Reportagem da Revista Veja

As verdades e as mentiras

O que é preciso saber para acompanhar a discussão sobre os riscos da ingestão de alimentos transgênicos sem se deixar levar por ataques e defesas apaixonados


Diogo Schelp

AFP
O PAVOR PROVOCADO PELA VACA LOUCA
As acusações feitas aos alimentos transgênicos incluem uma comparação estapafúrdia entre possíveis efeitos do grão modificado no corpo humano e a doença da vaca louca

Os alimentos geneticamente modificados são uma realidade cotidiana. Há grãos transgênicos usados no preparo de bolachas, cereais, óleo de soja, pães, massas, maionese, mostarda e papinhas para crianças. Além de ocupar prateleiras dos supermercados, o transgênico ocupa também o noticiário envolvido numa onda de acusações e defesas apaixonadas, pouco apropriadas ao esclarecimento da opinião pública. A lista de especulações a respeito dos riscos associados à ingestão dos alimentos modificados é enorme, e a resposta por parte da indústria não tem a isenção suficiente para ser aceita como verdadeira. Para tirar as principais dúvidas a respeito do assunto, VEJA procurou cientistas ligados a alguns dos principais centros de pesquisa no Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e Itália. Todos têm em comum o fato de serem pesquisadores independentes. Nenhum deles participa da produção nem da pesquisa comercial de transgênicos.

1. ALERGIA
A ingestão do grão transgênico pode provocar mais alergias do que a versão natural?
O corpo humano cria anticorpos contra elementos estranhos, como bactérias, vírus e pó. Cerca de 2% dos adultos e 7% das crianças desenvolvem anticorpos contra proteínas presentes em alimentos, em geral soja, leite, ovos, peixes e frutos do mar. A lista de alimentos apontados como fonte alergênica contém mais de 180 itens não transgênicos. Como a transgenia envolve a troca ou adição de proteínas, os experimentos laboratoriais podem chegar a espécies que provocam, sim, novas alergias. Justamente em função disso, os fabricantes testam exaustivamente as sementes e destroem as espécies que causam alergia após a aplicação de testes. Recentemente, uma pesquisa com sementes de feijão realizada no Brasil foi encerrada depois que o laboratório descobriu – e anunciou – ter chegado a uma espécie alergênica. Para analisar a possibilidade de falhas no processo, cientistas independentes, não envolvidos com a produção de transgênicos, estudaram a segurança dos alimentos que, depois de testados e aprovados, foram colocados no mercado. Não se identificou o surgimento de alergias adicionais. Detectaram-se casos de alergia a grãos transgênicos apenas entre alérgicos ao grão comum.

2. FRACASSO
Qual é o destino dos grãos experimentais quando as pesquisas com transgênicos fracassam e resultam em espécies que podem produzir alergias?
As experiências com genes são feitas sob rigorosa fiscalização, e apenas as espécies seguras deixam o laboratório. No caso dos clones, 97 de cada 100 experiências acabam abortadas porque os animais gerados são deformados. O mesmo vale para os transgênicos. Em meados dos anos 90, a Embrapa tentou produzir um feijão que tinha o gene da castanha-do-pará. Esse gene estimulava a produção de aminoácidos que faltavam ao feijão, deixando o alimento mais nutritivo. No entanto, descobriu-se que o gene podia causar alergia em quem o ingerisse, e o experimento foi abandonado. No ano passado, tentativas feitas na Inglaterra para tornar batatas resistentes a um determinado inseto também fracassaram, porque a planta passou a ser vulnerável a outros insetos. Em todos esses casos, a produção dos laboratórios foi destruída, em geral incinerada.

3. CÂNCER
Passaram-se décadas até que se estabelecesse uma relação de causa e efeito entre o cigarro e o câncer. Por que acreditar que os transgênicos não oferecem risco nessa área?
A fumaça do cigarro contém quase 5.000 substâncias, das quais sessenta são consideradas cancerígenas. Sabe-se que o cigarro é responsável por 90% dos casos de câncer de pulmão e por 35% dos vários outros tipos. Tais dados foram produzidos em estudos variados preparados pela comunidade científica. E é essa mesma comunidade científica que informa que até o momento não foram identificados casos de câncer provocados por transgênicos. Entre o início das pesquisas de um grão transgênico e o lançamento desse grão no mercado na forma de produto são gastos em média seis anos em estudos – equivalentes ao tempo consumido na pesquisa de novos medicamentos. Cientistas independentes garantem que o prazo é suficiente para estudar detalhadamente as espécies, avaliar seus impactos no ambiente e investigar eventuais riscos à saúde.

4. DNA
Os alimentos modificados são feitos com pedaços de DNA que não pertencem à semente original, muitas vezes retirados de vírus e bactérias. Tais "corpos estranhos" não podem fazer mal ao homem?
Podem, mas a chance estatística é a que tem uma pessoa de ser atingida por um raio ao atravessar um campo de futebol numa tarde de chuva. Ou seja, trata-se de hipótese cientificamente possível, mas estatisticamente improvável. Uma vez ingerido, o DNA da planta transgênica é decomposto no processo de digestão da mesma maneira que o DNA de uma planta convencional. Se ele não for digerido, há a possibilidade de que seja incorporado de alguma forma pelo corpo humano e desenvolva alguma doença. A mesma possibilidade de ser atingido por um raio, afirmam os estudiosos.

5. ANTIBIÓTICO
Alguns transgênicos recebem genes de bactérias resistentes a antibióticos. Quando esses alimentos são ingeridos, as bactérias presentes no corpo humano não vão se tornar resistentes aos antibióticos e impedir o combate a uma doença?
Avicultores e pecuaristas utilizam antibióticos regularmente para evitar que os animais desenvolvam certas doenças que, ao atingir o sistema imunológico, prejudicam o ritmo de engorda. Há vários estudos mostrando o efeito no corpo humano da ingestão de carne cujo animal foi tratado com antibiótico. Calcula-se que as pessoas tenham no corpo 200 vezes mais bactérias do que o total de seres humanos nascidos desde o surgimento do homem. O que se sabe é que o antibiótico, se utilizado de forma incorreta ou descontrolada, pode aumentar a resistência de algumas dessas bactérias. Em caso de doença, reduz-se a gama de antibióticos que atuem de forma eficaz contra a bactéria causadora do mal. É diferente com os transgênicos. Os grãos transgênicos possuem um gene resistente a um antibiótico, e não o antibiótico em si. É o contrário dos animais, cuja carne contém os antibióticos que receberam durante o período de engorda. O risco de as bactérias presentes no sistema digestivo se tornarem mais resistentes ao se combinar com o gene da planta transgênica é outra hipótese científica de efeito estatístico irrelevante. Em sete anos de consumo em larga escala de alimentos transgênicos, principalmente soja, milho e canola, nunca foi registrado um só caso de doença relacionada ao produto geneticamente modificado.

6. MUTAÇÃO
Para a produção de transgênicos são usadas cadeias de DNA que não existem na natureza. A ingestão de alimentos geneticamente modificados não pode alterar a cadeia de DNA do próprio homem?
Os ecologistas muitas vezes se referem ao mal da vaca louca como se fosse um caso pertinente à discussão a respeito de alimentos modificados. Naquele episódio, o rebanho bovino, exclusivamente vegetariano, foi alimentado por criadores europeus com rações preparadas com restos de outros animais. O uso de animais doentes para alimentar os sadios gerou uma epidemia que levou à morte 200.000 animais somente na Inglaterra. O causador seria uma proteína mutante dos animais, capaz de provocar a degeneração do tecido cerebral. Embora a história seja assustadora, não há nenhuma relação entre uma coisa e outra. Primeiro, a ração dos bois não era resultado de modificação genética, mas de simples mistura. Depois, o DNA das plantas transgênicas em geral não é modificado de forma aleatória, mas controlada. No processo digestivo, o DNA do transgênico é fragmentado, da mesma forma que o DNA presente em pêlos de ratos e restos de baratas identificados em diversos alimentos convencionais, até mesmo em orgânicos.

7. EBOLA
Qual o risco de uma semente transgênica em fase de teste ser roubada do laboratório e contaminar a natureza?
Na Inglaterra, em 1978, uma amostra do vírus da varíola vazou no laboratório de uma universidade, contaminando uma pesquisadora. Nos Estados Unidos, o Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) é um órgão do governo que estuda vírus e desenvolve vacinas. Na sede de Atlanta estão guardados em cofres-fortes frascos com alguns dos mais temíveis vírus, entre eles o da varíola e o ebola. Muito já se escreveu sobre as terríveis conseqüências para a humanidade se ocorresse ali um acidente ou um atentado. E no caso dos laboratórios que pesquisam os transgênicos, não é possível acontecer a mesma coisa? Uma semente não pode escapar e contaminar a natureza? Na fase em que as sementes são "batizadas" com genes de microrganismos, o trabalho é interno, feito em laboratório. Elas são inicialmente plantadas em ambientes fechados. Numa etapa seguinte, após vários testes, as sementes são plantadas em fazendas experimentais, totalmente monitoradas para evitar acidentes. Elas são mantidas a uma distância muito grande de outra plantação convencional ou de ambientes selvagens. Em tese, uma dessas sementes ou o pólen podem se espalhar pelo ambiente. Mas aqui novamente a estatística trabalha a favor da ciência. A probabilidade de proliferação de uma planta fora da lavoura é de 0,1%, segundo estudo divulgado neste ano pelo governo inglês.

8. VENTO
Se o vento espalhar sementes de uma lavoura transgênica, outras espécies naturais não podem sofrer mutações perigosas?
O que se constatou até o momento é que, em alguns casos, ervas daninhas se cruzam com as plantas transgênicas e adquirem suas características, como a resistência a um inseticida ou a herbicidas. No Canadá, onde há liberdade total para o plantio de determinadas variedades de canola tolerantes a herbicidas, há casos de ervas daninhas que adquiriram a mesma característica. Os cientistas avisam que a capacidade de gerar espécies resistentes a herbicidas não é exclusiva dos transgênicos. Nos últimos quarenta anos, surgiram em todo o mundo cerca de 120 espécies de plantas não transgênicas resistentes a herbicidas. Todas proliferaram apenas nas lavouras, não em ambiente selvagem.

9. SOLO
As plantas liberam DNA no solo, pelas raízes. Os cientistas já pesquisaram qual é o efeito do acúmulo de DNA modificado no solo?
A maior parte do DNA é destruída durante o processo de decomposição natural da planta, mas há uma pequena possibilidade de que seus genes sejam incorporados por microrganismos que vivam ao redor de sua raiz. Ou seja, as bactérias que habitam o solo podem adquirir os genes das plantas, sejam elas transgênicas ou não transgênicas. No caso dos alimentos modificados, que muitas vezes recebem o gene de uma bactéria, a dúvida é o que poderia acontecer se os genes adquiridos pela bactéria que mora no solo forem justamente aqueles que pertenciam a outra bactéria. Os estudos realizados em lavouras sugerem que o efeito desse processo tende a ser insignificante para o microrganismo, mas os cientistas recomendam que o fenômeno deve ser analisado com mais profundidade.

10. FAUNA
Há indício de que algum animal, seja ele grande ou pequeno, como um inseto, possa sofrer em função dos transgênicos?
Os estudos sobre o efeito dos transgênicos na fauna apontaram para duas conclusões. A primeira identificou que, em algumas plantações de grãos modificados, a população de minhocas, mariposas e outros insetos registrou uma pequena redução. No que diz respeito a eventuais conseqüências em outros animais que se alimentaram de sementes transgênicas, não se descobriu até o momento nenhuma alteração no mapa genético original nem mesmo a ocorrência de alguma doença.

Transgênicos, os grãos que assustam

Todo grande avanço científico, quando é bom, parece mágico num primeiro momento. Passado algum tempo, acaba sendo incorporado como prática rotineira, e ninguém consegue pensar como seria viver sem ele. Em meados do século XIX, a mortalidade entre as mulheres grávidas era altíssima, simplesmente porque os médicos mexiam em cadáveres e depois realizavam os partos – sem lavar as mãos. A assepsia com uma solução de cloreto de cal reduziu a mortalidade das parturientes a menos de um décimo do que era antes. Milagre! Mais ou menos na mesma época, surgiu a anestesia, dando às pessoas o direito de ser tratadas sem sentir dor. Uma bênção. Agora imagine a vida sem assepsia ou anestesia. No capítulo dos grandes avanços, as experiências genéticas envolvendo a fauna e a flora parecem ser aquilo em que mais perto a ciência chegou da alquimia. É mágica pura. Os pesquisadores criam animais e plantas com um pequeno porcentual de diferença em relação aos que existem na natureza – e, como se pode acompanhar pela repercussão dessas intervenções, a sociedade ainda observa os experimentos com espanto e preocupação. Registram-se manifestações contra as modificações genéticas nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e até na pobre África, onde os transgênicos poderiam em tese ajudar a combater a fome. Recentemente, a Zâmbia recusou um carregamento de milho transgênico doado pelos Estados Unidos.

Na semana passada, os transgênicos ocuparam espaço especial também no Brasil. Houve manifestação de ativistas do Greenpeace em supermercados, um governador de Estado inventou uma blitz caça-manchetes para identificar carregamentos transgênicos e Brasília se viu envolvida em mais uma rodada de discussões para ver se autoriza ou proíbe a produção de alimentos modificados geneticamente no país. Nos últimos sete anos, os transgênicos vêm sendo cultivados em mais de quinze países. O Brasil é um deles. Planta-se soja modificada no Rio Grande do Sul. A maior parte do mundo já tomou uma posição a respeito dos alimentos geneticamente modificados. França, Inglaterra e Alemanha autorizam experiências genéticas, mas proíbem o cultivo comercial. Canadá, China e Argentina usam os transgênicos livremente. São transgênicos um terço das plantações de soja e milho americanos e metade do algodão australiano. O Brasil vai na contramão e se mantém em impávido silêncio. Mesmo sendo o país o segundo maior produtor mundial de soja, o governo não diz se plantar transgênicos é legal ou ilegal. Cansados de esperar, os agricultores gaúchos decidiram cuidar da vida. Atravessaram a fronteira com a Argentina e voltaram de lá com sementes transgênicas. Resultado: calcula-se que 80% da soja plantada no Estado já seja geneticamente modificada. A realidade nacional ficou exótica. Os fazendeiros plantam e colhem a safra antes mesmo de haver legislação definitiva. Tornaram-se a versão rural dos sacoleiros, que contrariam as leis de forma descarada.

Beto Barata/AE

ISENÇÃO COMPROMETIDA
A ministra Marina Silva, do Meio Ambiente: uma de suas principais assessoras foi a coordenadora das campanhas contra alimentos modificados promovidas pelo Greenpeace


Na semana passada, o governo Lula encenou um espetáculo lamentável. Os ministros fizeram reuniões e, ao fim delas, ficou acertado que o governo vai mandar para o Congresso Nacional um projeto de lei cujo teor é de assustar. O registro de um produto transgênico só será concedido se passar por cinco instâncias governamentais – e for aprovado em todas. Trata-se de um pesadelo kafkiano. A proposta acabou assim para não melindrar a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, que até então não venceu uma única batalha. Pudera. Marina quer simplesmente banir os transgênicos do mapa e, para atingir esse objetivo, se cercou de aliados ecoxiitas no ministério. Uma de suas armas nessa guerra é Marijane Lisboa, secretária de Qualidade Ambiental nos Assentamentos Humanos, encarregada do governo de discutir a transgenia em Brasília. Marijane tem folha corrida na área. Trabalhou por mais de dez anos no Greenpeace, incumbida das campanhas contra os transgênicos. Que independência se deve esperar de alguém com esse currículo? A ministra Marina Silva (com a assessoria de Marijane) é voz isolada no combate aos transgênicos. Conta com o apoio apenas do ministro Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário, outro inimigo declarado desse e de outros avanços tecnológicos. A chamada "alta cúpula" petista, no entanto, vê a semente sem a mesma paixão da dupla, e a tendência de José Dirceu e Antonio Palocci é apoiar uma faxina racional do texto no Congresso Nacional.

Poucos temas são discutidos num clima de tanta paixão e irracionalidade quanto a transgenia. Compreende-se. Os transgênicos representam uma ruptura cultural sem precedentes na história da humanidade, e um desafio à crença segundo a qual o homem pode pagar caro se mexer naquilo que Deus fez. O acerto de contas viria em forma de uma vingança da natureza, como aconteceu no caso da vaca louca. Nesse episódio, esses animais herbívoros foram artificialmente alimentados com rações com carne e adoeceram, provocando uma invasão de carne contaminada nos açougues europeus. No caso dos transgênicos, as pessoas, mesmo sem ter idéia precisa do que significam essas mutações, adotam uma postura contra ou a favor, em geral sem grandes reflexões. De um lado concentram-se os que tendem a aprovar os avanços científicos e os benefícios que trazem para a humanidade e para os fabricantes dos novos produtos que saem dos laboratórios. De outro, estão os que reprovam, principalmente ambientalistas e, de maneira geral, militantes de partidos de esquerda. Não importa o que digam os cientistas independentes a favor dos transgênicos, essa ala já decidiu que eles são um malefício – e acabou.

A ciência já falhou inúmeras vezes. A própria produção de animais clonados tem resultado em espécimes com defeitos e filhotes que já nascem com traços de senilidade. Mas a pesquisa científica, ao criar e lançar produtos para consumo da população, cerca-se de um rigor jamais visto. Os testes com alimentos modificados se transformam em relatórios submetidos à apreciação dos acionistas dos laboratórios, de comissões governamentais de saúde e ONGs. Nos Estados Unidos, há três órgãos federais regulamentando a produção de safras e alimentos geneticamente modificados. Entre eles está o FDA, departamento que analisa os níveis de toxicidade e potencial alergênico dos grãos para só então autorizá-los a entrar no mercado. Segue-se para os transgênicos o mesmo processo de verificação usado na aprovação de remédios.

A oposição aos transgênicos não se limita, no entanto, a movimentos preocupados com a saúde das pessoas e o equilíbrio do meio ambiente. Ela é engrossada por opositores ideológicos, para os quais as grandes empresas multinacionais que produzem transgênicos passariam a ter controle, através do domínio dessa técnica, sobre a agricultura dos países pobres. A relação comercial cotidiana é apresentada como uma transação que reúne musculosas companhias fornecedoras de semente transgênica, todas estrangeiras, e fracotes agricultores de países em desenvolvimento, como o Brasil. No site do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, lê-se o seguinte: "A patente genética, dominada por poucas nações, é um método mirabolante de controlar a agricultura mundial, ditando quem pode ter lucros e quem deve ficar com os prejuízos, controlar a área plantada e em quais países. Uma ditadura genética sem retorno". Esse trecho faz parte do texto "Um futuro mutante e desconhecido", disponível no endereço www.mst.org.br. Diferentemente do que pode parecer aos críticos ideológicos das sementes genéticas, os agricultores há muito trabalham em parceria com grandes companhias estrangeiras. Por meio dessas parcerias, compram maquinários, implementos agrícolas e até aviões, no caso das fazendas maiores. Desde o fim da I Guerra, os produtores rurais de países como o Brasil se relacionam com grandes fabricantes de plantadeiras, tratores e colheitadeiras, setor igualmente dominado por empresas multinacionais. Outra parceria vital do campo com as multinacionais se dá na compra dos pesticidas, em que também operam companhias internacionais gigantescas.

José Pascoal/Jornal da Divisa/AE

EM BUSCA DAS MANCHETES
Acima, caminhões de soja detidos no Paraná, sob a acusação de transportar transgênicos. Abaixo, protesto de ambientalistas contra os alimentos modificados: muito barulho e poucas evidências

Dida Sampaio/AE

A chegada dos transgênicos, portanto, não muda paradigma algum nessa área. As multinacionais, que já dominavam o maquinário e a produção de defensivos agrícolas, também estão na linha de frente da pesquisa biotecnológica, da mesma forma que são pioneiras na indústria automobilística, farmacêutica, naval ou aeronáutica. Existem três grandes companhias explorando a produção comercial de sementes transgênicas. São três gigantes, uma européia, a Syngenta, e duas americanas, a DuPont e a Monsanto. Algumas dessas empresas atuam em vários ramos. A DuPont, por exemplo, surgiu há 200 anos comercializando pólvora negra e hoje vende abrasivos, inseticidas, fios, polímeros, o kevlar, usado na construção de aeronaves, e o teflon, que a dona-de-casa tanto conhece. Fatura 75 bilhões de reais por ano, emprega 79.000 pessoas e atua em setenta países. No Brasil, a empresa-símbolo da transgenia é a Monsanto. Ninguém fala das demais. O motivo é que a soja é o único produto transgênico comercializado no Brasil, e a Monsanto detém a patente da única variedade de soja modificada existente no mercado, a Roundup Ready, um marco por ter sido o primeiro transgênico cultivado em larga escala no mundo. Fundada nos Estados Unidos no começo do século passado, a Monsanto fatura 15 bilhões de reais por ano e investe 10% de seu faturamento em pesquisa científica.

Investir em biotecnologia tem-se revelado um bom negócio para as companhias. Um cálculo feito pela Universidade de Iowa, nos EUA, chegou à conclusão de que, em 1999, o plantio de soja transgênica resultou em um excedente de 2,7 bilhões de reais em toda a cadeia. A maior parte desse dinheiro, 55%, ficou com a Monsanto; os outros 45% foram distribuídos pelos milhares de fazendeiros que plantaram as sementes modificadas. Apesar das críticas do MST, nenhum produtor rural é obrigado por quem quer que seja a plantar transgênicos. Compra grão modificado quem quer. Quem não quer compra as sementes comuns. O atrativo é o aumento de lucratividade. Os estudos mostram que, em troca de royalties, as empresas oferecem aos fazendeiros lucro que pode ser até 25% maior do que aquele que obteriam se cultivassem a lavoura com sementes comuns. O motivo é que as lavouras transgênicas exigem menos agrotóxicos e são mais fáceis de tratar. A vantagem da transgenia, no caso da soja já comercializada com essa característica, é que ela é resistente à aplicação de um herbicida para exterminar as ervas daninhas. A plantação torna-se, assim, mais produtiva para o agricultor.

Os fabricantes de transgênicos gostam de apontar a chegada do grão modificado geneticamente como uma nova "revolução verde", o salto na produção agrícola ocorrido na década de 1960 que livrou o planeta de uma tragédia provocada pela fome. Naquele tempo, dezenas de milhões de indianos, paquistaneses e chineses corriam sério risco de morrer de desnutrição e foram salvos por uma combinação de herbicidas, adubos e sementes selecionadas. Do ponto de vista científico, a transgenia impressiona, pois os cientistas encontraram uma forma de alterar a estrutura molecular das plantas e de enriquecê-las com genes de outras plantas ou até mesmo de bactérias em busca de um alimento com maior concentração de nutrientes ou mais resistente à ação das pragas. Pesquisadores indianos chegaram a um tipo de batata enriquecida com proteína. Nos Estados Unidos testam-se misturas de vegetais que podem, além de alimentar, combater doenças como hepatite B, cólera e diabetes. Como os produtos são desenvolvidos em laboratório, onde todos usam avental, é como se estivesse em curso uma "revolução branca".

No aspecto da ciência, os transgênicos representam uma etapa mais sofisticada que a da revolução verde. Mas, no que diz respeito aos aspectos econômicos e sociais, há mais promessa que realização. Com a introdução dos defensivos agrícolas e adubos químicos no começo dos anos 60, a produção mundial de comida triplicou. Em alguns casos, bem mais do que isso. Em 1940, os EUA produziam 56 milhões de toneladas de milho em 32 milhões de hectares. Segundo registros de 1999, a área semeada havia sido reduzida à metade, mas a produção ficou oito vezes maior. No caso dos transgênicos, os ganhos econômicos não estão crescendo nessa escala gigantesca. Na Europa, o óleo produzido com soja transgênica está um pouco mais barato que o da versão não transgênica. Ainda assim, não é possível afirmar se o preço menor se deve aos ganhos de produtividade ligados à transgenia ou a uma política de preços favoráveis para tentar contornar uma eventual resistência do consumidor. O que ajuda a decidir a questão é o interesse manifestado por quem entende do assunto – os agricultores. Eles estão procurando febrilmente as sementes transgênicas para plantar, sinal de que têm com elas maior produtividade. Quando são apresentados ao fato de que ainda não revolucionaram o planeta, os fabricantes de transgênicos dizem que as sementes modificadas ainda são novas demais. Prometem que o grande impacto na produção virá com o tempo.


Com reportagem de Felipe Patury e Diogo Schelp

O medo do novo

As pessoas já protestaram contra a vacina, a fluoretação da água, a pasteurização do leite, o bebê de proveta, a pílula anticoncepcional, a globalização, o McDonald's e, agora, os transgênicos

O novo assusta sempre. No caso dos transgênicos, repete-se um comportamento já observado durante toda a história da humanidade. O homem, por instinto de preservação, prefere o conforto daquilo que é conhecido ao stress que representa o embate com uma novidade. Embora a segurança dos alimentos modificados geneticamente seja assegurada por laboratórios de reputação indiscutível, algumas perguntas não estão 100% respondidas (veja reportagem). Seria assustador imaginar um cenário em que, daqui a vinte anos, as empresas que exploram a transgenia venham a público para pedir desculpa por alguma falha na avaliação das pesquisas. É natural, portanto, que as pessoas cobrem explicações. As próprias companhias estimulam a cobrança, pois não vão vender uma só espiga de milho se seus produtos chegarem ao mercado sob um manto de incerteza.

A história mostra que os protestos costumam ser mais fortes quando se suspeita que algo possa colocar em risco a segurança da família. No fim do século XIX, as pessoas se manifestaram contra a pasteurização, que livra o leite de micróbios e bactérias. Nas décadas de 1940 e 1950, registraram-se nos Estados Unidos protestos de consumidores contra a fluoretação da água, embora a medida seja tida como a maior arma conhecida ao combate às cáries. Observados a distância, protestos desse tipo soam exóticos e podem passar a impressão equivocada de que a população era menos racional no passado. Não se trata disso. Não foi a desconfiança a respeito do novo que diminuiu. Foi o avanço tecnológico que tornou certas crenças inconcebíveis no presente.

Tome-se o caso do sanitarista Oswaldo Cruz, que entrou para a história como o responsável pela primeira grande campanha de vacinação no Brasil, ocorrida em 1904. Seu nome é festejado no meio médico. Na época, contudo, a iniciativa deixou um saldo de 23 mortos e 67 feridos no episódio que ficou conhecido como a Revolta da Vacina. A população do Rio de Janeiro vivia numa cidade que cresceu de forma desordenada. Não havia saneamento básico, proliferavam cortiços sem condições de higiene satisfatórias e alastravam-se doenças contagiosas, como a peste bubônica, a cólera, a varíola e a febre amarela. Quase 1.000 pessoas morreram de febre amarela dois anos antes. Com o objetivo de erradicar doenças, o governo começou um programa de higienização da cidade e de vacinação compulsória. O presidente da República, Rodrigues Alves, deu carta branca para que Oswaldo Cruz, seu diretor de Saúde Pública, promovesse uma grande campanha. Em vez de apoio maciço, o que se viu foi a reação da população, que não queria ser vacinada. E a coisa acabou em pancadaria, como ocorre hoje quando multidões de ambientalistas azucrinam as reuniões de potentados do mundo globalizado com gritarias, pedradas e marchas, durante reuniões da Organização Mundial do Comércio ou do Fórum Mundial de Davos, na Suíça.

O processo de urbanização e o desenvolvimento das comunicações deram uma dimensão maior aos protestos contra o novo. A gritaria ocorre em ondas, ultrapassa fronteiras e se dá de forma globalizada. O Greenpeace atua como multinacional do grito em quarenta países, ocupando manchetes nos jornais de todo o mundo. As passeatas antiglobalização, que acabam em pancadaria quando os manifestantes tentam enfrentar os policiais, acontecem em diversas capitais. Seus integrantes ganharam até uniforme internacional, que inclui capacetes e escudos. O script da peça que encenam é conhecido. Falam mal de George W. Bush, reclamam do McDonald's, deitam-se no chão e esperam ser tirados pelos policiais.

As novas tecnologias são a maior fonte de protesto no mundo porque não se podem prever antecipadamente todos os seus efeitos. Durante a Revolução Industrial, a Inglaterra atravessou uma fase de grande avanço tecnológico com a introdução de máquinas e linhas de produção. As rocas de fiar desapareceram. Em 1813 havia pouco mais de 2.000 teares a vapor em funcionamento na Inglaterra. Vinte anos depois, o parque tinha se multiplicado cinqüenta vezes. Previsivelmente, surgiram as reações na forma de seguidos ataques às fábricas. Grupos armados com barras de ferro e pedaços de pau invadiam estabelecimentos e destruíam teares. Os líderes do movimento redigiam manifestos contra a tecnologia assinados por um personagem imaginário, o general Ludd. O episódio entrou para a história como o Movimento Ludita, encerrado depois que o Parlamento aprovou uma lei punindo com pena de morte quem destruísse máquinas. Alguns luditas chegaram a ser executados. Na cidade de York, um dos líderes subiu ao patíbulo com treze companheiros.

O novo incomoda em todas as esferas do conhecimento, nas artes plásticas, na política, na economia, no campo dos costumes e na ciência – e é principalmente nessa área que o homem expõe de forma mais explícita sua insegurança. Parte das pessoas protesta porque sente que o mundo está mudando e comprometendo valores que aprendeu a respeitar. Vive-se uma vida imaginando que a Terra é chata e de repente se descobre que ela é redonda. Aprende-se que a Terra é um planeta estático e que está no centro do universo. Vem alguém, um sábio incômodo, e diz que ela se move em torno do Sol. A reação é compreensível. Outra parte protesta porque não aceita mudanças, ainda que ela não seja obrigada a seguir a nova tendência. Em 1978, o nascimento de Louise Brown, na Inglaterra, representou um marco na evolução da reprodução humana. Ela foi o primeiro bebê concebido em laboratório. Como a mãe de Louise era estéril, o bebê foi fecundado num tubo de ensaio. Surgiram manifestações contrárias imediatamente após o anúncio do nascimento do primeiro bebê de proveta. Políticos conservadores chegaram a dizer que a técnica poderia ser usada para a criação de uma raça superior. Hoje, casais em todo o mundo recorrem à fertilização in vitro para realizar o sonho de ser pais. Como se vê, leva tempo até que a razão acabe prevalecendo.


Com reportagem de
Sandra Brasil

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