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Você sabe o que é água virtual? Carlos Tautz "Água virtual". Esse deve ser no futuro bem próximo um dos principais itens dos fluxos internacionais de comércio, mas o Brasil, que tradicionalmente não se representa à altura das suas potencialidades nos fóruns como a poderosíssima Organização Mundial do Comércio (OMC), ainda não se preparou adequadamente para enfrentar mais esta faceta do mercado globalizado. Nosso País é o 10º maior exportador de
"água virtual" do mundo, em ranking liderado pelos Estados Unidos
(que anualmente vende ao exterior em média 164 milhões de metros cúbicos
de água). Tido como um dos países mais ricos em água potável do planeta,
o Brasil foi responsável pela comercialização no mercado internacional,
entre 1995 e 1999, de uma quantidade entre 10 milhões e 100 milhões de m³
de água virtual, tendo a maior parte deles como destino a Europa.
"Água virtual" é ainda um conceito muito novo e refinado, mesmo
nos EUA. Até hoje, vem sendo utilizado por poucos técnicos nos
debates sobre comércio e por alguns cientistas da Organização das
Nações Unidas (ONU) que estudam, formas de Ambiental (IHE), sediado na Holanda. Em março, conversei com Hoekstra durante o terceiro Fórum Mundial da Água, realizado no Japão. Na oportunidade, ele exemplificou como a água virtual compõe cada produto do nosso dia-a-dio. Cada quilo de pão gasta, para ser produzido, cerca de 150 litros de água, se considerarmos desde o plantio do trigo até a produção de energia para assar o pão. No caso da batata, são utilizados entre 100 e 200 litros de água, enquanto a mesma quantidade de arroz consome 1.500 litros. Cinco mil chips de 32MB, cada um pesando 2g, consomem 16 mil litros de água, no total, para serem fabricados. Hoekstra defende que "os países levem em consideração o volume de água embutida em suas exportações e importações". E é bom o Brasil prestar atenção ao conselho do professor. Hoje, todo o território brasileiro, segundo a Unesco, agência da ONU para a educação, encontra-se em leve risco de escassez de água. Mas, até 2025, a falta absoluta de água pode atingir porções enormes do território nacional. O professor holandês também sustenta a tese de que o tema da água virtual deva ser considerado desde um ponto de vista geopolítico. "Países que tem escassez de água devem planejar a importação de produtos cuja produção consomem quantidades grandes de água virtual - em especial alimentos e, principalmente, frutas - , ao passo que as nações ricas em água podem balancear suas exportações de produtos com grande quantidade de água virtual. "Quase 20% da água mundialmente consumida na agricultura é comercializada com outros países sob a forma de produtos derivados das mercadorias agrícolas", calcula Hoekstra. "É um volume enorme de água, uma vez que todos os anos quase cinco trilhões de metros cúbicos de água são utilizados na agricultura e perto de um trilhão de alguma forma vai parar no comércio entre nações", disse. Essa observação é de relevância especial para o Brasil, no momento em que o País bate novo recorde de uma produção agrícola - mais de 100 milhões de toneladas na safra 2002/2003, sendo colhida agora- , que em boa medida será exportada. Uma pergunta se impõe: deverá o país insistir em vender grãos no mercado internacional, enquanto corre o risco de em pouco mais de 20 anos enfrentar uma crise no fornecimento de água? Outra pergunta deriva das ponderações do professor Hoekstra: já que as regiões do mundo em que a demanda por água é elevada nem sempre apresentam também disponibilidade alta de água, não deveremos então incluir esse assunto na pauta das discussões sobre segurança alimentar? |