12/08/2003
FRITJOF CAPRA DEFENDE
TRANSVERSALIDADE NAS POLÍTICAS PÚBLICAS
O
físico Fritjof Capra destacou a importância da transversalidade das questões
ecológicas nas políticas públicas na abertura dos Diálogos para um Brasil
Sustentável, que acontecem até o dia 15 de agosto, em Brasília (DF), com a
participação de uma rede internacional de ecologistas. “A sustentabilidade só
pode acontecer se for implementada simultaneamente em diversas áreas. A
transversalidade é uma enorme tarefa. É preciso compreender o principal princípio
da ecologia: a vida não surgiu no planeta pela competição, mas através da
cooperação, das parcerias e da formação de redes”, alertou Capra.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, destacou que a transversalidade e o
controle social são alguns dos princípios que orientam o trabalho do Ministério.
“Sem a transversalidade será muito difícil termos políticas públicas do
conjunto do Governo que contemplem o desafio da sustentabilidade social,
cultural, política, social e ambiental. Deste desafio não podemos abrir mão”,
disse.
A importância do controle social também foi destacada: “Fazer uma política
com a participação da sociedade é manter o governo aberto para receber e
ofertar contribuições que podem criar um terceiro produto, uma nova síntese.
A realização destes Diálogos é uma sinalização clara de que queremos que
as políticas tenham esta contribuição e a participação positiva da
sociedade”, afirmou.
“Esta rede mundial de ecologistas está aqui para nos ajudar a tornar o nosso
sonho realidade. A ajuda virá para que possamos fazer com que esta carga de
esperança, de dificuldades e de sonhos possa ser compartilhada com muitas
pessoas, em muitos lugares do mundo, com muitos olhares, muitos saberes para
fazer a melhor síntese no sentido da preservação da vida”, afirmou Marina
Silva.
Para o Secretário de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável do Ministério
do Meio Ambiente, Gilney Viana, “esta reunião de trabalho promete inaugurar
uma série de diálogos internacional para um Brasil sustentável para nos
ajudar a superar os desafios que nos são colocados”.
A representante do Instituto Ecoar, Miriam Dualibi, uma das coordenadores do
evento, acredita que é possível fazer do Brasil um grande exemplo para o
planeta. “Estamos promovendo a união deste conhecimento que já existe no
Brasil com o conhecimento de cientistas e pensadores estrangeiros que também
tem pautado a sua vida em busca da sustentabilidade para contribuir com a formação
desta grande rede global em busca de caminhos sustentáveis”, explica.
“É inimaginável pensar que podemos mudar sozinhos. Nós que construímos,
progressivamente, o Fórum Social Mundial, afirmamos que um outro mundo só será
possível se juntarmos esforços internacionais, as inteligências, as vontades,
os movimentos, organizações e setores empresariais que realmente querem mudanças”,
defendeu Jean Pierre Leroy, do Programa Brasil Sustentável e Democrático.
Os Diálogos para um Brasil Sustentável foram propostos no início do ano
durante o 3º Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (RS), quando Fritjof Capra
manifestou à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a sua motivação de
ajudar o Brasil, mobilizando pessoas no mundo inteiro. O evento é uma parceria
entre o Ministério do Meio Ambiente, Fritjof Capra, Instituto Ecoar e Programa
Brasil Democrático e Sustentável.
Ética Ecológica na Política
A seguir, os principais trechos da apresentação do físico e teórico de
sistemas Fritjof Capra na abertura dos Diálogos para um Brasil Sustentável,
que acontecem em Brasília até 15 de agosto.
“Formular políticas para um Brasil sustentável significa introduzir uma nova
dimensão ética na política. A ética ecológica é um padrão de
comportamento que flui através da percepção de que todos pertencemos à
comunidade global da biosfera. E nós devemos nos comportar como os outros seres
vivos – as plantas, os animais e os microorganismos que formam esta vasta rede
da vida, sem interferir com a capacidade surpreendente desta rede de sustentar a
vida”.
“Uma comunidade sustentável é organizada de maneira a promover a vida, os
negócios, a economia, infra-estrutura e tecnologia sem interferir com a herança
da natureza de sustentar a vida. O primeiro passo deste desafio é entender o
princípio da organização dos ecossistemas para sustentar a rede da vida.
Quando estudamos os princípios básicos da ecologia, descobrimos que eles são
os princípios de organização de todos os sistemas vivos. Todos os organismos
vivos dependem de um fluxo contínuo de energia e matéria, e todos produzem
lixo, mas o lixo de uma espécie é o alimento de outra. A energia que move os
ciclos ecológicos flui do sol. A rede é o padrão básico de organização da
vida. Desde o princípio, há mais de três bilhões de anos, a vida surgiu no
planeta não através da competição, mas através da cooperação, de
parcerias e da formação de redes.”
“A natureza sustenta a vida criando e nutrindo as comunidades. Nenhum
organismo sobrevive isolado. Os animais dependem da fotossíntese das plantas,
as plantas dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais, bem como do
nitrogênio fixado pelas bactérias e raízes, e juntos as plantas, animais e
microorganismos regulam toda a biosfera e mantém as condições que mantém a
vida”.
“A sustentabilidade não é uma propriedade individual, mas uma propriedade de
uma rede inteira de relações. Ela sempre envolve toda a comunidade. Esta é a
lição profunda que precisamos aprender da natureza. O modo de sustentar a vida
é construir e manter comunidades. As comunidades interagem entre si. A
sustentabilidade é um processo dinâmico de evolução conjunta. Ela inclui o
respeito à integridade cultural e ao direito básico de autodeterminação e
auto-organização das comunidades. Isto significa que a sustentabilidade ecológica
e a justiça econômica são interdependentes. São dois lados da mesma
moeda”.
“O fato de a sustentabilidade ser uma propriedade de uma rede inteira de relações
significa que a sustentabilidade do Brasil não pode ser implementada mudando
apenas a política energética, ou os subsídios para a agricultura. Ela só
pode acontecer se for implementada simultaneamente em diversas áreas. A
transversalidade é uma enorme tarefa, e só obteremos sucesso se realmente
compreendermos o principal princípio da ecologia: a vida não surgiu no planeta
pela competição, mas através da cooperação, parcerias e formação de
redes”.
(MMA)