas”: “- O crédito internacional para Educação, Saúde, Habitação está aprovado, mas esta posição nos OGMs está entravando.
No “brete”, o governo federal baixa a Medida Provisória Nº 113, autoriza a comercialização e garante o consumo pelo artigo 5º do Decreto Nº 04680/03. E os Códigos Sanitário e de Defesa do Consumidor? Interessante, em Xangai uma consumidora está processando a Nestlé.
Abre a questão dos “royalties” e “serviços da tecnologia”. Agricultores serão obrigados, como nos EUA/Argentina, a pagar a semente Argentina que tem em casa? É a etapa final do marketing de lançamento ilegal? É possível termos confisco e arresto de embarques de soja, a pedido da Monsanto?
A tecnologia da Monsanto/Cargill foi inserida em sementes argentinas; a tecnologia foi exposta. Estes cultivares têm registro no Brasil? Haverá arresto nas propriedades rurais? Senhores e senhoras: o agrônomo leigo pergunta: Isto é golpe e usurpação deliberados.
O que diz a UPOV/OMPI ou o INPI sobre aquele que não preserva sua patente? O Protocolo de Cartagena e a Convenção de Biodiversidade prevêem que uma tecnologia deve ser protegida para impedir contrabando e danos a outros países e terceiros.
Como a Monsanto/Cargill alega direitos, deve assumir sua estratégia, pois ignorou os documentos acima e as fronteiras do Estado Nacional e suas leis realizando atividades de biopirataria, conforme a Convenção da Biodiversidade e itens Nº 14, 15 e 16 da Agenda 21.
7. CONDIÇÃO - A tecnologia dos transgênicos é um instrumento de agronegócios, de forte impacto sobre a teia produtiva, estrutura fundiária e social, que necessitam de escala e dimensão planetária para competitividade, sem a qual não é sustentável. No Sul, a desvantagem aumenta, quando comparada com as condições existentes para a agricultura de precisão do Brasil Central.
Assim sendo, os impactos imediatos desta tecnologia destruirão a agricultura familiar ou empresarial de tamanho médio, o que deveria ser previamente equacionado, por serem fruto de políticas públicas internacionais dos Bancos, Fundos de Desenvolvimento e estarem incluídas nos Programas governamentais para a SUSTENTABILIDADE, Protocolo de Kioto.
A desestruturação da agricultura familiar e média empresa rural impedem a transição atual para a agricultura ecológica, onde a agricultura orgânica dos estados do sul têm preços superiores, pois é um produto pós-industrial em todos os sentidos. Seus bens e serviços são mais rentáveis, como diz Susan George, produz mais empregos e renda. Então por que destruí-la?
A leitura Argentina, destruição de 3000 “tambos” e 2700 pomares de frutíferas, sendo obrigada a importar leite e frutas e comendo “milanezas solidárias de soja transgênicas” está ao alcance da mão.
Em uma sociedade com autonomia, no planejamento do seu desenvolvimento, esta contradição é explícita e rapidamente enquadrada. Onde não, vemos manobras de poder omisso, submisso, alianças e parcerias entre associações extrativo-pastoris, cooperativas, burocratas, governos e empresas transnacionais, acima de antagonismo ideológico, dogmático, mercantil e evolutivo.
A destruição da pequena propriedade familiar e média empresa rural é para afastar o espectro da Reforma Agrária? Não é possível Reforma Agrária com transgênicos, em função da escala e desmaterialização econômica, por isso na Argentina já desapareceram 686.000 pequenas propriedades rurais incorporadas ao sistema da soja RR?
Sabemos consumir, somos objetos. Sujeito, só o Império. De que adianta a consciência se não há autonomia. Será que dentro de dois a três anos, como na Argentina, chegarão as redes internacionais de supermercados trazendo a agricultura familiar, o leite orgânico e pecuária orgânica, que antes eram autógena e endógena?
Um exemplo: Os tomadores de crédito rural do Banrisul obrigaram-se a não plantar soja transgênica. Os infratores à referida clausula tiveram punição? Não? Por quê? Porque a autonomia é externa a nossa sociedade.
8. SUBMISSÃO - O jovem africano do presente slide, tem dezoito anos, menos de 20 quilos. É um das dezenas de milhões de famélicos que sobrevivem na África.
O Gal. Collin Powell foi à África oferecer gratuitamente a remessa de alimentos transgênicos, em outubro de 2002, mas recebeu a recusa dos governantes por tal presente, sob a alegação: Que não sendo os transgênicos aceitos pelos europeus, asiáticos e sul-americanos, tampouco deveriam sê-lo pelos africanos.
Quais os significados tanto da oferta, quanto da recusa? Não vimos uma análise acadêmica, jornalística ou cidadã, que aprofundasse as questões.
Todos os dias, entre nós, jornalistas ditam doutrina pró-transgênicos e submissão nos meios de comunicação, entretanto, isto não é novo, pois o mesmo vimos quando da introdução, plantio e denúncias internacionais, inclusive no Congresso do EUA sobre o Y-1 e Y-2 plantados no RS, SC e PR pela Souza Cruz, subsidiária da British American Tobacco. É ela que paga a grande propaganda e impõe um silencio obsequioso ou propala a sua verdade, nada diferente da época de Giordano Bruno.
Sobre a solidariedade de Colin Powell, aos africanos, permito-me trazer uma leitura singela: No momento de aceitação de doações humanitárias de transgênicos, os africanos perceberam que estariam perdendo sua cidadania, pois passariam a ser vistos como cidadãos de segunda, ou melhor, de terceira classe.
Esta compreensão é importante sob todos os aspectos, desde os diplomáticos até o de agronegócios, pois uma condição não se deve tornar uma identidade. A Nova Ordem Internacional das ETNs, hoje, pretende que a condição se transforme em identidade, em todo o mundo e usa isso como ameaça velada.
Não vimos uma entidade européia ou norte-americana, em sua “autonomia”, denunciar urbi et orbi o que os africanos tinham desmascarado o dogma implícito dos transgênicos e exposto o nervo da condição humana, em tal situação. Devemos retornar ao Contrato Social ou buscar um Novo Contrato?
E podemos interpretar a fala africana da seguinte forma: “Comerá o bom quem puder pagar pelo bom.” Isto, se não é corrupção, é fascismo social, no dizer de Boaventura de Souza Santos. Isto justifica as ETNs e sua violência, pois este é o meio que ela dispõe e a força que possui, sua ordem mundial.
Em Chiapas, México, foi uma mãe zapoteca, que disse em alto e bom som: “Eu sei que o milho transgênico é uma violência contra minha identidade e a de meu filho, mas o governo o coloca tão barato que impede que eu cultive o meu próprio milho para dar de comer ao meu filho. Esta condição de violência que comete contra nós, nos dá o direito de responder com qual tipo de violência?” Ali eu entendi a Declaração de Guerra da Serra Lacandona.
Senhores estudiosos de lei e ordem, quais devem ser as respostas, diante das violências míticas, imperiais, mercantis e de códigos, quando se procura transformar condição em identidade?
9. IDENTIDADE - O Ministério da Agricultura publica a Portaria 764, no Diário Oficial da União, em 25 de setembro de 1998, permite o uso de Glyphosate em pós-emergência na soja, com 45 dias de Intervalo de Segurança.Assim legalizou, ao arrepio das leis e desrespeito ao judiciário, o plantio da soja transgênica, pois é impossível utilizar-se este herbicida em outra soja.
Imediatamente a ANVISA, do Ministério da Saúde modificou os índices de resíduos de Glyphosate em soja, permitindo um resíduo de 20 ppm, sem um estudo sequer, pois não há laboratório para tal no país. Índices só alcançados em soja transgênica, que continuava de plantio proibido. Neste caso, como classificar as atitudes dos Ministérios da Agricultura e Saúde diante da Ordem Vigente?
A soja transgênica, tratada com herbicida Glyphosate , como regula a Portaria do MAPA, tem 100 vezes maior resíduo tóxico de NITROSAMINAS-GLYPHOSATE. Qual o risco de preço mais baixo no futuro? Lembrem 50% da soja americana é convencional.
Uma prova disto está neste slide, vemos que a soja transgênica “guacha” (tigüera), na Argentina tornou-se uma erva daninha, recebendo a recomendação de solução com os herbicidas Paraquat e Atrazina. Isto consta nos documentos da Monsanto para o Brasil. O surgimento desta nova erva daninha é impacto ambiental? Seu tratamento com os referidos produtos como se classificam? Nada disto interessa. A ignorância não percebe que uma vantagem crematística é antagônica a uma vantagem econômica, quando não há autonomia.
10. CARÁTER - Segundo estatísticas, mais de 80% dos alimentos consumidos pelos norte-americanos são industrializados. Ele está desmaterializado dentro do complexo Agroindustrial-Alimentar-Financeiro das ETNs e Supermercados. Cinco milhões de embalagens de “Tacos Bells”, alimento humano, da Phillips Morris feito com milho transgênico de uso animal são retirados da gôndolas dos supermercados norte-americanos, por causar alergia. A batatinha transgênica da Monsanto “New Leaf” foi retirada do mercado em 2001. Por quê?
Há a transformação de imperialismo em império. Lichtheim diz, para tal é necessário transformar “condição” em “identidade”.
Uma semente deixou de ser real e concreta, tornou-se bem virtual ou serviço prestado, mas isto só é compreensível dentro de conceitos consuetudinários.
Este slide com referência ao presente contrato EMBRAPA/MONSANTO, nos remete à questão: foi assinado para sementes reais, virtuais, bens e serviços?
Esta questão é basilar, para entender as impropriedades nos negócios que estão sendo feitos com o patrimônio genético construído durante os últimos cem anos.
Quem determinou o valor do patrimônio soja? Colocar um gene de resistência a herbicida pode ser um bom negócio para a empresa que vende o herbicida. Ela para fazê-lo necessita da semente que não tem, logo o valor maior está na semente e não na tecnologia.
Passar a ela o patrimônio nacional, em troca de uma porcentagem do valor da semente comercializada é piada que qualquer quitandeiro de esquina saberia melhor negociar. Contudo, esta decisão foi tomada por burocrata que não tem noção de comércio de sementes, pois nunca negociaram ou comercializaram sementes.
A garantia de autonomia da agricultura repousa sobre as políticas públicas e não sobre consumo de tecnologia, bens e serviços. Ao perder este patrimônio, abdicamos desta autonomia. Para ter valor deveria ser autorizado pelo congresso nacional?
Há exagero na avaliação e análise da tecnologia de bens e serviços inserida nas sementes transgênicas.
a) Neste slide, temos a árvore genealógica do milho, que nos mostra seus ancestrais. Eles visualmente diferem muito, mas quanto aos genes, há apenas um gene diferente. Se observamos este slide estes diferentes milhos mexicanos todos têm os mesmos genes, assim como todas as raças de cães e gatos. Todas as abelhas operárias de uma colméia são filhas de uma mesma mãe, têm as mesmas seqüências de genes (o mesmo genótipo), todas são estéreis. Entretanto, se alimentarmos elas com geléia real, elas se tornam férteis e transformam-se em rainhas. A chave não está no gene, está no meio ambiente.
As empresas de engenharia genética e biotecnologia não possuem meios para comercializar ambiente, apenas podem vender genes, como os mágicos vendem ilusões. Contudo os genes podem ser registrados, patenteados, comercializados, impostos. Os agricultores possuem o meio ambiente e por isso eles sabem que cada ambiente transforma os genes de uma semente em característica diferentes, daí a biodiversidade e a garantia de colheitas e evolução cultural de uma sociedade.
As ETNs, para poder ter competitividade planetária, buscam uma semente universal, que possa ser plantada em todas as latitudes e longitudes. Baixos custos e altos lucros. Contudo, isso não é progresso ou desenvolvimento cientifico ou tecnológico. Isso é comércio e política de subjugo.
b) Os agricultores, que produziram sementes vegetais e animais, trabalharam com seu patrimônio genético e ambiente e principalmente com as características ambientais. Domesticaram as plantas e animais nos últimos seis mil anos, sem criar um gene sequer e deram origem a toda a biodiversidade de sementes cultivadas existentes no planeta, que deu origem à cultura e riqueza dos povos. O professor Schupham, durante 12 anos, tomou batatinhas e espinafre e as cultivou sob tecnologia industrial e tecnologia ecológica. Vejam as diferenças, embora os genótipos fossem os mesmos. É primordial inserir genes ou conhecer o meio ambiente?
Para finalizar: É identidade de todos os advogados serem os “guardiões das leis”, da mesma forma que os agricultores, em todas as culturas, através dos tempos, serem os “guardiões das sementes”, que garantem os alimentos de sua sociedade.
Com transgênicos há a proposta de sua substituição e nova condição?
Estando as necessidades de alimentar-se acima de normas, leis e comportamentos, pergunto: Quais as garantias, precauções, normas éticas, morais e filosóficas para a humanidade no novo contrato? Significa os mais pobres serem obrigados a aceitarem alimentos transgênicos?
Isto é transformar condição em identidade? E impor uma cidadania de segunda ou terceira categoria a africanos, asiáticos e latino americanos?
Foi triste e está sendo triste ver a política de jabaculês e burocratas, pesquisadores, professores, jornalistas, saírem aos brados, aceitando que uma condição seja transformada em identidade, fingindo não saber que o que está em jogo é autonomia, ou pior, não sabendo o que é autonomia.
Sem autonomia, há omissão e submissão. Não é possível perceber, entender ou diferenciar questões crematísticas das econômicas, sanitárias, ambientais, culturais etc. O presente “a pedido”, reconhece a transgressão, depois a Monsanto/Cargill é obrigada a “recall” dizendo que não irá cobrar seus direitos dos agricultores? Graciliano Ramos disse: “o que me atormenta não é o fato de ser oprimido. É saber que a opressão se erigiu em sistema.”.
A restauração da autonomia passa por firmeza de caráter. Lembremos Mário Quintana: “Eles passarão, eu passarinho.”.
Sebastião Pinheiro, Engenheiro Agrônomo e Florestal e membro do Conselho Superior da AGAPAN.