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Desenvolvimento e Sustentabilidade Como se pode esperar de um texto acadêmico, não nos basta somente dizer ao que se vem um texto. É preciso delimitar objetivos, dizer qual ou quais metodologias serão utilizadas, etc. Entretanto, trata-se de algo que podemos deixar de lado, se não temos pretensão acadêmica, ou ainda, se o que buscamos não é a reprodução de um modelo, mas tentar possibilidades. Assim, justifica-se o modo de escrita, que buscará ser coerente com a forma lógica dessas possibilidades. Quando falamos sobre desenvolvimento, usualmente nos referimos a algo que não pensamos muito a respeito do que seja. De modo geral, achamos que desenvolvimento quer dizer "ir para a frente". No entanto, há algo que pode ser dito sobre isso. Durante alguns anos, algo em torno de 40 anos, produziu-se bastante conhecimento, sobretudo no campo da filosofia da história, sobre a crítica do positivismo e do progresso. Não por coincidência, o termo desenvolvimento surge no pós-guerra como placebo para resolver o grave problema psicológico-social de uma Europa destruída pela discórdia e pela necessidade de reproduzir um modelo. Apenas uma digressão rápida. Nem todos sabemos o que é e como funciona uma epistemologia, mas todos fazemos uso delas o tempo todo; tal como nem todos sabemos muito bem o que é e como funciona um alternador, mas fazemos uso diariamente nos meios de transporte que usamos. Há uma epistemologia que produziu esse progresso, e que também produziu o nosso modo de pensar e viver. Há também uma epistemologia que produziu o modernismo, e o nazismo, e o comunismo e o anarquismo. Tais (e outros) são os frutos de uma epistemologia comum, profundamente arraigada na nossa cultura, de tal maneira, que não somos capazes de refletir sobre ela, tal como não somos capazes de refletir sobre o sol, ou sobre as nuvens. A cotidianidade nos produz banalização. Dependemos da novidade para sermos afetados pela diferença. Pela novidade é que entendemos e compreendemos o mundo. A epistemologia que nos orienta desde há muito tempo a que me refiro aqui, pode-se chamar de "tradição judaico-cristã". Sem muito rigor ou propriedade no uso dessas palavras, como pede um texto acadêmico, digo que deriva de tal tradição a necessidade de termos um momento presente, que chamamos de "real", e um momento futuro, que chamamos de "possível". Neste diálogo entre o agora e o depois, construímos nosso mito do desenvolvimento, pensando justamente a partir do cerne dessa epistemologia. E qual é esse cerne a que se refere este texto? A resposta não pode ser muito direta. Se pensarmos em quando éramos crianças, vamos lembrar de muitas coisas, principalmente se pensarmos fazendo um exercício de lembrar e tentar sentir de novo o que sentíamos nessa época. À pergunta que se faz a uma criança: "O que você quer ser quando crescer?", a criança responde imediatamente a sua fantasia. Nossa natureza é matar fantasias? Ou nossa natureza é realizar fantasias? Esta é apenas mais uma pergunta, dentre outras, que leva à compreensão do tal "cerne" dessa epistemologia sobre a qual se fala. O que mudou de quando éramos crianças para cá, é que já não podemos nos guiar pelas nossas fantasias para construir nosso presente. Será? Não se diz aqui que o objetivo é voltarmos a viver para buscar fantasias. Ao contrário, o que se faz é tentar enunciar uma característica da nossa cultura. A tradição judaico-cristã nos coloca uma separação entre dois mundos: -um mundo real, que aparece todos os dias, o tempo todo, que faz como que sejamos o que somos, e que permite que seja produzido tudo: conhecimento, tecnologia, produtos, cultura, etc; - um mundo ideal, com o qual sonhamos, que as crianças tanto cultivam e mudam, todo o tempo. Com mundo ideal, quer-se dizer fundamentalmente "modelo" de mundo. A separação entre o mundo real e o ideal é a mesma separação entre matéria e alma, corpo e espírito, objeto e sujeito, etc. Fazemos o tempo todo essa separação. Isso faz parte da nossa cultura. O planejamento é uma forma elaborada de expressar essa epistemologia. Planejar para o desenvolvimento não é outra coisa que "pensar em ir para a frente". E nisso, pouco há de diferença entre o crescimento e o desenvolvimento. A gravidade disso não está meramente nesse "desenvolvimento", que se origina no pós-guerra como paliativo social. A gravidade desse problema é que, sob a aparência de "desenvolvimento" surge a mesma tradição concentradora, que reproduz uma outra tradição, que separa o ser humano do seu meio. Quando nos separamos da natureza, deixamos de percebê-la como agente. Apenas a vemos como passiva, e a chamamos de "recursos naturais". Em outros termos, fizemos da natureza um conjunto de ferramentas e utensílios para o nosso desenvolvimento. "Desenvolver" significa, ao pé da letra, no contexto em que foi criado o termo: deixar de lado aquilo que nos impede de voltar a crescer. Mas o que queremos dizer quando falamos em "desenvolvimento sustentável"? Diz-se que a luta por palavras é vã. Mas talvez valha o esforço de considerar que elas expressam o conteúdo das nossas idéias, e que portanto, é a partir delas é que vamos planejar o futuro, ou seja, é a partir das palavras é que surge o desenvolvimento. Faz-se necessário então um esforço melhorado para entender o que se queira dizer com tudo isso. Sustentável é aquilo que permite a duração. O que se sustenta, se mantém através do tempo, a despeito das transformações ocorridas no processo. Um objeto sustentável é algo que muda, e que mesmo assim, perdura. "Planejar para durar" poderia ser o slogan de uma empresa de desenvolvimento sustentável. A crítica que se faz aqui é justamente sobre o conceito de desenvolvimento. Nada pode ser tão duradouro quanto a relação entre o tempo e o espaço. Uma definição da física para a velocidade é: "velocidade é a quantidade de movimento de um corpo" NEWTON, Isaac. Peso e Equilíbrio dos Fluidos, Livro I, Definição IX (acho). Só se movimenta aquilo muda. "Movimento" vem de de "móvel", e do latim "movere", que também dá origem a "móbile". Todas são palavras que surgem junto com o termo "mudança", que está próximo de "mutação", "mutagênese", etc. Só é veloz aquilo que muda. A mudança é, portanto, a característica mais marcante daquilo que relaciona espaço e tempo. Se assumimos que nada pode ser mais duradouro que o espaço, ou o tempo, somos obrigados também a assumir que a mudança (um reflexo da velocidade), é aquilo que brota da relação entre espaço e tempo. Portanto, como resultado de um pequeno exercício lógico, "a mudança é aquilo que mais dura". O que isso tem a ver com desenvolvimento? Bem, quando consideramos que devemos "ir para a frente", supomos que estamos em um lugar, e que vamos a um outro lugar. Esse movimento deve, com certeza, ter alguma quantidade, ou seja, ir para a frente tem velocidade. Essa velocidade, nós acadêmicos gostamos de chamar de "índice de desenvolvimento". O problema grave que enfrentamos (e é por isso que se escreve esse texto) é o seguinte: Quando falamos em "desenvolvimento", nos referimos a algo que muda, e algo que permanece. Nós, seres humanos, mulheres e homens, vamos para a frente, e algo fica. O que fica é a natureza, que chamamos muito funcionalmente de "recursos naturais". Enquanto nós mudamos, pensamos que a natureza permanece intacta. O problema não é que pensamos isso. A natureza não permanece intacta, independente dos nossos pensamentos ou fantasias. O problema é que a "velocidade" da natureza, é muito diferente da "velocidade" das nossas ações. O nosso tão protegido desenvolvimento anda muito mais rápido que a natureza no seu ritmo de mudança. O problema, fundamentalmente, é que queremos mudar a natureza segundo o ritmo das nossas idéias e fantasias, projetando um modelo que não existe, ao que chamamos de planejamento. Na busca louca de concretizar e tornar real esse modelo fantástico, deixamos de perceber que a velocidade da natureza segue seu próprio ritmo. A Biologia acadêmica gosta de chamar esse ritmo de "evolução", de onde sai a "sucessão natural". Não por coincidência, o mesmo pensamento que produz o produtivismo, nos conduz também para o evolucionismo, ambos baseados na idéia judaico-cristã de modelo de mundo. Note-se que isto é um texto acadêmico, e que portanto, faz as devidas aproximações para acondicionar o que se quer dizer, segundo um rigor metodológico e sistemático. Da relação entre essas duas coisas (o evolucionismo e o positivismo), surgem no século XIX três vertentes históricas de organização da sociedade, a saber: o comunismo, o anarquismo e o nazi-fascismo. Os três projetam um mundo ideal, um modelo de mundo, que deixam de perceber a natureza e consideram exclusivamente (ou seja, fazem o inverso da inclusão) o ser humano e suas organizações, a que chamam sociedade. Os três modelos são, é claro, pautados na prática, e a prática dos três nos conduz a experiências históricas que não cabe citar aqui, mas que ainda hoje nos vemos (e aos outros) teimando em reproduzir. Já no século XX, temos uma outra experiência, essa sim bastante nova e interessante, que a tecnologia gostou de chamar de "modernismo". Pautada pelos mesmos valores evolucionistas e positivistas, mas já amadurecida pelo insucesso estrutural do anarquismo, do comunismo e do nazi-fascismo, essa experiência vale-se da riqueza conceitual dos três movimentos para fundar algo estranho. Nos três exemplos anteriores, havia algo pelo que se pautar. O modelo podia ser "visto", entendido e compreendido. Do socialismo, a concentração do estado para depois redistribuir; do nazi-fascismo, a intolerância às diferenças, ou em outras palavras, a homogenização; e do anarquismo, a dissipação do foco, onde não há inimigo contra o qual combater. Compreendidos estes elementos foi possível construir algo escondido, pulverizado em todas as direções, e profundamente arraigado. Nos absorvemos por esta cultura, e a colocamos como prática cotidiana, mas não pudemos percebê-la, devido à falta de exemplos diferenciados. Somos imersos no fluxo produzir-consumir. Isso permitiu cunhar a palavra "desenvolvimento", sob a ótica estranha de uma volta à vida. Dadas estas condições, vale o esforço em repensar o termo "desenvolvimento sustentável". Como podemos supor um desenvolvimento que não siga a lógica do crescimento, a despeito da velocidade da natureza? Esta é a pergunta-chave de boa parte dos cientistas preocupados com a questão ambiental nas últimas décadas. Sendo bastante franco, não me parece possível supor tal modelo de desenvolvimento, por uma simples condição: trata-se de um modelo. A natureza não parece seguir modelos para ter a velocidade que tem. Ao contrário, ela muda conforme os resultados da mudança anterior, e assim sucessivamente. Ela se sustenta sozinha, em seu equilíbrio natural, também chamado de homeostase, a partir do conjunto de fatores atuais. A natureza não parece fazer as coisas por planejamento, nem por metodologia. Daí sua capacidade de auto-regulação. Por não seguir um modelo de caminho, ela trilha seu próprio caminho, e o faz na velocidade que pode. Velocidade é a quantidade de movimento. A velocidade da natureza é o conjunto de mudanças que acontecem o tempo todo. Do descompasso entre nosso mundo modelado e o mundo natural, surge o que chamamos de desequilíbrio, e que também chamamos de destruição, insustentabilidade, etc. Assim, o próprio conceito de desenvolvimento parece trazer o germe da insustentabilidade. "Desenvolvimento Sustentável" parece então, ser uma junção de duas palavras incompatíveis, como por exemplo: Guerra para a Vida, ou Educação para o Desconhecimento. Se é realmente assim, não chego a dizer que sou inimigo do desenvolvimento, mas pelo menos, não sou seu amigo; não farei esforços para reproduzir sua cultura. |