SOJA ? A História Não É Bem Assim
Hoje
em dia existe uma verdadeira febre de consumo de soja. Propagada como
um alimento rico em proteínas, baixo em calorias, carboidratos e
gorduras,
sem colesterol, rico em vitaminas, de fácil digestão, um ingrediente
saboroso e versátil na culinária, a soja, na verdade é mais um ?conto
do
vigário? do qual a maioria é vítima.
É bem verdade que a soja vem da Ásia, mais especificamente da China.
Porém,
os chineses só consumiam produtos FERMENTADOS de soja, como o shoyu e o
missô. Por volta do século 2 A.C., os chineses descobriram um modo de
cozinhar os grãos de soja, transfomá-los em um purê e precipitá-lo
através
de sais de magnésio e cálcio, formando o assim cha mado ?queijo de soja?
ou
tofu. O uso destes alimentos derivados de soja se espalhou pelo oriente,
especialmente no Japão. O uso de ?queijo de soja? como fonte de proteína
data do século 8 da era cristã (Katz, Solomon H: "Food and
Biocultural
Evolution: A Model for the Investigation of Modern Nutritional Problems",
Nutritional Anthropology, Alan R. Liss Inc., 1987 pág. 50).
Não é à toa que os antigos chineses não se alimentavam do grão de
soja. Hoje
a ciência sabe que ela contém uma série de substâncias que podem ser
prejudiciais à saúde, e que recebem o nome de antinutrientes.
Um destes antinutrientes é um inibidor da enzima tripsina, produzida pelo
pâncreas e necessária à boa digestão de proteínas. Os inibidores da
tripsina
não são neutralizados pelo cozimento. Com a redução da digestão das
proteínas, o caminho fica aberto para uma série de deficiências na
captação
de aminoácidos pelo organismo. Animais de laboratório desenvolvem
aumento n
o tamanho do pâncreas e até câncer nessa glândula, quando em dietas
ricas
submetidos a inibidores da enzima tripsina.
Uma pessoa que não absorve corretamente os aminoácidos, tem o seu
crescimento e desenvolvimento prejudicado. Você já notou que os
japoneses
são, normalmente, mais baixinhos? Já os descendentes que vivem em outros
países e adotam as dietas desses países, costumam ter uma estatura maior
que
a média no Japão. (Wills MR et al: Phytic Acid and Nutritional Rickets
in
Immigrants. The Lancet, 8 de abril de 1972, páginas 771-773).
O efeito inibitório da absorção de aminoácidos pode comprometer a
fabricação
de inúmeras substâncias formadas a partir dos mesmos, entre os quais, os
neurotransmissores. A enxaqueca, a cefaléia em salvas, a cefaléia do
tipo
tensional, e outras dores de cabeça, além de depressão, ansiedade,
pânico e
fibromialgia, são causadas por um desequilíbrio dos neurotransmissores.
Qualquer fator que prejudique a sua fabricaç ão, pode aumentar ou
perpetuar
esse desequilíbrio.
A soja contém também uma substância chamada hemaglutinina, que pode
aumentar
a viscosidade do sangue e facilitar a sua coagulação. Portadores de
enxaqueca já sofrem de um aumento na tendência de coagulação do sangue
e uma
propensão maior a acidentes vasculares. A pior coisa para esses
indivíduos é
ingerir substâncias que agravam essa tendência.
Tanto a tripsina, quanto a hemaglutinina e os fitatos, que mencionaremos a
seguir, são neutralizados totalmente pelo processo de fermentação
natural da
soja na fabricação de shoyu e missô, e parcialmente durante a
fabricação de
tofu.
Os fitatos, ou ácido fítico, são substâncias presentes não apenas na
soja,
mas em todas as sementes, e que bloqueiam a absorção de uma série de
substâncias essenciais ao organismo, como o cálcio (osteoporose), ferro
(anemia), magnésio (dor crônica) e zinco (inteligência).
Você não sabia de nada disso?
Mas a ciência já sabe, estuda esse fenômeno extensamente e não tem
dúvidas a
respeito. Já comprovou este fato em estudos realizados em países
subdesenvolvividos cuja dieta é baseada largamente em grãos. (Van-Rensburg
et al: Nutritional status of African populations predisposed to esophageal
cancer, Nutr Cancer, volume 4, páginas. 206-216; Moser PB et al: Copper,
iron, zinc and selenium dietary intake and status of Nepalese lactating
women and their breast-fed infants, Am J Clin Nutr, volume 47, páginas
729-734; Harland BF, et al: Nutritional status and phytate: zinc and
phytate
X calcium: zinc dietary molar ratios of lacto-ovo-vegetarian Trappist
monks:
10 years later. J Am Diet Assoc., volume 88, páginas 1562-1566).
Claro que a divulgação desse conhecimento não é do interesse de toda
uma
indústria multibilionária da soja. A soja contém mais fitato que
qualquer
outro grão ou cereal. (El Tiney AH: Proxim ate Composition and Mineral
and
Phytate Contents of Legumes Grown in Sudan", Journal of Food
Composition and
Analysis, v. 2, 1989, pp. 67-78).
Para os demais cereais e grãos (arroz integral, feijão, trigo, cevada,
aveia, centeio etc), é possível reduzir bastante e neutralizar em grande
parte o conteúdo de fitatos, através de cuidados simples, como
deixá-los de
molho por várias horas e, em seguida, submeter a um cozimento lento e
prolongado. (Ologhobo AD et al: Distribution of phosphorus and phytate in
some Nigerian varieties of legumes and some effects of processing. J Food
Sci volume 49 número 1, páginas 199-201).
Já os fitatos da soja não são reduzidos por essas técnicas simples,
requerendo para isso um processo bem longo (muitos meses, no mínimo) de
fermentação. O tofu, que passa por um processo de precipitação, não
tem os
seus fitatos totalmente neutralizados.
Interessantemente, se produtos como o tofu forem consumidos com carne,
ocorre uma redução dos efeitos inibidores dos fitatos. (Sandstrom B et
al:
Effect of protein level and protein source on zinc absorption in humans. J
Nutr volume 119 número 1, páginas 48-53; Tait S et al, The availability
of
minerals in food, with particular reference to iron J R Soc Health, volume
103 número 2, páginas 74-77).
Mas geralmente, os maiores consumidores de tofu são vegetarianos que
pretendem consumi-lo em lugar da carne!
O resultado?
Deficiências nutricionais que podem levar a doenças como dores
crônicas,
como dor de cabeça e fibromialgia. O zinco e o magnésio são
necessários para
o bom funcionamento do cérebro e do sistema nervoso. O zinco, em
particular,
está envolvido na produção de colágeno, na fabricação de proteínas
e no
controle dos níveis de açúcar no sangue, além de ser um componente de
várias
enzimas e ser essencial para o nosso sistema de defesas. Os fitatos da
soja
prejudicam a abosrção do zinco mais do que qualquer outra substância.
(Leviton, Richard: Tofu, Tempeh, Miso and Other Soyfoods: The "Food
of the
Future" - How to Enjoy Its Spectacular Health Benefits, Keats
Publishing
Inc, New Canaan, CT, 1982, páginas 14-15).
Por conta da tradição oriental, indústria da soja conseguiu inseri-la
num
patamar de ?alimento saudável?, sem colesterol e vem desenvolvendo um
mercado consumidor cada vez mais vegetariano. Infelizmente, ouvimos
médicos
e nutricionistas desinformados, ou melhor, mal informados por
publicações
pseudo-científicas patrocinadas e divulgadas pela indústria da soja,
fornecendo conselhos, em programas de TV em rede nacional, no sentido de
consumi-la na forma de leite de soja (até para bebês!!), carne de soja,
iogurte de soja, farinha de soja, sorvete de soja, queijo de soja, óleo
de
soja, lecitina de soja, proteína texturizada de soja, e a maior
sensação do
momento, comprim idos de isoflavonas de soja, sobre a qual comentarei mais
adiante neste livro. A divulgação, na grande mídia, destes produtos de
paladar no mínimo duvidoso, como sendo saudáveis, tem resultado em uma
aceitação cada vez maior dos mesmos por parte da população.
Que prejuízo! (Não para a indústria, é claro).
Sabe como se faz leite de soja?
Primeiro, deixa-se de molho os grãos em uma solução alcalina, de modo a
tentar neutralizar ao máximo (mas não totalmente) os inibidores da
tripsina.
Depois, essa pasta passa por um aquecimento a mais de 100 graus, sob
pressão. Esse processo neutraliza grande parte (mas não a totalidade)
dos
antinutrientes, mas em troca, danifica a estrutura das proteínas,
tornando-as desnaturadas, de difícil digestão. (Wallace GM: Studies on
the
Processing and Properties of Soymilk. J Sci Fd Agric volume 22, páginas
526-535). Além disso, os fitatos remanescentes são suficientes
para impedir
a absorção de nutri entes essenciais.
A propósito, aquela tal solução alcalina onde a soja fica de molho é a
base
de n-hexano, nada mais que um solvente derivado do petróleo, cujos
traços
ainda podem ser encontrados no produto final, que vai para a sua mesa, e
que
pode gerar o aparecimento de outras substâncias cancerígenas. Este
n-hexano
eduz, também, a concentração de um aminoácido importante, a cistina. (Berk
Z: Technology of production of edible flours and protein products from
soybeans. FAO Agricultural Services Bulletin 97, Organização de
Agricultura
e Alimentos das Nações Unidas, página 85, 1992). Felizmente, a cistina
se
encontra abundante na carne, ovos e iogurte integral - alimentos estes
normalmente evitados pelos consumidores de leite de soja.
Mas como? A soja não é saudável? Não é isso que dizem os médicos e
nutricionistas?
Infelizmente, a culpa não é deles, e sim do jogo de desinformação que
interessa à toda a indústria alimentícia. A alimentação, assim como a
saúde,
é um grande negócio. Dois terços de todos os alimentos processados
industrialmente, contêm algum derivado da soja em sua composição. É
só
conferir os rótulos. A lecitina de soja atua como emulsificante. A
farinha
de soja aumenta a ?vida de prateleira? de uma série de produtos. O óleo
de
soja é usado amplamente pela indústria de alimentos. A indústria da
soja é
enorme e poderosa.
E como se fabrica a proteína de soja?
Em primeiro lugar, retira-se da soja moída o seu óleo e o seu
carboidrato,
através de solventes químicos e alta temperatura. Em seguida, mistura-se
uma
solução alcalina para separar as fibras. Logo após, submete-se a um
processo
de precipitação e separação utilizando um banho ácido. Por último,
vem um
processo de neutralização através de uma solução alcalina. Segue-se
uma
secagem a altas temperaturas e à redução do produto a um pó. Este
produto,
altamente manipulado, possui seu valor nutricional totalmente c
omprometido.
As vitaminas se vão, mas os inibidores da tripsina permanecem,
firmes e
fortes! (Rackis JJ et al: The USDA trypsin inhibitor study. I. Background,
objectives and procedural details. Qual Plant Foods Hum Nutr, volume 35,
pág. 232).
Não existe nenhuma lei no mundo que obrigue os alimentos à base de soja
a
exibirem, nos rótulos, a quantidade de inibidores da tripsina. Também
não
existe nenhuma lei padronizando as quantidades máximas deste produto. Que
conveniente!
O povo... coitado... só foi ?treinado? para ficar de olho na quantidade
de
coleterol - esta sim, presente em todos os rótulos. Uma substância
natural e
vital para o crescimento, desenvolvimento e bom funcionamento do cérebro
e
do organismo como um todo.
O povo nunca ouviu falar nos antinutrientes e inibidores da tripsina
dos
alimentos de soja.
A proteína texturizada de soja (proteína texturizada vegetal, carne de
soja)
possui um agravante: a adição d e glutamato monossódico, no intuito de
neutralizar o sabor de grão e criar um sabor de carne.
Alguns pesquisadores acreditam que o grande aumento das taxas de câncer
de
pâncreas e fígado, na África, se deve à introdução de produtos de
soja
naquela região. (Katz SH: Food and Biocultural Evolution: A Model for the
Investigation of Modern Nutritional Problems. Nutritional Anthropology,
Alan
R. Liss Inc., 1987 pág. 50).
A minha dica: Quando consumir soja, utilize apenas os derivados altamente
fermentados, como o missô e o shoyu. Mesmo assim, muita atenção para os
rótulos. Compre apenas se neles estiver escrito ?Fermentação Natural?,
e se
NÃO contiverem produtos como glutamato monossódico e outros ingredientes
artificiais. Quando consumir tofu, certifique-se de lavá-lo com água
corrente, pois grande quantidade dos antinutrientes ficam no seu soro.
Sou esposa do Milano, prima da Maria Cecília Saraiva Wilms. Não sei se
estás
lembrado de mim.
Bem, já que ninguém do Anchieta se manifestou, o Milano me mostrou tua
mensagem e achou que talvez eu pudesse esclarecer algumas dúvidas. Sou
nutricionista e atuo em consultório e presto consultorias para
restaurantes.
Estudei sobre soja durante um ano. Foi o tema de minha monografia no
pós-graduação em Nutrição Clínica, com o título: "Utilização
da soja para
prevenção e tratamento da Síndrome do Climatério".
Entrei em contato com várias pessoas que estudam a soja sem interesses
comerciais, ligadas ao ramo da saúde e analisei pesquisas de várias
partes
do mundo (cerca de 120 publicações). A conclusão do meu trabalho foi de
que
realmente esta leguminosa é muito benéfica. Ela é rica em proteínas,
minerais e vitaminas do complexo B. A soja atua na prevenção de várias
doenças degenerativas, como o câncer, principalmente de próstata e de
mama,
ajuda a reduzir o colesterol (o que tenho comprovado no consultório),
também
ajuda a amenizar os sintomas e sinais da Síndrome do Climatério, a
manter e,
em muitos casos aumentar a massa óssea (prevenção da osteoporose),
inibe o
desenvolvimento de lesão ateroesclerótica, tem efeito antioxidante,
além de
ter propriedades antivirais, antifúngicas, antibacterianas e
hipertensivas.
Em outubro de 1999, o FDA autorizou a utilização do "selo
saúde", pelo qual
fica autorizada a a divulgação no rótulo dos produtos que o consumo de
25g
de soja ao dia ajuda na prevenção de doenças coronarianas.
Poderia ainda escrever mais sobre esta leguminosa. Mas vou parar por aqui
para não ficar cansativo.
Quanto ao artigo. Quem o escreveu? Muitas informações estão corretas,
como a
presença de antinutrientes na soja e os malefícios de sua substituição
por
outros produtos. Só que foi colocada de forma alarmista. Ela pode ser
prejudicial se for consumida em excesso e utilizada no lugar de outros
alimentos, assim como outro qualquer seria.
A maioria dos alimentos tem antinutrientes. Lembro de um curso de
toxicologia alimentar que nos foi apresentado o "Cardápio do
Drácula", onde
constatavam entre outros o feijão, espinafre o amendoim e suas toxinas
naturais.
Por este motivo pregamos na nutrição a variedade dos alimentos, o
equílibrio
e a proporção de todos os grupos.
Pitágoras, nascido em 572 a.C já dizia:
"Foge do demais e do muito pouco. É preciso escolher em tudo o meio
justo e
bom."